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O Mundo como Vontade e como Representação Tomo I

Schopenhaeur (MVR1:156-158) – corpo e vontade

Livro II §18

terça-feira 14 de setembro de 2021

Excerto de SCHOPENHAUER  , Arthur. O mundo como vontade e como representação. Primeiro Tomo. Tr. Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005, p. 156-158

De fato?, a busca da significação? do mundo? que está diante de mim simplesmente como minha representação?, ou a transição dele, como mera representação do sujeito? que conhece, para o que ainda possa ser? além? disso, nunca seria encontrada se o investigador, ele mesmo, nada? mais fosse senão puro? sujeito que conhece (cabeça de anjo? alada destituída de corpo?). Contudo, ele mesmo se enraíza neste mundo, encontra-se nele como INDIVÍDUO?, isto é, seu conhecimento?, sustentáculo condicionante do mundo inteiro como representação, é no todo? intermediado por um corpo, cujas afecções, como se mostrou, são para o entendimento? o ponto? de partida da intuição? do mundo. Este corpo é para o puro sujeito que conhece enquanto tal uma representação como qualquer outra, um objeto? entre objetos. Seus movimentos e ações? seriam tão estranhos e incompreensíveis quanto as mudanças de todos os outros [I 119] objetos intuitivos se a significação deles não lhe fosse decifrada de um modo? inteiramente diferente. Pois senão veria sua ação? seguir-se a motivos dados com a constância de uma lei? natural? justamente como as mudanças dos outros objetos a partir de causas, excitações e motivos, sem compreender? mais intimamente a influência dos motivos do que compreende a ligação de qualquer outro? efeito? com sua causa? a aparecer? diante de si. Ele, então, conforme o gosto?, nomearia a essência? íntima e incompreensível daquelas exteriorizações e ações de seu corpo justamente uma força?, uma qualidade? ou um caráter?, porém sem obter dessas coisas? nenhuma intelecção? mais profunda. Mas tudo isso não é assim. Antes, a palavra? do enigma é dada ao sujeito do conhecimento que aparece como indivíduo. Tal palavra se chama VONTADE?. Esta, e tão-somente esta, fornece-lhe a chave para seu próprio? [156] fenômeno?, manifesta-lhe a significação, mostra-lhe a engrenagem interior de seu ser, de seu agir, de seus movimentos. Ao sujeito do conhecimento que entra em cena como indivíduo mediante sua identidade? com o corpo, este corpo é dado? de duas maneiras completamente diferentes: uma vez como representação na intuição do entendimento, como objeto entre objetos e submetido às leis destes; outra vez de maneira completamente outra, a saber?, como aquilo conhecido imediatamente por cada um e indicado pela palavra VONTADE. Todo ato? verdadeiro? de sua vontade é simultânea e inevitavelmente também um movimento? de seu corpo. Ele não pode realmente querer o ato sem ao mesmo tempo? perceber que este aparece como movimento corporal. O ato da vontade e a ação do corpo não são dois estados diferentes, conhecidos objetivamente e vinculados pelo nexo? da causalidade?; nem se encontram na relação? de causa e efeito; mas são uma única e mesma coisa, apenas dada de duas maneiras totalmente diferentes, uma vez imediatamente e outra na intuição do entendimento. A ação do corpo nada mais é senão o ato da vontade objetivado, isto é, que apareceu na intuição. Mais adiante será mostrado que isso vale para qualquer movimento do corpo, não apenas os provocados por motivos, mas também para os que se seguem involuntariamente de meras excitações; sim, o corpo inteiro não é nada mais senão a vontade objetivada, que [I 120] se tornou representação. Tudo isso virá na sequência? e se tornará claro no decorrer de nossa exposição?. Por conseguinte, o corpo, que no livro precedente e no meu ensaio sobre o princípio? de razão? chamei OBJETO IMEDIATO?, conforme o ponto de vista unilateral (da representação) ali intencionalmente adotado, aqui, de outro ponto de vista, é denominado OBJETIDADE? DA VONTADE [1]. Por isso, em certo sentido?, também se pode dizer: a vontade é o conhecimento a priori do corpo, e o corpo é o conhecimento a posteriori da vontade. — Decisões da vontade referentes ao futuro? são simples? ponderações da razão sobre o que se vai querer um dia, não atos da vontade propriamente ditos: apenas a execução estampa a decisão?, que até então não passa de propósito cambiável, existente apenas in abstracto? na razão. Só na reflexão? o querer e o agir se diferenciam; na efetividade são uma única e mesma coisa. Todo ato verdadeiro, autêntico?, imediato da vontade é também simultânea e imediatamente ato fenomênico? do corpo; e, em correspondência?, toda ação sobre o corpo é também simultânea e imediatamente ação sobre a vontade, que enquanto tal se chama dor?, caso a contrarie, ou bem-estar?, prazer?, caso lhe seja conforme. As gradações de ambos são bem diversificadas. No entanto, é totalmente incorreto denominar a dor e o prazer representações, o que de modo algum são, mas afecções imediatas da vontade em seu fenômeno, o corpo, vale dizer, um querer ou não-querer impositivo e instantâneo sofrido por ele. Por outro lado, devem ser consideradas imediatamente como simples representações, portanto excluídas do que acabou de ser dito?, certas poucas impressões sobre o corpo que não estimulam a vontade e unicamente mediante as quais o corpo é objeto imediato do conhecimento (visto que ele, como intuição no entendimento, já é objeto mediato? como qualquer outro). Penso aqui nas afecções dos sentidos puramente objetivos da visão?, da audição? e do tato?, embora só à medida? que seus órgãos são afetados conforme sua maneira natural, específica; o que é um estímulo? tão excepcionalmente fraco da sensibilidade? realçada e modificada dessas partes que não afetam a vontade, mas, sem ser incomodados pelos estímulos desta, [I 121] apenas fornecem ao entendimento os primeiros dados de onde deriva a intuição. Toda outra afecção? mais forte ou diferente daqueles órgãos dos sentidos já é dolorida, ou seja, contraria a vontade, a cuja objetidade também pertencem. — A fraqueza dos nervos se revela no fato de que as impressões, que deveriam ter? apenas o grau? de força suficiente para torná-las dados do entendimento, atingem o grau mais elevado e movimentam a vontade, ou seja, estimulam dor ou sentimento? de bem-estar?, embora o mais das vezes dor, que no entanto é em parte? abafada e insignificante. Nesse caso, tons isolados e luz? intensa não apenas são sentidos dolorosamente, mas em geral? também ocasionam disposição? hipocondríaca aguda, que no entanto não é muito bem conhecida. — Ademais, a identidade do corpo com a vontade também [158] se mostra, entre outras coisas, no fato de que todo movimento excessivo e veemente da vontade, isto é, cada afeto?, abala imediatamente o corpo e sua engrenagem interior, perturbando o curso de suas funções vitais. Isso é especialmente abordado no meu Vontade na natureza?, p. 27 da segunda edição.


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[1No original, Objektität des Willens. O termo Objektität, neologismo de Schopenhauer, costuma provocar confusão entre tradutores, que às vezes o vertem por "objetividade", termo inadequado, pois faz perder de vista o caráter inconsciente de imediatez do ato da vontade, anterior ao seu tornar-se fenômeno consciente na intuição do entendimento. (N. T.)