Página inicial > Arte e Simbolismo > Bugault Filosofias

Bugault Filosofias

domingo 20 de março de 2022

      

1. PROTOCOLO DA CONFRONTAÇÃO
Ensaiemos enunciar algumas regras capazes de servir de «moderador» da discussão, antes de enfrentar a confrontação entre a ideia que podemos ter da filosofia e o que na Índia classifica-se, certo ou não, sob o mesmo nome. Há, nos parece, três condições prévias à investigação.

1.1. INVESTIGAÇÃO DE UMA DEFINIÇÃO DA FILOSOFIA

A princípio, idealmente, seria desejável estar de acordo   sobre uma definição da filosofia, na falta da qual o debate   arrisca capengar de cara pelos mal-entendidos. Infelizmente a experiência mostra que há quase tantas definições da filosofia quanto filósofos. A dificuldade   é grande em separar a forma da matéria, o continente do conteúdo. Mesmo a admirável definição de Jules Lagneau [1] é no fundo solidária de uma certa filosofia individualista — sinão idealista — da consciência  . Um marxista não poderia aceitá-la. Mesmo a impossibilidade de uma definição comum entre escolas fenomenológicas e escolas positivistas ou analíticas, etc.

Não podendo dispôr de uma definição formal, devemos nos contentar com um procedimento empírico. Abramos uma História da filosofia reconhecida pela comunidade internacional. O conteúdo dela é extraordinariamente disparate. Assim, ao lado de Kant   que permanece sem dúvida para os universitários o protótipo do filósofo, encontrar-se  -á não somente Platão mas os neoplatônicos, Santo Agostinho  ; não somente Aristóteles   mas São Tomás, Lutero e Calvino, vide Thomas Müntzer. Em nossos dias enfim, não longe da história das ciências, entrona-se a célebre trindade   Nietzsche  , Marx  , Freud  .



[1«O dia no qual Sócrates viu se esvanecer assim diante de sua reflexões a clareza natural, aquela da evidência e do sentido comum, entrou na filosofia. Pois a filosofia não é outra coisa senão o esforço do espírito para se dar conta da evidência, quer dizer para esclarecer pouco a pouco, em aí descendo, mas de uma luz artificial e sempre instável, este abaixo sempre infinito do pensamento, que a natureza prudente nos rouba a princípio, onde se prepara no entanto a luz natural, permanente, cuja consciência se ilumina, sem se demandar, senão por instantes, de onde ela vem. Digamos audaciosamente, filosofar é explicar, no sentido vulgar das palavras, o claro pelo obscuro, clarum per obscurius. (...) Os prisioneiros da caverna são os prisioneiros da evidência» (Jules Lagneau, Célebres lições e fragmentos, p. 32). A notar que no teatro indiano a evidência (pratyaksa) aparece sob os traços de um personagem cômico.