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Brun: A Dialética Platônica

sexta-feira 25 de março de 2022

      

Assim, a matemática é uma ciência da medida que nos colocou na via do inteligível. Mas será ela a única ciência da medida? Será ela a ciência da medida? Já no Protágoras (356 e), Platão   notava que se devêssemos escolher para a nossa salvação entre o par e o ímpar, necessitaríamos de outra ciência da medida que não aquela que nos permite definir   o par e o ímpar, necessitaríamos de uma ciência da medida que nos permitisse medir o par e o ímpar em função da nossa salvação. Uma tal ciência da medida seria uma ciência da Justa Medida capaz de condenar tanto o excesso   como o defeito  . Mas é sobretudo no Político (283 c e seg.) que a distinção é pormenorizada (Cf. Rodier, Etudes de philosophie grecque, Paris — p. 37: Les mathématiques et la dialetique dans le système de Platon). Platão distingue aí duas ciências da medida (metretike). A matemática, por um lado, que estuda as relações recíprocas — esta arte da medida possui apenas relações de grandeza  , dá-nos apenas medidas relativas—; a dialética, por outro, que trata das relações em função da justa medida (pros to metrion) A matemática, de fato, apreende algo do ser, mas isso faz-se como num sonho   (oromen os oneirot tousi menrpei to on, Rep.  , VII, 533 c), pois parte de hipóteses, ou seja, não de suposições, mas de proposições de base, que não justifica; a partir dessas proposições de base encaminha-se para uma conclusão (teleute, Rep., VI, 510 b — Heidegger  , Qu’appelle-t-on penser? Paris, 1959, p. 188) mas não regressa ao seu princípio (arche  ). A dialética, pelo contrário, não procede em direcção a uma conclusão, é antes «a única que, rejeitando sucessivamente todas as hipóteses, se ergue até ao próprio   princípio de modo a assegurar solidamente as suas conclusões, a única da qual é verdade   dizer que retira pouco a pouco o olho da alma   da lama grosseira em que estava enterrado, e o eleva ao alto tendo ao seu serviço e utilizando para tal as artes que enumeramos» (Rep., VII, 533 cd). A dialética trata da geração no sentido da essência (genesis   eis ousian, Fil., 26 d, cf. Pol., 283 d). Zeller faz notar que esta expressão é estranha pois não existe nem devir nem geração nas ideias; mas, como muito justamente faz notar Rodier (Etudes de philosophie grecque), também não existe essência no mundo sensível  ; se Platão fala de uma geração no sentido da essência, é porque qualquer geração tem por fim a ideia, a essência, ou seja, o Bem; na base de qualquer devir está uma finalidade que a dialética tem a responsabilidade   de descobrir.

Deste modo, o dialéctico é não só «aquele que atinge o conhecimento da essência de cada coisa» (Rep., VII, 534 b), mas é ainda aquele que, chegado ao coroamento e ao cume de todas as outras ciências, já não vê as coisas e os seres como posicionados uns ao lado dos outros, ou mesmo uns contra os outros, mas possui antes, de todas as coisas, uma visão sinóptica graças à qual tudo lhe surge à luz de uma unidade   que não é mais que a do Bem. Assim, «aquele que é capaz de uma visão de conjunto   é um dialético; os outros não o são» (o men gar synoptikos dialektikos   o de me ou, Rep., VII, 537 c).

Esta dialética compreende dois   momentos (cf. Rep., VI, 511 b, e Fedro  , 265 d):

a) Uma dialética ascendente (synagoge) que se eleva de ideia em ideia até ao não hipotético, até à Ideia de todas as ideias, ou seja, o Bem, que ultrapassa em majestade e em poder   a própria essência e que se mantém portanto para além dela (epekeina   tes ousias presbeia kai dynamei Rep., VI, 509 &). A dialética ascendente vai portanto do múltiplo ao uno  , de modo a descobrir o princípio de cada coisa, e depois o princípio dos princípios; é ela que Sócrates   usa nos diálogos morais.

b) Uma dialética descendente (diairesis  ) que procura   desenvolver, através do poder da razão  , as diferentes consequências desse princípio não hipotético sobre o qual tudo repousa, e reconstruir deste modo a série das ideias sem recorrer à experiência. Platão compara desta maneira o dialético com um cortador de talho capaz de dissecar um corpo pelas suas articulações naturais (Fedro, 265 e). A dialética descendente é aquela que podemos encontrar aplicada na República e no Timeu  .

Compreende-se assim o que quer dizer Sócrates quando confessa a Fedro: «É por isso, Fedro, que estou quanto a mim muito apaixonado: por essas divisões (diaireseon) e essas ligações (synagogon), tendo em vista ser capaz de falar e de pensar. Para além disso, se julgo ver noutra pessoa   uma aptidão para dirigir o olhar na direção   de uma unidade e que seja a unidade natural de uma multiplicidade, esse homem  , persegui-lo-ei» (Fedro, 266 b).