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A Ciência da Cruz

Edith Stein (CC) – João da Cruz como escritor

domingo 12 de setembro de 2021

STEIN, Edith. A Ciência da Cruz. Tr. Beda Kruse. São Paulo: Edições Loyola, 1988.

Quem quiser compreender? a doutrina de São João da Cruz   desde suas raízes na alma?, dever?á familiarizar-se com as características e peculiaridades de seus escritos, suas origens? e vicissitudes.

Sendo que São João foi declarado Doutor pela Santa Igreja, quem desejar esclarecer-se sobre questões de mística, no âmbito da doutrina católica, deverá a ele se dirigir. Mesmo fora da Igreja, João é reconhecido como autoridade? e guia seguríssimo, indispensável a quem deseja seriamente ser introduzido no reino? misterioso da vida? interior. Contudo, João da Cruz   não apresentou um tratado sistemático de mística propriamente dito?. Sua intenção, ao escrever as obras, não foi de natureza? teórica, embora às vezes o pareça, deixando-se arrastar para muito além do que pretendia. Seu objetivo? foi "conduzir pela mão" e completar, com os escritos, seu trabalho? como diretor espiritual. [1] Nem tudo o que escreveu se conservou: tudo quanto foi escrito antes da sua prisão foi destruído, por ele mesmo ou por outros. Muito ainda pereceu durante a segunda perseguição (já na vigência da Reforma?), tais como preciosas anotações de seus ensinamentos orais, feitas pelas carmelitas. De suas cartas, somente uma pequena parte? se conservou. E dos quatro grandes tratados que chegaram até nós — Subida do monte Carmelo, Noite escura, Cântico espiritual e Chama viva de amor? —, os dois primeiros estão incompletos. [2] Apesar das lacunas e da impossibilidade? de solução dos problemas? enfrentados por essas falhas, possuímos nos escritos que se conservaram o material suficiente para nos oferecer com clareza as ideias?-chave e as respostas à nossa pesquisa?.

A origem dos escritos conservados situa-se no período de sua prisão, em Toledo. A experiência íntima é a fonte? de onde brotaram. A felicidade? e o tormento de um coração provado e ferido por Deus? encontram sua primeira expressão num desabafo lírico: os trinta primeiros versos do Cântico espiritual foram compostos no cárcere, assim como, talvez, também a Noite escura, tema? fundamental da obra homônima e da Subida. [3] João os trouxe do cárcere (se os fixou somente na memória ou por escrito, não se sabe ao certo) e levou-os ao conhecimento? de pessoas de sua intimidade. A pedido de filhos e filhas espirituais, devemos os tratados de interpretação. Neles a linguagem? do poeta transforma-se na de pensador, filósofo e teólogo, embora moderada no uso? de termos técnicos escolásticos e muito frequente no uso de imagens? concretas. Ele toma por base a experiência, que será completada pelas li?ções aprendidas da vida interior de outras almas. Isso o preserva de unilateralidade e generalizações errôneas. Ele sempre levou em conta a grande variedade dos diversos caminhos e a adaptação suave e flexível da graça às condições particulares das almas. A Sagrada Escritura se constitui para ele fonte sempre viva de ensinamentos sobre as leis? da vida interior. Nela encontra confirmação segura do que já lhe era familiar pela própria experiência interior. Esta, por sua vez, abre-lhe os olhos para a importância mística dos livros sagrados. A linguagem do Senhor, arrojada em suas imagens, utilizada nos Salmos; as parábolas de Jesus   e mesmo as narrações históricas do Antigo Testamento — tudo se lhe torna transparente e lhe abre o entendimento?, cada vez mais, para o que tem importância única: o caminho da alma para Deus e a ação de Deus na alma.

