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Loyola Exercicios Significado

terça-feira 29 de março de 2022

      

A significação dos Exercícios
Tal é, rapidamente percorrido, o pequeno volume   dos Exercícios Espirituais. A despeito de suas pequenas dimensões, suscitou uma ampla literatura e é extraordinário que sobre os 2.872 títulos alinhados pela Bibliografia inaciana (1894-1957) dos padres Gilmont e Daman, 1374, quase a metade seja consagrada aos Exercícios. E, ainda, os autores não registraram os trabalhos relativos ao retiro   propriamente: eles compõem sozinhos uma "Biblioteca dos Exercícios" inteiramente considerável.

Muitos teólogos   e autores místicos estudaram em pormenor o trabalho   de Santo Inácio, inclinando-se mais particularmente a tal ou tal ponto da doutrina  . Algumas reservas de ordem   geral foram expressivas. Mais freqüentemente acreditou-se ver no princípio mesmo dos Exercícios Espirituais a manifestação de uma confiança exagerada colocada no homem   e no seu poder de alcançar Deus   com suas próprias forças. É certo que a oração já é um dom da graça. Com mais razão ainda, é ilusório pensar   que uma técnica de meditação, por mais hábil que seja, consiga pôr a alma   em comunicação direta com Deus ou entronizá-la no êxtase.

Mas, este cuidado   vale para todos os modos   de oração, sejam eles quais forem. Os próprios orientais perceberam a censura que se podia dirigir à Kyrie Eleison   - "Oração de Jesus  " e seus teólogos esforçaram-se em mostrar que as técnicas do hesicasmo   não tinham outro valor   senão o de uma preparação da alma.

Do mesmo modo seria fácil provar que aos olhos de Santo Inácio o retirante, em seus inúmeros procedimentos, deve apelar para a graça divina e que a intenção geral dos Exercícios é ajudar um homem a levar ao seu grau máximo de eficácia a cooperação de sua fraca natureza com a obra da graça.

É muito importante compreender como Santo Inácio concebeu esta cooperação. Com esse intento, poder-se-á examinar com atenção certos "momentos" privilegiados do retiro, aqueles em que vemos o mestre da oração convidar seu discípulo para conquistar à viva força o auxílio de Deus. Uma fórmula significativa marca   esses "momentos": pedir o que eu quero. Em vários trechos é encontrada, nos Exercícios, no cabeçalho de uma oração preparatória. Assim, a primeira contemplação do livrinho, a da Encarnação, é iniciada por três orações que dependem, cada uma, conforme a divisão tradicional, de uma "faculdade" da alma: a primeira, a memória, lembra o fato da Encarnação decidido pela Trindade  ; a segunda, ó entendimento, trabalha para organizar a composição de lugar; depois a terceira, a vontade, acaba este preâmbulo pelo ato decisivo: pedir o que quero, isto é, no caso "o conhecimento íntimo do Senhor que se fez homem por mim  ".

Percebe-se neste pedido uma operação complexa. É preciso que o retirante saiba de antemão o que ele quer; afaste, por uma escolha   deliberada, o que não quer na ocasião e leve   todo seu interesse   para um pormenor determinado, objeto de seu querer lúcido: por exemplo, conhecer no íntimo o Senhor encarnado. Isto, porém, não basta. É necessário ainda que Deus conceda a esse querer uma eficácia. Daí o pedido.

Esta fórmula tão característica é talvez a mais reveladora da doutrina espiritual inaciana. Refletindo bem, ela se aplica à conduta integral do cristão segundo Santo Inácio.

Pedir o que quero, a despeito da semelhança   de construção gramatical, nada tem de comum com as palavras de uma mãe   dizendo a seu filho: "Podes me pedir o que queres". "Pedir o que ele quer", do lado da criança significa obedecer a seu próprio capricho. "O que ele quer", aqui, é o equivalente de "seja o que for".

Mas quando Inácio de Loyola pede a Deus que lhe dê o que ele, Inácio de Loyola, quer, trata-se de outra atitude muito diferente.

