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FUSUS AL-HIKAM

Ibn Arabi (Fusus): Seth

DA SABEDORIA DA INSPIRAÇÃO DIVINA NO VERBO DE SETH

terça-feira 2 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

Tópicos

  • Doação e favorecimento divinos
    • Latência
    • Predisposição
    • Possibilidade de se conhecer sua própria predisposição
  • Funções respectivas do Selo dos Santos e do Selo dos Apóstolos (v. Chodkiewicz (SS) – Apresentação da obra)
    

tradução desde Burckhardt

Saiba que os dons e os favores (de Deus  ), que se prodigalizam neste mundo por intermédio das criaturas ou sem sua intermediação, se distinguem, para os homens de gosto espiritual (adh-dhawq  ), em dons essenciais (como o Conhecimento imediato) e em dons que decorrem dos Nomes divinos   (quer dizer dos aspectos divinos tais como a Beleza, a Bondade, a Vida, etc.). Por outro lado, eles diferem segundo sejam recebidos em sequencia a uma demanda determinada, ou que correspondam a demandas não determinadas, ou ainda que tenham recebido sem nenhuma demanda, e isto independentemente de sua distinção em dons essenciais e dons conformes aos Nomes divinos. Há demanda determinada se alguém diz: "Ó senhor, dê-me tal e tal coisa", e se ela apenas visa esta coisa. Uma demanda não-determinada, ao contrário, é aquela de um homem   que ora: "Ó Senhor, dê-me aquilo que é para meu bem, em todas as partes, sutis e corporais, de meu ser", sem que vise uma coisas particular.

Quanto àqueles que demandam, eles se dividem em dois   grupos: uns obedecendo a impulsão natural de apressar a obtenção (de uma coisa desejada), — pois "o homem foi criado apressado" (Corão, XVII, 12) — e os outros demandando porque sabem que há junto a Deus coisas que, segundo a Pré-ciência divina, só podem ser alcançadas em virtude de   uma demanda; eles se dizem então: "Talvez aquilo que demando a Deus seja desta espécie". Sua demanda toma em conta, de uma maneira global, modos   possíveis da Ordem   divina; eles não sabem aquilo que a Ciência divina implica, nem aquilo que resulta de sua pré-disposição   (isti’dâd) a receber  ; pois é uma coisa das mais difíceis de conhecer a predisposição de um ser em cada instante   singular (de sua vida); por conseguinte, se ele não estivesse predisposto a tal demanda, ela não demandaria. Quanto aos contemplativos que não conhecem sua predisposição, eles a reconhecem, no melhor dos casos, no instante mesmo que vivem; pois por seu estado   de presença   (hudûr) (com Deus) sabem que eles só o recebem em razão   de sua predisposição. Eles se dividem, por sua vez, em duas categorias  : uns conhecem sua predisposição por aquilo que receberam; outros sabem aquilo que receberão em razão de sua predisposição; e é este último conhecimento que é o mais perfeito no interior deste grupo.

Faz parte dessa categoria aquele que demanda, não para acelerar a obtenção de um dom, nem para se dar conta de modos possíveis (do favor divino), mas para conformar-se à ordem divina, expressa pela Palavra: "Demandei-Me e Eu vos responderei!" É o adorador (al-abd) por excelência; quando ele demanda, seu desejo não se prende à coisa demandada, seja ela determinada ou não, mas visa apenas a conformidade à ordem de seu Senhor. Quando seu estado espiritual exige o abandono e a tranquilidade  , ele se cala; assim, Jó e outros foram provados e não demandaram a Deus de os aliviar em sua prova, até o ponto que seu estado espiritual exigia, em um momento dado, que eles demandassem que esta prova lhe fosse removida; então eles demandaram e Deus os aliviou.

Que o atendimento de uma demanda seja imediato ou que ele seja deferido, isto decorre de sua medida (qadr) predestinada por Deus; se a demanda é feita no momento predestinado à resposta  , esta é imediata, e se o atendimento é previsto para um tempo ulterior, seja neste mundo aqui seja no além, a resposta será adiada; entendo o atendimento efetivo da demanda, não a resposta divina: "Eu estou presente  " (que é sempre imediata); compreenda-me bem!

