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Anselmo Homem Desterrado

domingo 20 de março de 2022

      

O HOMEM   DESTERRADO
(Proslogion, cap. I.)

Nunca te vi, Senhor meu Deus  , nem conheci tua face  . Que fará, altíssimo Senhor, que fará este teu longínquo desterrado? Que fará teu servo  , ansioso de teu amor e lançado longe de tua face? Ansia por ver-te, e tua face lhe é muito distante. Deseja chegar a ti, e tua morada   é inaccessível. Apetece encontrar-te, e desconhece o lugar em que estás. Pretende procurar-te, e ignora teu rosto. Senhor, és meu Deus e meu Senhor, e nunca te vi. Fizeste-me e refizeste-me, e me destes todos meus bens, e ainda não te conheci. Por último, fui feito para ver-te, e ainda não cumpri aquilo para o que fui feito.

Ó desventurada sorte do homem, quando perde aquilo para o que foi feito! (...) Infelizes, de onde fomos expulsos, para onde fomos impelidos! De onde nos precipitamos, onde fomos cair! Da pátria ao desterro, da visão de Deus a nossa cegueira  . Do gozo da imortalidade   à amargura e ao horror da morte! Triste mudança  ! De quanto bem a quanto mal! Pesado dano, pesada dor  , pesado tudo.

Mas, ai de mim, desditado, um dos muitos infelizes filhos de Eva separados de Deus! que iniciei, que fiz? Para onde me inclinava, que foi feito de mim? A que aspirava, entre que males suspiro? Procurei os bens, e que perturbação! A Deus me inclinava, e em mim mesmo cai. Procurava o repouso secreto em mim, e encontrei a tribulação e a dor   em minha intimidade. Queria rir pelo gozo de meu espírito, e vejo-me obrigado a rurgir pelo gemido de meu coração  . A alegria   era esperada, e acumulam-se os suspiros!