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From Communism to Capitalism

Henry (CC): indivíduo vivo

Theory of a Catastrophe

terça-feira 14 de setembro de 2021

Excerto de HENRY, Michel. From Communism to Capitalism. Theory of a Catastrophe. Tr. Scott Davidson. London: Bloomsbury, 2014, p. 23-24

Tradução

O indivíduo? vivo difere do indivíduo definido em termos de pensamento?. Em sua relação? consigo mesmo - que é uma relação com sua própria vida? - não há pensamento no sentido? de uma representação? de objetos ou de uma relação sujeito? / objeto?. O que caracteriza a representação de um objeto é um colocar à distância e sua pôr? diante do olhar do pensamento. Esse? pôr-em-frente-de é a própria representação. A palavra? alemã Vor-stellen, que literalmente significa "colocar na frente", indica claramente isso. É somente devido a essa distância que o objeto é o que é, ou seja, algo que é colocado na frente. É na medida? em que é colocado à nossa frente que pode ser? mostrado para nós.

Na vida, ao contrário, esse pôr de um objeto diante de um olhar não acontece. Se considerarmos alguma das experiências que compõem nossa vida - por exemplo?, dor? ou sofrimento?, ou mais concretamente, fome ou frio -, podemos ver claramente que o pensamento não pode, de forma? alguma, afastar essa dor ou essa fome de si mesmo e transformá-lo em um objeto. Se fosse esse o caso, eu? seria capaz de representar? para mim mesmo? alguns conteúdos psíquicos e nomeá-los como "sofrimento" ou "fome", mas eu mesmo teria deixado de sofrer ou ter? fome. Na verdade?, posso representar minha fome a mim mesmo e considerá-la de várias maneiras, como algo "puramente psicológico?", como "bulimia" ou mesmo como uma "injustiça" ou um "escândalo?". Mas estes modos de encarar e "pensar?" sobre isso - resumidamente, todas as diferentes representações que posso ter disso - não mudam nada? sobre a pura impressão? de fome. Seu ser deriva de uma subjetividade? vivente? e sofrida. Essa impotência do pensamento em relação à vida e suas várias modalidades se deve à natureza? da vida. Entre a vida e ela mesma, não há distância, nenhuma relação com um objeto e nenhum objeto possível?. É precisamente porque a vida realmente não tem o poder de se afastar de si mesma e não pode escapar de si mesma ou de sua fome, sofrimento ou ansiedade?. É também por isso que o ego, como indivíduo vivo, é incapaz de se livrar de sua vida ou de descartar o que experimenta.

Nos dias em que a libertação sexual era um problema?, ouvimos mulheres dizerem “meu corpo? pertence a mim; posso fazer o que quiser com ele.” Esse modo? de falar? é profundamente equivocado, porque meu corpo não é realmente minha “propriedade?” no sentido de Stirner?. Ou seja, não é um objeto que meu pensamento possa representar de qualquer maneira que queira, por exemplo, como "algo que me pertence e com o qual posso fazer o que quero". A natureza de um objeto é que ele é separado de mim. Essa característica? dos objetos encontra-se no objeto jurídico no sentido de que posso "aliená-lo": vender um bem que possuo, doá-lo a terceiros, colocá-lo em um fundo fiduciário etc. As relações sociais pressupõem que o objeto é naturalmente separado de mim e, portanto, alienável. Este não é o caso do meu corpo vivo com o qual sou identificado de tal maneira que seu sofrimento é o meu sofrimento e seu esforço? é o meu esforço. Não consigo distanciar-me dele nem me separar vendendo-o. Ou, como Marx? diz abruptamente sobre o si mesmo, sou incapaz de "vendê-lo" (bazarder). Esse modo de ser fixado e jogado contra si mesmo caracteriza o indivíduo vivo e ajuda a explicar? por que, sempre que o trabalhador tem que vender seu corpo ou sua capacidade? subjetiva de trabalhar para viver, é de fato? ele mesmo que se venderá — e ele irá para a fábrica.

Original

L’individu vivant diffère de l’individu défini par la pensée en ceci que, dans sa relation à lui-même, relation qui est justement sa propre vie, il n’y a aucune pensée au sens d’une représentation d’objet, d’un rapport Sujet/Objet. Ce qui caractérise la représentation d’un objet, c’est une mise à distance, une venue devant le regard de la pensée, cette venue-devant étant la représentation elle-même – ce qu’indique clairement l’allemand : Vor-stellen, poser-devant. C’est seulement grâce à cette mise à distance que l’objet est ce qu’il est, à savoir quelque chose? qui est posé devant, et c’est dans la mesure où il est ainsi posé devant nous qu’il se montre à nous.

Dans la vie au contraire, cette venue devant un regard à titre d’objet ne se produit jamais. Si nous considérons l’une quelconque des expériences qui composent notre vie, par exemple une douleur, une [45] souffrance, plus concrètement la faim ou le froid, nous voyons bien que la pensée n’a en aucune façon la possibilité de mettre cette douleur ou cette faim à distance d’elle-même, d’en faire un objet. Si tel était le cas, je me représenterais certains contenus psychiques auxquels on? donne le nom de « souffrance » et de « faim », mais j’aurais cessé de souffrir ou d’avoir faim moi-même. Je peux bien me représenter ma faim et la considérer de diverses façons, comme « purement psychologique », comme « boulimie », ou encore comme une « injustice » et un « scandale ». Mais toutes ces manières d’envisager cette faim, de l’interpréter, de la comprendre, de la « penser », toutes les représentations que je peux m’en faire ne changent rien à la pure impression de faim, à cette subjectivité vivante et souffrante en laquelle son être s’épuise. Or cette impuissance de la pensée à l’égard de la vie et de ses diverses modalités tient à la nature même de cette vie, au fait qu’il n’y a, entre elle et elle, aucune distance, aucune relation à un objet, aucun objet possible. C’est précisément parce que la vie n’a pas le pouvoir de se mettre réellement à distance de soi qu’elle ne peut échapper à soi ni par exemple à sa faim, à sa souffrance, à son angoisse. C’est aussi la raison? pour laquelle le moi, l’individu vivant est impuissant à se défaire de sa vie, à donner en quelque sorte? congé à ce qu’il éprouve.

Au temps où il était question de libération sexuelle, on entendait des femmes dire : « Mon corps est à moi, je puis en faire ce que je veux. » Cette manière de parler est foncièrement impropre car justement mon [46] corps n’est pas ma « propriété » au sens de Stirner?, au sens d’un objet que ma pensée aurait loisir de se représenter comme elle l’entend et par exemple comme « ce qui est à moi et dont je peux faire ce que je veux ». Le propre d’un objet c’est qu’il est séparé de moi. Cette caractéristique de tout objet se retrouve dans l’objet juridique en ce sens que je puis « aliéner » celui-ci, vendre un bien que je possède, en faire donation à un tiers, le confier en dépôt, etc. – toute relation sociale qui suppose que l’objet est par nature séparé de moi et comme tel aliénable. Ce n’est pas le cas de mon corps vivant auquel je m’identifie, en sorte que sa souffrance est ma souffrance, son effort mon effort, sans que je puisse prendre vis-à-vis de lui aucun recul ni me séparer de lui en le vendant ou, comme le dit brutalement Marx? de son moi, sans que je puisse le « bazarder ». Cette façon d’être rivé et acculé à soi qui caractérise l’individu vivant explique pourquoi, lorsque pour vivre le travailleur devra vendre son corps ou sa force subjective de travail, c’est lui-même en effet qu’il vendra – et il ira à l’usine.


Ver online : From Communism to Capitalism. Theory of a Catastrophe.

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