No tocante à segunda categoria de dons, dos quais dissemos que são recebidos sem demanda, é necessário precisar que entendemos por demanda a prece   enunciada em palavras; pois em princípio aí deve sempre ter uma demanda, seja ela articulada, seja ela consistindo em um estado espiritual (hal) ou seja ela resultante simplesmente da predisposição (íntima) do ser. Da mesma maneira, louvar Deus significa, rigorosamente, pronunciar uma louvação a Seu respeito; mas no sentido espiritual, esta louvação é necessariamente determinada por um estado espiritual, pois aquilo que te incita a louvar Deus é (o assentimento  ) de um Nome divino, exprimindo uma atividade   de Deus ou um aspecto de Sua transcendência  . Quanto à predisposição, o ser individual não é disto consciente; aquilo que ressente, é o estado (al-hal), pois conhece aquilo que o incita (à louvação ou à demanda); a predisposição resta a coisa mais escondida.

Aquilo que impede alguns de demandar, é saber que Deus decidiu seu destino por toda eternidade  ; eles prepararam suas moradas (quer dizer suas almas) para acolher aquilo que descerá Dele, e eles dispuseram-se de seus egos e de suas existências individuais. Entre esses, há aquele que sabe que a Ciência que Deus tem dele, em cada um de seus estados, se identifica àquilo que ele é ele-mesmo em seus estados de imutabilidade (primordial) antes de sua manifestação  ; e ele sabe que Deus não lhe dará qualquer coisa que não resulte desta essência (al-ayn), que ele é ele-mesmo em seus estados de permanência primordial. Ele sabe portanto de onde resulta o Conhecimento divino a seu respeito. Nenhuma categoria de conhecedores de Deus não é superior àquela dos homens que assim realizam o mistério da predisposição. Eles se dividem por sua vez em dois grupos: aqueles que conhecem isto de uma maneira global, outros de uma maneira distinta; os segundos ocupam uma colocação superior; pois aquele que tem um conhecimento distinto daquilo do qual se trata reconhece isto que o Conhecimento divino implica a seu respeito, seja que Ele lhe desvela diretamente sua essência imutável   (al-ayn ath-thâbitah) e o desenrolar sem fim dos estados que dela derivam. É este último conhecedor que ocupa a colocação superior, pois no conhecimento dele-mesmo adota o ponto de vista divino, o objeto de seu conhecimento sendo o mesmo (que o objeto do Conhecimento divino). No entanto, quando considera-se esta identificação (do conhecimento do contemplativo   ao Conhecimento divino) do lado individual, ela apresenta-se como um ajuda   divina predestinada a este indivíduo   em virtude de um certo conteúdo de sua essência imutável  , conteúdo que este ser reconhecerá do momento que Deus lhe fará ver; pois, quando Deus lhe mostra os conteúdos de sua essência imutável, que, ela, recebe diretamente o Ser, isto vai além evidentemente das faculdades   da criatura como tal; pois ela é incapaz de apropriar o Conhecimento divino que aplica-se a estes arquétipos (al-ayn aththâbitah) em seu estado de não-existência (udum), estes arquétipos sendo apenas puras relações essenciais (nisab dhâtiyah) sem formas próprias. É sob esta relação (quer dizer, em razão da incomensurabilidade do Conhecimento divino e do conhecimento individual) que dizemos desta identificação (ao Conhecimento divino) que ela representa uma ajuda divina predestinada a tal indivíduo.

É sob a mesma relação que se deve compreender a palavra divina: "(Nós os experimentaremos) até que Nós saibamos..." (Corão, XLVII, 31), (como se Deus não soubesse de antemão aquilo que farão as criaturas) o que é uma expressão   rigorosamente adequada, contrariamente àquilo que pensam aqueles que não bebem desta fonte  ; pois a transcendência de Deus se afirma o mais perfeitamente pelo fato que o Conhecimento parece temporal por sua relação (a algo de temporal, da mesma forma que se afirma eterno na sua conexão com um objeto eterno). É o aspecto mais universal   que um teólogo poderia logicamente conceber nesta matéria, a menos que considere a Ciência divina como distinta da Essência e atribua a relatividade à Ciência enquanto ela difere da Essência. Por (esta última perspectiva), se distingue aliás do verdadeiro conhecedor de Deus, dotado de intuição   (kashf  ) e realizando o Ser (al-wujûd).

