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Eudoro de Sousa (MHM:181-182) – horizontes da objetividade e da trans-objetividade

sábado 5 de fevereiro de 2022

      

Propusemos, neste livro, dois   horizontes em lugar de um só: o horizonte   da objetividade, que é limite da objetividade e liminar da trans-objetividade; e o horizonte da trans-objetividade, que é limite da trans-objetividade e liminar da Realidade  . Se necessário fosse o traçado de um esquema geométrico, esse consistiria apenas de duas circunferências concêntricas. Apenas o centro   comum não significa o mesmo para as duas, ou antes, para a primeira, interior, e para a coroa circular que a envolve. A diferença   de significados resume-se nisto: o centro da circunferência interna, que é circunferência limitante do primeiro círculo, é ocupado pelo sujeito-objetivante que é o Homem  . O centro da circunferência externa, ou da coroa circular que [181] envolve a primeira, é, geometricamente, o mesmo ponto, mas, agora, desse ponto central o homem é excêntrico. No centro da coroa circular que figura o domínio   da trans-objetividade está o que quer que possa denominar-se um «deus  ». Querendo manter a linguagem da objetividade, diríamos que a circunferência externa limita um âmbito de objetivação que já não é o nosso. Dentro da primeira circunferência está tudo o que se possa chamar de «coisa-objeto»; o círculo é o mundo do só-humano, é o mundo por nós construído como sujeitos sempre iguais e, porque sempre iguais são os sujeitos, esse mundo está todo ocupado por entidades iguais (iguais enquanto «coisas», por diversas que as «coisas» sejam). É nesse Mundo de «coisas» que se passa a nossa vida, a maior parte dela, da nossa vida indisponível para o que não seja «coisa» que fizemos e fazemos. Mas há homens que se distraem da concentração no afazer; para esses, a circunferência-limite da objetividade volveu-se em liminar da trans-objetividade, e, por algum tempo   que ele passe no limbo, as «coisas» vão perdendo a sua opacidade, e enquanto essa opacidade se vai perdendo, cada vez mais o limbo se estreita. E aí vem a primeira metamorfose, metamorfose do homem e metamorfose do mundo, metamorfose do homem pela metamorfose do mundo, que se identifica com a metamorfose do mundo por metamorfose do homem. Na metamorfose dramática: o homem que desempenhou seu papel «diabólico», no drama   «diabólico», representado num palco «diabólico», diante de um cenário «diabólico», passa a desempenhar outro papel, o do drama «simbólico», que se representa em palco «simbólico», diante de um cenário «simbólico». Basta que o drama passe de «diabólico» a «simbólico»: o resto vem por consequência. As coisas que na objetividade eram só coisas, coisas que eram só «coisas» humanas, coisas que os homens fizeram por necessidade   intrínseca a um só fazer por não poder criar, são agora transparentes, ou antes, translúcidas; através delas passa a luz   da sua verdade  . E nisso deixam de ser «coisas». Porque símbolos são coisas que os homens não fazem, são as que aparecem feitas todas de uma vez, pelo aceno criador de um deus, e entre as que assim aparecem feitas também estão os homens, que se não fizeram a si próprios, por que eles são feitos. Aqui, na trans-objetividade, já não existe o Homem construtor do único Mundo que ele julga que existe. [EudoroMito:181-182]