Primeiro porque, desde o começo, Santo Inácio quer estritamente o que Deus mesmo quer: aplicou-se com todo o esforço em discernir, justamente, a intenção divina a seu respeito. Conhecendo-a, resta-lhe ainda obter de Deus a sanção positiva que se traduzirá pela eficácia de seu querer humano — e é o que chamamos graça.

Se é possível ainda dizer que Santo Inácio de Loyola é um homem que sabe o que quer e que faz o que quer, é preciso cuidar em dar às palavras seu sentido exato e lembrar em seguimento de que ascese, toda de imploração e de humildade  , ele conseguiu saber, querer e fazer o que Deus esperava dele.

Depois de que movimento   de amor também. E justamente a oração preparatória que preludia a meditação sobre Jesus encarnado e que começa pela fórmula "pedir o que quero", termina com esse pedido: conhecer o Senhor que se fez homem por mim, a fim de melhor amá-lo e segui-lo.

É paradoxal e, numa certa medida dramático, que seja necessário descer destas alturas para reencontrar uma crítica freqüente   e obstinadamente dirigida aos Exercícios Espirituais em particular e à doutrina espiritual de Santo Inácio em geral, a saber, que uma parte muito bela está aí concedida à natureza humana, que um otimismo exagerado aí se manifesta e que o diálogo   entre o homem pecador e seu Deus deve se desenvolver antes no temor e tremor e não nessa perigosa certeza   de que Deus tornar-se-á dócil ao apelo de sua criatura ao preço de algumas atitudes codificadas.

Na verdade, essa objeção mesmo teórica e até teológica e que suscitaria debates mais longos, muitas vezes dissimulou uma outra: reprovando Santo Inácio de conceder crédito demasiado à natureza, deixava-se supor que ele contava com suas únicas forças de diretor espiritual para recrutar discípulos.

De fato, historicamente, não foi assim. Observa-se ate uma curiosa evolução na curva de emprego, se é possível falar assim do livrinho. No começo Santo Inácio dá os Exercícios a diversos penitentes, numa época em que seu método ainda não está concluído. (Deu-os a mulheres em Alcalá.) Pouco depois, em Paris, eles lhe servem de instrumento apostólico e sob a forma ainda não definitiva. Quando recrutou seus primeiros discípulos, deu-lhes os Exercícios com uma espécie de prudência e observando às vezes mais demoradamente, como para São Francisco Xavier. Mais tarde, em Roma, os propõe enfim a personagens que absolutamente não imagina alistar em sua Companhia, a dominicanos, por exemplo, ou a cardeais. Faz então com que outros também os dêem e conserva-se memória dos juízos que fez sobre as diversas maneiras como seus primeiros discípulos dirigiam seus retirantes. Em todo caso, na época em que o livrinho se imprime, não está somente destinado, como se pôde ver, para jovens livres de qualquer laço ou para clérigos suscetíveis de serem atraídos às fileiras da Companhia. Cristãos que já haviam feito escolha irrevogável são convidados por Santo Inácio a seguir sua ascese para aperfeiçoar a própria vida.

Depois, melhorado pelos Diretórios, espécie de guias pormenorizados e de coletâneas de conselhos, o método não cessou de atingir um número   cada vez maior de almas desejosas de perfeição e hoje o retiro, segundo os Exercícios, pratica-se em numerosas casas jesuítas ou não jesuítas, ora completo, ora limitado a uma semana ou mesmo a alguns dias.

Ao mesmo tempo, e por uma curiosa indecisão, não é mais sobre o valor de eficácia atribuída ao livrinho que se aplicou a reflexão crítica, mas por um lado sobre seu valor de documento espiritual, testemunha do temperamento de Santo Inácio e por outro sobre seu caráter de peça original para ser anexada ao documentário da Experiência mística. E mesmo nos últimos tempos, o valor propriamente teológico dos Exercícios Espirituais é que foi o objeto de estudos e de investigações. Pode-se dizer que, de modo semelhante à Escritura e à tradição dogmática, embora com um título mais modesto, "a Eleição inaciana ocupa lugar entre as revelações do Espírito, cuja ação permanece viva na Igreja  ".9

Com efeito, para um teólogo como o padre Karl Rahner  , por exemplo, o problema que suscitam os Exercícios Espirituais de Santo Inácio é simplesmente o das relações entre o homem, o indivíduo e a vontade infinita de Deus, ou, se preferimos, o do nascimento de uma vocação. É mais precisamente ainda — o da intervenção divina numa vocação ou, enfim — muito comum — da significação que podem tomar as consolações místicas como garantia ou prova da vontade de Deus.