Mas voltemos agora à distinção dos dons (divinos) em dons essenciais e em dons conformes aos Nomes. Para aquilo que é dos favores e dons essenciais, eles só são concedidos em virtude de uma revelação (ou irradiação: tajalli  ) divina; ou, a Essência só se revela sob a "forma" da predisposição do indivíduo que recebe esta revelação; e jamais não se produz outra coisa. Portanto, o sujeito recebendo a revelação essencial verá apenas sua própria "forma" no espelho   de Deus; ele não verá Deus — é impossível que ele O veja —, sabendo de certo que ele só vê sua "forma" devido a este espelho divino. Isto é totalmente análogo aquilo que tem lugar em um espelho corporal: aí contemplando formas, não vês o espelho, sabendo de certo que só vês estas formas — ou tua própria forma — em virtude do espelho (Testemunha). Este fenômeno, Deus o manifestou como símbolo particularmente apropriado a Sua revelação essencial, para que aquele a quem Ele Se revela saiba que ele não O vê; não existe símbolo mais direto e mais conforme à contemplação e à revelação da qual se trata (Paredro). Tente portanto tu mesmo ver o corpo do espelho ao mesmo tempo que olhas a forma que aí se reflete; não o verás jamais ao mesmo tempo. Isto é tão verdadeiro que alguns, observando esta lei das formas refletidas nos espelhos (corporais ou espirituais), pretenderam que a forma refletida se interpõe entre a vista do contemplante e o espelho mesmo; isto é o que alcançaram de mais alto no domínio   do conhecimento espiritual; mas em realidade a coisa é tal como dissemos, (a saber que a forma refletida não oculta essencialmente o espelho, mas que este a manifesta). De resto, já temos explicado este ponto em nosso livro das "Revelações de Meca" (al-Futuhat al Makkiyah). Se saboreares aquilo, saboreias o extremo limite que a criatura como tal possa atingir (em seu conhecimento "objetivo"); não aspire portanto além e não canse tua alma   para ir além deste grau, pois não há lá, em princípio e em definitivo, que pura não existência (a Essência sendo não manifestada).

Deus é portanto o Espelho no qual tu te vês a ti-mesmo, como tu és Seu espelho no qual Ele contempla Seus Nomes (certas edições do texto adicionam: "e seus princípios"). Ora, estes não são nada além de Ele-mesmo, de sorte que a realidade se inverte e se torna ambígua. Alguns de nós implicam em seu conhecimento (de Deus) a ignorância e citam a este respeito a palavra (do califa Abu Bakr): "Apreender que se é impotente para conhecer o Conhecimento é um conhecimento." Mas há entre nós alguém que conheça (verdadeiramente), e não pronuncie estas palavras; seu conhecimento não implica uma impotência para conhecer; ele implica o inexpressável; e é este último que realiza o conhecimento o mais perfeito de Deus.

Ora, este conhecimento só é dado ao Selo dos enviados de Deus [1], e ao Selo dos santos [2]; nenhum dos profetas e dos enviados [3] somente a recolhe no tabernáculo   (mishkat) do enviado que seu selo. Por outro lado, nenhum dos santos não a recolhe a não ser no tabernáculo do santo que é seu selo; de sorte que os enviados também recolhem este conhecimento, na medida que o recolhem, no tabernáculo do Selo dos santos, pois a função do enviado de Deus e aquela de profeta   — entendo a função profética enquanto comporta a promulgação de uma lei sagrada — cessam, enquanto que a santidade   não cessa jamais; deste fato, os enviados só recebem este conhecimento, enquanto são eles também santos, do tabernáculo do Selo dos santos. Desde o momento que assim é (para os enviados e para os profetas), como seria de outro modo para os outros santos? E isto é verdadeiro, embora o Selo dos santos se conforme a lei sagrada dada pelo Selo dos profetas; isto não implica em qualquer prejuízo a seu nível espiritual e não retira nada ao que acabamos de dizer; pois é possível que ele seja inferior   a um certo ponto de vista, mesmo sendo superior a outro ponto de vista. O que entendemos por isto se encontra confirmado, na história de nossa religião, pela preferência (devida a uma revelação anterior  ) do juízo   de Omar (sobre aquele do Profeta) no que concerne o tratamento dos prisioneiros quando da batalha   de Badr, (o profeta querendo aceitar um resgate por eles, enquanto Omar aconselhava a liberá-los ou a condená-los; do mesmo modo, ela se manifesta no episódio concernente a fertilização da palmeira de tâmaras (onde o conselho do Profeta, perdeu-se, o que lhe fez dizer: "Sois mais especialistas que eu nos negócios de seu mundo daqui de baixo") Não é necessário que o perfeito ultrapasse os outros sobre todas as relações; mas os homens espirituais consideram apenas a superioridade   sob a relação do conhecimento de Deus; quanto às existências efêmeras, seu espírito   não se liga. — Realize portanto aquilo que acabamos de expor.