Deus criou as almas humanas para si. Ele quer uni-las a si e lhes dar a imensa plenitude e incalculável felicidade de sua própria vida divina — isso já nesta vida. Esse? é o alvo para o qual Deus orienta as almas e ao qual todas devem tender com todas as forças. O caminho para lá é estreito e íngreme. A maioria se detém no meio? da jornada; poucos passam das tentativas iniciais; pouquíssimas almas chegam ao objetivo final. A razão disso está nos perigos do caminho, ou seja, os perigos do mundo?, do inimigo maligno e da própria natureza humana. Outra razão é a ignorância e a falta? de uma direção espiritual apropriada. As almas não entendem o que nelas se passa, e raras vezes se encontra quem lhes possa abrir os olhos. A essas almas João da Cruz   se oferece como guia experimentado. Ele se compadece dos que erram, e sofre vendo que. por tais razões, malogra a obra de Deus. Ele quer e pode prestar auxílio, pois conhece todos os caminhos e atalhos do misterioso reino da vida interior. Sente-se até mesmo incapaz de dizer tudo quanto sabe acerca disso e tem de frear-se continuamente para não exceder os limites? do tema da sua obra.

Seus escritos não são leitura para qualquer pessoa?. Por certo, não desejou excluir ninguém, mas o Santo? sabia que somente um restrito número de pessoas o compreenderia — aquelas que já tivessem adquirido? alguma experiência na vida interior. Em primeiro lugar?, pensa nos monges e monjas carmelitas, cuja vocação por excelência consiste na vivência dessa vida interior. Mas ele sabe que a graça de Deus não se acha vinculada ao hábito religioso ou aos muros do mosteiro. A uma de suas filhas espirituais que vivia "no mundo" é que devemos o livro Chama viva de amor. É portanto para as almas contemplativas que ele escreve, desejando dar-lhes a mão no momento? em que chegam a uma encruzilhada e param desnorteadas, sem saber? que rumo tomar. Nos caminhos que até então haviam trilhado, encontram obstáculos intransponíveis; contudo, o novo caminho que se lhes depara percorre uma espessa escuridão: quem ter?á a coragem? de aventurar-se por ele? A encruzilhada de que se trata é formada pela meditação e pela contemplação. Até então talvez tenha sido praticado o método de Santo Inácio, exercendo-se as faculdades? da alma: sentidos, imaginação, memória, entendimento e vontade?. Mas agora? elas recusam sua cooperação, todos os esforços são em vão. Os Exercícios Espirituais, outrora fonte de consolos interiores, tornam-se penosos, insuportavelmente insípidos e estéreis. Mas essas almas não sentem nenhuma inclinação para tratarem das coisas? do mundo. Desejam manter-se calmas, imóveis, mantendo sossegadas todas as faculdades (isto, porém, parece-lhes ociosidade e perda de tempo?). Eis o estado? da alma quando Deus a deseja introduzir na "noite escura". Conforme a linguagem cristã, esse estado é chamado? "uma cruz". Mais acima dissemos que a "cruz" e a "noite" muito se assemelham. Entretanto, uma simples? averiguação indeterminada de certa semelhança de sentido? não resolve o problema. Em certos escritos, João da Cruz   acentua tanto a importância da cruz que estaria plenamente justificada nossa caracterização de sua vida e doutrina como ciência da cruz. Há, no entanto, poucos textos a ela referentes: o símbolo predominante em seus poemas e tratados não é a cruz, mas a Noite, tema central por excelência da Subida do monte Carmelo e da Noite escura, e que ainda ressoa no Cântico espiritual e na Chama viva de amor; estes últimos ocupando-se mais do estado posterior à noite. [4] Por esta razão, parece-nos conveniente examinar em profundidade a relação entre? a cruz e a noite, a fim? de obtermos a compreensão exata da importância da cruz da doutrina de São João.


[1Dionísio Areopagita, escritor grego do séc. V d.C. (cf. De divinis nominibus, cap. II §2 in Migne, Patr. Grega, III, 640).

[2A discussão acerca da questão de se esses escritos nunca foram completados, ou mutilados posteriormente, não ocorrerá aqui.

[3Outros poemas também tiveram origem na prisão. Entretanto, têm importância para nós somente aqueles que representam o ponto de partida para os grandes tratados.

[4Não menos importante é o símbolo da esposa, que no entanto não será por nós aqui tratado. Quando falarmos do Cântico espiritual, ele será explicitamente considerado.