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Bréhier (HF) – Platonismo

segunda-feira 19 de setembro de 2022

      

Sucupira Filho

A partir da época que se segue imediatamente a Platão  , houve desacordo quanto à significação dos diálogos  . Da Antiguidade   até nossos dias, doutrinas divergentes se proclamam procedentes dele. À época de Cícero  , por exemplo, atribuía-se a Platão um   dogmatismo análogo ao dos estoicos  ; outros viam nele um partidário da dúvida e da suspensão do julgamento  . Um pouco mais tarde, a partir do século I, místicos e renovadores do pitagorismo acolhem-se á sombra do nome e dos escritos de Platão, e o platonismo converte-se em sinônimo de doutrina  , que sobrepõe a alma   ao pensamento   e ao ser, unindo-a a um Bem, que é amado   e apreciado, mais do que conhecido. Em contraposição, vemos no século XIX esboçar-se uma tendência fortemente defendida em nossos dias, que quer fazer de Platão um puro racionalista que identifica a verdadeira realidade com o objeto da inteligência, e ensina a determinar o objeto por meio da discussão racional, cujo modelo é emprestado aos matemáticos. [1]

A divergência entre essas interpretações explica-se não só pela excepcional riqueza   de seu pensamento, do qual é quase impossível, ou, em todo o caso, difícil, apreender todos os aspectos do sistema, mas em virtude da forma literária dos escritos. Deve-se insistir sobre esse segundo ponto. O diálogo   platônico não apresenta os aspectos didáticos, acerca dos quais os filósofos jônios e médicos hipocráticos proporcionaram o modelo. Algo parecido vê-se somente nas obras da velhice: todas as considerações de ordem   fisiológica, ao final do Timeu  , e boa parte das Leis constituem simples narrativas. Mas são trabalhos aos quais Platão não deu, salvo em algumas partes, forma definitiva. Tirante essas exceções, as obras de Platão revelam um aspecto que as classifica de modo inteiramente diverso. Se nas escolas socráticas, mais ou menos contemporâneas de Platão, escrevem-se diálogos, essa forma de exposição foi.quase abandonada na Antiguidade, apesar de alguns exemplos esporádicos, como os de Cícero ou Plutarco  . E particularmente significativo que os neoplatônicos do fim da Antiguidade nunca imitem os processos literários do mestre e se esforcem, por todos os meios, para reencontrar no diálogo o substrato   dogmático, para o que seria importante procurar reconhecer   a forma literária do pensamento platônico, na medida em que interessa â interpretação de sua filosofia.

Original

Dès l’époque qui a suivi immédiatement Platon, il y a eu désaccord sur la signification de ses dialogues. De l’antiquité jusqu’à nos jours, on voit se réclamer de lui des doctrines divergentes ; à l’époque de Cicéron, par exemple, les uns rattachaient au nom de Platon un dogmatisme analogue à celui des stoïciens, les autres voyaient en lui un partisan du doute et de la suspension du jugement. Un peu plus tard, à partir du 1er siècle, les mystiques et les rénovateurs du pythagorisme s’emparent du nom et des écrits de Platon, et le platonisme devient synonyme d’une doctrine irrationaliste qui élève l’âme au dessus de la pensée et de l’être et l’unit à un Bien qui est aimé et goûté plutôt que connu. En revanche, nous voyons au XIXe siècle se dessiner une tendance, encore très forte   maintenant, à faire de Platon un pur rationaliste qui identifie la réalité véritable à l’objet de l’intelligence et enseigne à déterminer cet objet par une discussion raisonnée, dont le type est emprunté aux mathématiques .

Une pareille divergence entre les interprètes s’explique non seulement par la richesse exceptionnelle de sa pensée, dont il est peut être impossible et, en tout cas, très difficile de saisir d’ensemble tous les aspects, mais par la forme littéraire qu’elle revêt. Insistons d’abord sur ce second point. Le dialogue platonicien n’a rien de ces traités didactiques, dont les philosophes ioniens et les médecins de la collection hippocratique donnaient déjà le modèle. Dans les œuvres de vieillesse seulement, on voit quelque chose de semblable : toutes les considérations physiologiques de la fin du Timée et une bonne partie des Lois sont de simples exposés ; mais ce sont des œuvres auxquelles Platon n’a pas donné, sauf en certaines parties, leur forme définitive. Sauf ces exceptions, les œuvres de Platon ont un aspect qui les classe tout à fait à part ; car, si, dans les écoles socratiques, à peu près contemporaines de Platon, on écrit des dialogues, cette forme d’exposition a été presque complètement abandonnée de l’antiquité, malgré les quelques exemples sporadiques qu’on en peut donner, comme ceux de Cicéron ou de Plutarque ; il est particulièrement significatif que les néo platoniciens de la fin de l’antiquité n’imitent jamais les procédés littéraires du maître et s’efforcent par tous les moyens de retrouver dans le dialogue la substance dogmatique, et il est d’autant plus important de chercher à apprécier la forme littéraire de la pensée platonicienne, dans la mesure où elle intéresse l’interprétation de sa philosophie.


Ver online : Émile Bréhier


[1CÍCERO, Últimos acadêmicos, I, 15-18; APULEIO, O Deus de Sócrates; NATORP. Platos Ideenlehre, 1903.