Quando o Profeta compara a função profética a um muro de tijolos quase terminado e onde só faltaria um tijolo, ele identifica-se ele-mesmo a este tijolo [4]. Logo ele só viu, como o afirma, o lugar de um único tijolo a ser preenchido. Ora, o Selo dos santos terá uma visão   análoga; somente, ele perceberá, nisso que o Profeta simbolizou por um muro inacabado, o lugar de dois tijolos a preencher; os tijolos dos quais o muro é construído lhe aparecerão de ouro e de prata, e os dois tijolos faltando ainda para completar a construção serão um tijolo de ouro e um tijolo de prata; e p Selo dos santos verá a si-mesmo corresponder ao lugar que deverão ser preenchidos este dois tijolos para completar o muro. A razão pela qual ele se vê sob a forma de dois tijolos é que ele adere exteriormente à lei dada pelo selo dos enviados — o que corresponde ao tijolo de prata — e que ele busca interiormente em Deus aquilo mesmo que, segundo sua forma aparente, apresenta-se como uma adesão à lei que o precedeu; pois ele vê necessariamente a ordem divina (al-amr  ) tal qual é — e é isto que corresponde ao tijolo de ouro, símbolo de sua natureza interior — posto que o Selo dos santos busca da mesma fonte onde buscou o Anjo   que inspirou o enviado de Deus [5]. Se compreendes isto a que faço alusão, atingistes a ciência plenamente eficaz.

Todo profeta, sem exceção, desde Adão   até o último, busca portanto (suas luzes) no tabernáculo do Selo dos profetas; se a argila deste último foi formada segundo àquela dos outros, ele não estará nela menos presente por sua realidade espiritual, em conformidade com a palavra (de Maomé  ): "Eu fui profeta quando Adão ainda estava entre a água e a argila". Qualquer outro profeta só se tornou tal quando foi desperto   para sua função. Da mesma maneira, o Selo dos santos era santo, "quando Adão ainda estava entre a água e argila", enquanto que os outros santos só se tornaram santos depois de terem realizado as condições da santidade, que são a assimilação   das Qualidades divinas decorrentes do aspecto de Deus que se exprime por Seus Nomes o Santo, o Louvado (al-wali  , al-hamid, est último designando o protótipo das qualidades positivas do criado). O Selo dos enviados se associa portanto, com relação a sua santidade, ao Selo dos santos, da mesma maneira que os outros enviados e profetas se associam à ele. Pois ele é ele-mesmo simultaneamente o santo (al-wali), o enviado (ar-rasul) e o profeta (an-nabi). Quanto ao Selo dos santos, ele é o santo, o herdeiro (al-warith) que busca na origem, aquele que contempla todos os níveis...

