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Bréhier: FINALIDADE DA FILOSOFIA

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Excertos da tradução de História da Filosofia, de Émile Bréhier  , por Eduardo Sucupira FIlho  

A unidade   de todas essas formas, aquilo que, de certa maneira, as faz necessárias, consiste no desejo de situar o filósofo na cidade e sua missão moral e social. Na Grécia de então, o filósofo nunca se define por sua relação   com outros gêneros de especulação  , científica ou religiosa, mas, preferencialmente, por relacionamento e diferenças com o orador, o sofista  , o político  . A filosofia é a descoberta de uma nova forma de vida intelectual que, de resto, não se pode separar da vida social. Os diálogos retratam esse estilo de vida, e, com ela, todos os dramas e comédias que dela decorrem. Sob certos aspectos, essa filosofia defronta-se com hábitos solidamente implantados na Grécia dessa época, e era inevitável que se produzissem conflitos, de que a morte de Sócrates   é uma das consequências trágicas.

O que vem a ser o filósofo? Há em Platão múltiplos retratos.No Fédon (64 e sq.), é o homem   que se purificou das manchas do corpo, e não vive senão para a alma  , não receia a morte, pois que, após a morte, a alma se separa do corpo. No Teeteto   (172c- 177 c), é o homem inábil e pouco destro em suas relações com os semelhantes, que nunca terá situação   definida na sociedade humana e continuará sem influência na cidade. Na República  , é o dirigente da cidade, e, do mesmo modo, nas Leis (X,909 a), torna-se essa espécie de inquiridor, que, pretendendo a "salvação   da alma" dos cidadãos, impõe aos habitantes da cidade a crença nos deuses locais ou ameaça de prisão   perpétua. Finalmente, é o entusiasta e o inspirado do Fedro   (244 a e sq.) e do Banquete   (210 a). Há nesses retratos sucessivos dois   traços dominantes que parecem contradizer-se: de um lado, o filósofo deve "fugir   do aqui" (Teeteto, 176 a), purificar-se, viver   em consonância com as realidades que o sofista   ou o político desconhecem. De outro lado, construir a cidade justa, em que se refletem, nas relações sociais, os contatos verdadeiros e rigorosos que constituem o objeto do conhecimento. O filósofo é, de uma parte, o sábio   retirado do mundo, e, de outra, o sábio e o justo, o verdadeiro político que dá leis à cidade. O próprio   Platão não é, ao mesmo tempo  , o fundador da Academia, o amigo dos matemáticos e dos astrônomos, mas também o conselheiro de Dion e de Dionísio, o tirano? Ademais, se, como filósofo, é o inventor ou promotor de uma lógica   rigorosa, é também o inspirado, cujo espírito   acabaria estéril sem o impulso de Eros  , e que não pode engendrar senão o belo (Banquete, 203 c sq., 206 c): a discussão raciocinada desdobra-se em uma dialética do amor, que se traduz por efusões líricas e contemplações místicas (Ibid., 210 e). Sábio e místico, filósofo e político, tais são os traços, comumente separados, que, no curso desta história, não iremos reencontrar unidos senão em alguns grandes reformadores do século XIX. É importante, também, compreender a causa   dessa união  .