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Lectio Divina

domingo 20 de março de 2022

      

Excertos de "Eremitas do Saccidânanda"

A lectio divina compreende todas as leituras capazes de ajudar a alma   a elevar-se   até Deus  . É para os monges a utilização mais eficaz de seu otium sanctum, a melhor e mais imediata preparação à oração, o meio mais seguro de assimilar as verdades divinas que o espírito   ruminará e saboreará livremente na paz   e no silêncio. A lectio divina é, ela própria, oração, por pouco que a alma se abra à luz interior   e se deixe elevar pela graça   divina àquilo que se chamou "meditação contemplativa" — forma de oração muito familiar aos Antigos, subjacente com frequência em seus comentários da Escritura, em suas exposições doutrinárias e em suas elevações a Deus.

As fontes principais da lectio divina foram sempre, para os monges, a Sagrada Escritura e as obras dos Padres da Igreja  . Para uma alma verdadeiramente contemplativa, entretanto, não há estudo, filosófico ou teológico pelo menos (à parte evidentemente os assuntos de pura especulação ou erudição), que não se transforme em elevação para o Alto ou em entrada no interior. Assim sendo, em que se basearia o direito, para os monges, de se entregarem a estudos que não fossem ad pietatem ? (cf. S. Th. IIa. IIae, 188, 5).

"Como toda a vida do monge   deve ser levada em presença da Testemunha do Alto, e está ordenada à obra da contemplação, os irmãos entregar-se-ão antes de tudo aos estudos capazes de desenvolver em seus corações o espírito de oração" [1].

Os Eremitas do Saccidânanda terão todo empenho em transformar em lectio divina, ou melhor, em fazer em espírito de lectio divina, suas leituras e estudos concernentes à antiga sabedoria da índia. Com efeito, é num espírito de "orante" — ao mesmo tempo   para melhor compreender e para evitar todo perigo — que convém aproximar-se de tais obras, frutos geralmente de uma procura   muito sincera de Deus, quando não de iluminações devidas à graça, quaisquer que possam ser as sombras que às vezes as desfiguram. Agindo assim, os monges não deixarão de reconhecer  , pouco a pouco, os caminhos pelos quais esses raios de luz dispersos imergem no Sol   pleno   e não deixarão de experimentar, neles próprios, aprofundamentos insuspeitados.

A Regra   de São Bento reserva duas horas por dia  , e às vezes mais, à lectio divina; o que não quer dizer que os primeiros Cassinenses tenham sido todos intelectuais : a Regra o deixa perceber e os Diálogos de São Gregório o provam abundantemente. A vida contemplativa, na verdade   — e São Bento a compreendeu admiravelmente — exige uma sólida base intelectual que não se confunde, aliás, com um estudo sistemático da teologia. Do contrário, a não ser no caso de graças de oração muito particulares, portanto raras, como poderiam os monges preencher utilmente suas longas horas de solidão   e de silêncio em presença de Deus? As exigências da vida contemplativa, assim como a fidelidade à Regra, requerem um mínimo de duas horas quotidianas consagradas à lectio divina, seja a leitura espiritual propriamente dita, seja o estudo orientado para a contemplação.

Só assim a alma se tornará pouco a pouco capaz de viver   inteiramente e unicamente no seu interior, secura. Então os livros da terra  , que são tomados e em seguida abandonados, e que passam, cederão lugar   ao "livro do interior", livro vivo e sempre aberto... Quod Spiritus Sanctus in operário suo mundo a vitiis dignetur demonstrare!


NOTA

[1"Omnis vita monastica quia in Superai Inspectoris oculis transigenda est et ad opus contemplationis tota ordinatur, lis praesertim studiis Fratres debent íncumbere quibus in corde suo spiritus orationis nutritur" (Constitutions de Saint-Pierre de Solesmes, declaração sobre o Cap. XX da Santa Regra).