Voltemos agora aos dons que decorrem dos Nomes divinos: a misericórdia   (rahma) que Deus prodigaliza a Suas criaturas decorre inteiramente dos Nomes divinos: ela é, seja da misericórdia pura, como tudo que é lícito dos alimentos e prazeres naturais e que não manchado de culpa   no dia da ressurreição   [conforme a palavra corânica: "Diz: quem então tornará ilícito a beleza que Deus manifesta por seus servidores e as coisas lícitas dos alimentos: diz: elas são para aqueles que creem, neste mundo aqui, e elas não serão sujeitas a desaprovação no dia da ressurreição..."] — e são estes dons que decorrem do nome ar-rahmân, — seja da misericórdia misturada (de castigo  ), como da medicina   desagradável a tomar, mas que alivia em seguida. Tais são os dons divinos, pois Deus (em seu aspecto pessoal ou qualificado) sempre só dá por intermediário   de um destes guardiões do templo que são Seus Nomes. Assim, Deus gratifica por vezes o servidor por meio do nome O Clemente (ar-rahmân), e é então que o dom é livre de qualquer mistura que seria momentaneamente contrária à natureza daquele que o recebe, ou que contradiria a intenção   ou outra coisa (para o demandante); por vezes, Ele dá por intermédio do nome O Vasto (al-wasî), prodigalizando Seus dons de uma maneira global, ou bem Ele dá por intermédio do nome O Sábio   (al-hakîm), visando aquilo que é salutar (para o servidor) no momento dado, ou por intermédio do nome Daquele que dá gratuitamente (al-wahhâb), dando o bem sem que aquele que o receba em virtude deste nome deva compensar pelas ações de graça ou de mérito; ou bem Ele dá pelo nome Daquele que reestabelece a ordem (al-jabbâr), considerando o meio cósmico   e aquilo que lhe é necessário, ou pelo nome O Perdoante (al-ghaffâr), considerando o estado daquele que receberá o perdão: se ele se encontra em um estado que merece o castigo. Ele o protege deste castigo, Ele o protege de um estado que mereceria, e é neste sentido que o Servidor (santo) é chamado salvaguardado ou protegido do pecado  . O doador é sempre Deus, neste sentido que é Ele o tesoureiro de todas as possibilidade e que delas só produz segundo uma medida predestinada e pela mão   de um Nome concernente tal possibilidade. Assim, Ele dá a toda coisa sua constituição própria em virtude de Seu nome O Justo (al-adl) e de seus irmãos (como O Árbitro: al-hakam, Aquele que rege: al-wâlî, O Vencedor: al-qahhâr, etc.).

Embora os Nomes divinos sejam indefinidos quanto a sua multitude, pois se conhecem eles pelo que deles decorre e que é igualmente indefinido, — eles deixam de ser reduzíveis a um número   definido de "raízes", que são as "mães" dos Nomes divinos ou as Presenças (divinas) integrando os nomes. Na verdade, só uma única e mesma Realidade essencial (haqlqah) que assume todas estas relações e conexões que se designam pelos Nomes divinos. Ora, esta Realidade essencial faz que cada um destes Nomes que se manifestam indefinidamente comporte uma verdade essencial pela qual ele se distingue dos outros Nomes; é esta verdade distintiva e não aquilo que tem em comum com os outros, que é a determinação, que é a determinação própria do Nome. Assim como os dons divinos se distinguem uns dos outros por sua natureza pessoal, embora decorram todos de uma única fonte — é logo evidente que este não é aquele; — a razão sendo precisamente a distinção dos Nomes divinos. Por causa de Sua infinidade, não há na Presença divina absolutamente nenhuma coisa que se repita — e isto é uma verdade fundamental.

Isso é a ciência de Seth  , sobre ele a Paz! Seu espírito a comunica a todo espírito que dele profira qualquer coisa, à exceção portanto do espírito do Selo que recebe esta ciência diretamente de Deus e não por intermediação de um espírito qualquer: bem mais, é do próprio espírito do Selo que este conhecimento aflua a todos os espíritos, embora disto não seja consciente enquanto subsiste em uma forma corporal. Na sua realidade essencial e na sua função puramente espiritual, ele conhece portanto diretamente tudo aquilo que ignora por conta de sua constituição corporal. É portanto ao mesmo tempo o conhecedor e o ignorante, e pode-se atribuí-lo qualidade aparentemente contrárias, assim como seu princípio (divino), que é sua essência mesmo (’aynuh), é ao mesmo tempo terrível e generoso, o Primeiro e o Último. Conhece portanto e não conhece ao mesmo tempo, percebe e não percebe, contempla e não contempla no entanto.

É em virtude desta ciência que Seth recebe seu nome que significa o dádiva  , quer dizer a dádiva de Deus, pois ele detém a chave do dom divino segundo todos seus diferentes modos e sob todas as referências. É assim porque Deus fez de Seth uma dádiva para Adão; ele foi a primeira dádiva gratuita que Deus fez (quer dizer a primeira dádiva que não exigiu, do lado daquele que o recebeu, qualquer compensação), e é de Adão mesmo que ele veio, pois o filho   é a realidade secreta de seu gerador; é dele que provem e a ele que retorna, não lhe advém como uma coisa estranha a ele mesmo. É o que compreenderá aquele que vê as coisas do ponto de vista divino. Aliás, todo dom, no universo   inteiro, manifesta-se segundo esta lei: ninguém recebe alguma coisa de Deus, (quer dizer) ninguém recebe alguma coisa que não venha dele mesmo, qualquer que possa ser a variação imprevista das formas. Mas poucos sabem disso, somente alguns dos iniciados conhecem esta lei espiritual. Logo se reencontras alguém que a conhece, podes ter confiança   nele, pois um tal homem é a quintessência pura e o eleito   dentre os eleitos dos homens espirituais.