Outros pensadores abordam os Exercícios como filósofos, tal o Revmo. Padre Fessard, e procuram desvendar os momentos dialéticos da ação pela qual uma vontade livre se determina. Como se opera a passagem do não-ser ao ser, isto é, do pecado à graça? Como se realiza, em outras palavras, a decisão que, num ato livre, une uma vontade humana à vontade divina?

Talvez haja uma outra maneira de encarar o problema. Talvez se devesse deixar guiar   pelas teorias de um padre Jousse, relativas ao que ele chama antropologia do gesto e considerar os Exercícios Espirituais como a tradução, em linguagem humana, de um "gesto global" que Santo Inácio praticou e que convida outros a praticar por uma espécie de mimismo. Percebeu ele, primeiro, que um certo encadeamento de atitudes — podemos chamá-lo dialético sem intelectualizá-lo ao extremo? — achou-se favorecido por graças e consolações — não sem lhe ter proporcionado antes a graça da oração e da eleição. Essa relação íntima em que o sobrenatural veio nele ao encontro da natureza para transformá-la, aconselha aos outros a revivê-la de novo. Como estas atitudes puderam conseguir a intervenção divina, é um mistério. Obterão um   resultado semelhante em outros? Será ainda um mistério, mas Santo Inácio tem a certeza de uma eficácia possível. O quê? A vontade de Deus acha-se então acorrentada? Ela é livre. Sim, sem dúvida, mas não é arbitrária, e a descida da graça numa alma, que se preparou para acolhê-la, não participa do absurdo. É a profunda convicção de Santo Inácio. Nisto ele é estritamente fiel à doutrina da Igreja.

Quanto aos procedimentos que teve, quanto a esta liturgia da alma e ao encadeamento dos gestos preparatórios à teofania  , ele se recorda deles com tal piedade que os consigna escrupulosamente, sem nada mudar   em sua estrutura   interna. Sem dúvida, ele não seguiu a tradicional divisão, nem observou a progressão da vida purgativa à iluminativa, e desta à vida unitiva e fruitiva. Preferir-se-iam três semanas e não quatro... Depois, estas pequenas recomendações de pormenores, querer-se-iam ditadas por alguma necessidade   aparente, assim como a ordem que preside sua distribuição. Mas Santo Inácio apresenta-nos sua obra com uma espécie de ingenuidade imperiosa e são os profissionais da lógica que perdem a compostura discutindo sobre ela — como professores de ginástica estupefatos diante do extraordinário salto de um atleta admirável.

Assim, deste Athleta Christi, Inácio de Loyola: ele convida seu discípulo para um mimodrama, como diria o padre Jousse — e em drama   há "draô" grego, "eu ajo" — com esta restrição, entretanto, que a ultrapassagem da barra, ainda mesmo que preparada por uma fiel imitação, permanecerá sempre um milagre   da graça.

Há mais ainda. Podemos nos perguntar se Santa Inácio não concebia a existência inteira do homem sobre a Terra   como um mimo-drama que deveria ser representado de novo segundo o plano que Deus escolheu para ele. Este plano, o homem deve conhecê-lo, a fim de modelar sua ação segundo os esquemas desejados, de modo que a incessante ação divina na Criação seja a cada instante   secundada e não contradita, que os atos desta imensa representação sejam corretamente encenados. O autor está aí, pertinho. E que alegria   para o ator traduzir com sua encenação as mais sutis intenções, identificar-se com amor e fidelidade à personagem que o Criador concebeu e compôs de propósito, no início, à sua própria imagem e que lhe deve ser devolvida, no sentido mais rico da palavra, sem cessar até o fim do último ato, até o momento em que, caído o pano, virá a hora do abraço e da felicitação bem-aventurada.