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Eudoro de Sousa (MHM:155-156) – disponibilidade, esvaziamento

terça-feira 1º de fevereiro de 2022

      

68. Não posso repetir, nem, se pudesse, querería repetir um «antigo (des)encantamento  ». Ninguém pode repeti-lo. O desencantamento tem de ser novo, e o novo só será novo para o primeiro que ouse o gesto. Aliás, viver   na trans-objetividade não é o viver da comunidade dos que nada têm em comum. O trans-objetivo não o alcança quem quer que se proponha alcançá-lo, é o que ele mesmo — o trans-objetivo — alcança no que se dispõe a ser alcançado. O trans-objetivo apossa-se da disponibilidade do disponível. Mas onde está o disponível, se eu, que sei onde ele está, tão raramente me sinto disponível para a inteira disponibilidade? Total disponibilidade só a consegue o que consinta no [155] esvaziamento total. Quem não queria ter, para só querer ser. Mas não ser   isto ou aquilo, ou isto e aquilo. O que quer ser isto não quer ser aquilo; e o que quer ser aquilo não quer ser isto; e o que quer ser isto e aquilo não quer ser senão isto e aquilo. E isto e aquilo só é isto e aquilo. Não é o que não é nem isto nem aquilo. De facto não está disponível para «ser». Não é disponibilidade para o Ser. O Tudo só pode apossar-se do Nada. Tenho de ser Nada. Tenho de ser Nada, antes que seja Tudo. A presença toma o inteiro lugar da Ausência. Passar da indisponibilidade para a disponibilidade é como passar da objetividade para a trans-objetividade. Tenho de me desprover de objetos para me prover de símbolos, para me prover de cada «ser-origem» das coisas. [EudoroMito:155-156]