Cada vez que um intuitivo contempla uma forma que lhe comunica um novo conhecimento que não tinha apreendido anteriormente, esta forma será uma expressão de sua própria essência (ayn) e nada que seja estranho a ele. É da árvore de sua própria alma que ele colhe o fruto   de sua cultura, assim como sua imagem refletida por uma superfície polida nada mais é que ele, embora o lugar da reflexão   — ou a Presença divina — que lhe entrega sua própria forma, provoque inversões seguindo a Verdade essencial inerente a tal Presença (divina; theoria). É assim que, no caso do espelho concreto, acontece que ele reflete as coisas segundo suas verdadeiras proporções, o grande como grande, o pequeno como pequeno, o alongado como alongado, e o movente em movimento  , mas também (segundo sua constituição ou segundo a perspectiva) pode reverter as proporções; do mesmo modo é possível que um espelho reflita coisas sem a inversão habitual, mostrando o lado direito do contemplante de seu lado direito, enquanto em geral o lado direito da imagem refletida encontre-se em face do lado esquerdo deste que ali se mira; logo pode aí haver exceções à regra  , como no caso onde as proporções se revertem; e tudo isto se aplica igualmente aos diversos modos da Presença (divina) na qual tem lugar a revelação (da "forma" essencial do contemplante), e que nós comparamos ao espelho.

Aquele que conhece sua predisposição, conhece por aí mesmo aquilo que ele receberá. Por outro lado, aquele que conhece aquilo que recebe não conhece necessariamente sua predisposição, a menos que não a conheça depois de ter recebido, nem que seja de uma maneira global.

Certos pensadores intelectualmente fracos, partindo do dogma que Deus faz tudo aquilo que quer, declararam admissível que Deus agisse contrariamente aos princípios e contrariamente àquilo que a realidade (al-amr) nela mesma [quer dizer, no seu estado principial — como se a manifestação de Deus não procedesse de possibilidades eternamente presentes no Ser divino e no Intelecto universal]. Deste fato, foram até negar a possibilidade como tal e a só aceitar [como categorias lógicas e ontológicas] a necessidade   absoluta [a saber aquela da "existência" de Deus mesmo] e a necessidade por outrem [quer dizer a necessidade relativa]. Mas o sábio admite a possibilidade, da qual conhece o escalão ontológico; evidentemente, a possibilidade [como tal] não o possível [no sentido disto que poderia existir ou não existir], e donde seria ela, pois é essencialmente necessária em razão de um [princípio] outro que ela. Mas enfim, donde vem então esta distinção entre ela e seu princípio que a torna necessária [e donde ela constitui precisamente uma possibilidade de manifestação]? Mas ninguém conhece a distinção da qual se trata salvo os conhecedores de Deus.

É sobre os traços   de Seth que se manifestará o último nascido deste gênero   humano; ele herdará os mistérios de Seth; não haverá outro ser engendrado após ele, de modo que ele será o selo dos engendrados [como Seth foi o primeiro santo]. Com ele nascerá uma irmã; ela sairá antes dele [enquanto a primeira mulher manifestou-se depois do primeiro homem]; e ele a seguirá tendo sua cabeça   aos pés de sua irmã. Seu lugar de nascimento será na China [o país mais distante em direção ao oriente]; e ele falará a língua de seu país natal. Nestes dias, a esterilidade se espalhará pelas mulheres e pelos homens; de sorte que haverá muita coabitação sem geração. Ele chamará as pessoas para Deus, mas não terá resposta. Quando Deus tiver retirado seu espírito e tiver retirado o último crente deste tempo, aqueles que sobreviverem serão como brutos, não distinguirão o lícito do ilícito; agirão segundo as puras tendências naturais, seguindo o desejo, independente da razão e da lei; e é sobre eles que se insurgirá a última hora.

Austin (nota)

The chapter named after Seth deals with two main topics, that of divine giving and the subject of the respective functions of the Seal of Saints and the Seal of Apostles. In connection with the first of these topics, Ibn al-‘Arabī touches also on the subject of latency and predisposition and the possibility of knowing one’s own predisposition.

In the first part of the chapter he deals with the question of divine giving and favor. He divides the divine giving in various ways and discusses the whole relationship between requesting and giving in response to a request, whether uttered or implicit.

This first topic of the chapter provides, perhaps, a clue to the title of the chapter, The Wisdom of Expiration in the Word of Seth. The Arabic word used for “expiration” is from the root nafakha, which literally means “to blow.” Now, the divine gift par excellence is that of existence itself, the bringing about of which is closely related to Ibn al-‘Arabī’s concept of the creating Mercy, which creativity is often termed the Breath of the Merciful [nafas al-rahmān]. In other words the blowing referred to in the title is precisely that outgoing projection inspired by the divine desire for Self-consciousness   which, from [60] the standpoint of created existence, is the supreme act of divine giving and generosity, all other particular gifts of God being aspects of that original gift of existence, since each particular gift to a particular creature serves only to confirm that existential covenant by which God affirms the ontological significance of the Cosmos. It is the universal gift of becoming that is the gift of the Essence, while the gift of the Names is the particular manifestation of that supreme Self-giving of God. Ibn al-‘Arabī returns to this theme in the chapter on the Prophet David  .

As already mentioned, this notion of divine giving is closely related by Ibn al-‘Arabī to the concept of latent predisposition in divinis. This means that the quality and nature of one’s existence as creature, in general and in detail, may be no more or less than that which it is eternally predisposed to be in one’s latent essence. Furthermore, not only the gift or response but also the making of the request itself is determined by the latent predisposition to do so.

Awareness or knowledge of what one is disposed to be in aeternis is, for Ibn al-‘Arabī, an essential part of what he calls ma’rifah or gnosis  , since it involves the knowledge of oneself that is, at the same time, knowledge of the divine Reality of which one is, latently and essentially, inescapably an aspect, which is the meaning of the saying “Whosoever knows himself, knows his Lord.’’ Gnosis, according to our author, is not the acquired knowing of profane learning, but rather, as the Arabic root suggests, an immediate recognition and grasp not of something new or strange but rather of the state and status of things as they really are, have always been, and eternally will be, which knowledge is inborn in man but later covered over and obscured by the spiritual ignorance encouraged by preoccupation with ephemeral and partial data.

It is precisely this gnosis, which is potential in all humankind, that is the realized spiritual heritage of the saints, prophets, and apostles, and particularly of the Seal himself. Indeed, it is the normative cognition   of the Perfect Man who perceives all difference and identity in terms of the Reality, other than which nothing is or exists.

Ibn al-‘Arabī concludes this chapter with a curious prediction concerning the fate of man as defined in his teachings. He says that the last true human, in the line of Seth, will be born in China and that he will have an elder sister. He goes on to prophesy that thereafter men will become as beasts, bereft of spirit and law, until the coming [61] of the Hour. Thus, he indicates that that particular human synthesis   of spirit and nature, of which we are all a part, will come to an end and the link be broken.

Chittick (nota)

The first of the ontological levels which can be conceived of is the determination (ta’ayyun) which embraces all determinations and which possesses the comprehensive Unity (ahadiyyat al-jam’ ). The level which follows it is the level of Principiality (masdariyyah) and Effusion (fayyâdiyyah). Adam was the form of the first level, just as Seth was the locus   of manifestation for the second. Therefore the first fass to be mentioned was that of Adam, and it was followed by the fass of Seth, in keeping with external existence itself.

Since Adam after the loss of Abel   sought a gift from the ontological level of God as "the Giver" to alleviate his grief, God bestowed upon him Seth purely as a gift and bestowal. In addition everything which Seth attained came purely as a gift. Therefore the Shaykh inevitably speaks about gifts and some of their kinds in this fass: Know that gifts of God are comprised of numerous kinds: among them is that He should give a gift especially to manifest His bounty, without expecting anything in exchange from him who benefits, in terms of praise, thanksgiving, or what have you, by means of His Name "the Giver". And it, or the gift received from the Name "the Giver", is of two kinds: one is the gift of the Essence, pertaining to the Unity of all of the Names, for the Essence as It is in Itself does not bestow gifts or manifest Itself through theophanies, and the second is the gift of a Name.

Now if you should say, "The gifts pertaining to the Name ’the Giver’ are gifts of a Name, so how can they be divided into gifts of the Essence and gifts of a Name?" I would reply, "What is meant by ’gift of the Essence’ is the gift whose source is the Essence without taking into account any one of the divine Qualities along with it – even though such a gift is not given without the intermediary of the Names and Qualities, for God does not manifest Himself in terms of His Essence to the existent beings except from behind the veil of one of the Names. And what is meant by ’gift of a Name’ is a gift whose source is one of the Attributes in respect of its being distinguished and differentiated from the Essence."

The gifts of the Essence occur only through a "divine" theophany, i.e., through the theophany of the Presence of the all-embracing Name "Allah", which is the comprehensive Unity of all of the Names, not through the manifestation of the Essence, since there are no properties, designations, names, theophanies or anything else within the Unity of the Essence. Therefore the determination of the theophany comes from the ontological level of the divinity, and for this reason the theophany is attributed to the divine Essence, not to the Essence without restriction.

And the theophany from the Essence can only be according to the form of the locus of theophany – which is the servant – and according to his preparedness (isti’dâd), just as God appears in the mirrors of the beings according to their preparednesses and receptivities, by manifesting His properties within them. Other than this is impossible.

But as for the gifts of a Name, they always are accompanied by a veil, i.e., the veil of determination according to a Name, according to which a particular Name becomes differentiated from the others. And the recipient does not receive this gift, whether of the Essence or of a Name, except according to his actual preparedness, for the theophanies in the Presence of Holiness and the Spring of Oneness are one and whole in description, but they become colored when they descend according to the preparednesses of the recipients, their spiritual and physical levels, their times and places, and all of the concomitances of these things, like states, constitutions and particular attributes. So people think because of the diversity of effects that the theophanies themselves are multiple in reality, but this is not so. God said, "Our command is but one, as the twinkling of an eye" (Quran LIV, 50). Just as God is one in every respect, so also His effusion and His command have no multiplicity except in relation to the recipients.

It, or the preparedness, is what is meant by His words, "He gave everything its creation" (Quran XX, 50). So from that is the preparedness.

It may be that the gift, whether from the Essence or a Name, is due to asking on the part of him who has received it by the state of his preparedness, or the state which causes man to ask verbally. There is no escape from it, or from asking by the state.

Or it may be that the gift is due to asking verbally. Verbal asking is of two kinds: one is asking according to nature, in that the reason for asking is man’s natural wish to hurry, for man was created ever hasty, and the second, which is asking but not according to nature, is also divided into two kinds. The first is asking in obedience to the divine command, according to His words, "Call upon Me and I will answer you" (Quran XL, 60), and the second is asking according to the demands of wisdom and gnosis, for he, or the asker according to the demands of wisdom and gnosis, is a commander who directs his subjects – whether they be all the inhabitants of the world, or those of a kingdom, or his family, or his body, and a master of the reins of their affairs, a protector of their interests, and one who knows that there are certain of their interests which divine Providence has ordained to be dependent upon asking. So he asks God and prays to Him to take care of these affairs. It is obligatory for him, or that asker, to strive to the extent possible to see that every one of his subjects who has a right receives it; what indicates this obligation is like his, i.e. the Prophet’s, words, "Verily you have a duty toward your family" i.e. those who are worthy of your instruction and education, like wives and children in the macrocosm and like physical and spiritual faculties in the microcosm, "your soul, your body and your guests."


Ver online : Excertos de e sobre "Fusus al-hikam"


Páginas reunindo diferentes traduções e anotações por parágrafo do Fusus - Seth: §1; §2; §3; §4; §5; §6; §7; §8; §9; §10; §11; §12; §13; §14; §15; §16; §17; §18


[1khatim ar-rusul — (título do profeta Maomé enquanto último dos legisladores inspirados por Deus

[2khatim al-awliya — (O papel de "Selo dos profetas" corresponde a uma função cíclica aparente, enquanto que a função de "Selo dos santos" é necessariamente intemporal e oculta; ela representa o protótipo da espiritualidade, independentemente de toda "missão" — risalah —

[3Todo "enviado" (rasul) é profeta (nabi) por seu grau de inspiração; todavia, só é chamado "enviado" o profeta que promulga uma nova lei sagrada.

[4"Minha figura entre os profetas é assim: um homem construiu um muro, ele o terminou, salvo que nele falta um só tijolo; sou eu este tijolo; depois de mim não existirá mais enviado (rasul) nem profeta (nabi)." Hadith do Profeta

[5Cf. a palavra de Cristo: "Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou." (Jo 8:58)