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Figal (O:29-30) – epoché

segunda-feira 14 de fevereiro de 2022

      

Todavia, desde a distinção platônica entre filosofia e ciência presente   na República, essa foi a requisição própria à filosofia. Enquanto a ciência, por exemplo a geometria  , pensa a partir de pressupostos (ὑποθέσεις), e, por isso, supõe que aquilo de que parte é totalmente evidente   (παν  τὶ φανερόν), pertence à essência da filosofia não permitir que nenhuma auto-evidência se mostre como válida. O que está em questão para ela é clarificar expressamente aquilo que se conhece e já sempre se conhecia [1]. Na contemporaneidade, essa definição de filosofia foi acolhida de maneira enfática e efetiva por Husserl  . O seu programa desenvolvido no primeiro volume   das Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie (Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica) vive da possibilidade de não se acompanhar a “atitude natural   [2] de deixar subsistir e valer a realidade cotidiana, mas alterá-la antes radicalmente [3], a fim de conquistar desse modo a possibilidade constante de uma reflexão filosófica, e, com ela, a possibilidade de descrição e de formação conceituai. Enquanto filósofos, diz Husserl, nós colocamos a atitude natural “fora de ação”, nós “a alijamos”, nós “a suspendemos” [4]. Apesar de o termo husserliano para suspensão, o termo ἐποχή  , ser retirado da linguagem do ceticismo [5], o próprio pensamento   programático não é cético. O que se tem em vista com ele não é nenhuma mera retração em relação àquilo que pode ser tomado por verdadeiro, mas uma nova possibilidade de intelecção. Em uma primeira aproximação, poderíamos compará-la com a distância que encontramos em certas situações de vida, por exemplo, quando nos retiramos do tumulto de uma festa e nos tornamos observadores ou contempladores.

Em verdade, o jovem Heidegger   desenvolveu a sua hermenêutica da facticida-de contra Husserl, mas não abdicou, nesse caso, do pensamento da ἐποχή. O “retorno desconstrutivo às fontes originárias dos motivos” pressupõe a ἐποχή; ela é inserida na “facticidade” do ser-aí e, de maneira correspondente, na “intuição   hermenêutica” enquanto o autopresente conceitualmente articulável do ser-aí [6]. No entanto, como a ἐποχή pertence, para Heidegger, à facticidade do ser-aí, ela é tocada pela tendência contrária e efetiva no ser-aí para o auto-obscurecimento, pela “imersão” na “cotidianidade” [7]. Ela não pode ser mantida e, portanto, não fica claro como o pensamento filosófico deve se formar e articular nela.

O pensamento husserliano da ἐποχή também continua efetivo em Gadamer  . A observação gadameriana de que a experiência seria essencialmente a experiência de uma “nulidade” é visada nesse sentido. O fato de algo “nos interpelar como fala” e querer ser compreendido precisa ser entendido como uma “suspensão fundamental dos próprios pressupostos” [8], ou seja, das convicções e dos modos   de pensamento que devem ser transformados pela experiência. Considerada mais exatamente, porém, a suspensão não é nenhuma retenção no sentido de Husserl, ela não é outra coisa senão a abertura   para a experiência. Na experiência, nada é visto e realizado. Ao contrário, a experiência significa o mesmo que a prontidão para deixar que algo nos seja dito e para ser, assim, no acontecimento   da tradição.

O fato de o pensamento da ἐποχή não desaparecer em Heidegger e em Gadamer pode ser compreendido, por um lado, como uma referência à sua imperiosidade filosófica. No entanto, quando atentamos para o valor   conjuntural desse pensamento nos projetos hermenêuticos de Heidegger e de Gadamer, fica claro, por outro lado, em que medida o pensamento não pode ser desdobrado neles: o distanciamento que é indicado com este pensamento não encontra a sua base nem em um ser-aí que é apenas a sua realização  , nem em uma história efetiva que não é outra coisa senão acontecimento. Heidegger e, seguindo seus passos, Gadamer pensam exclusivamente a partir do movimento  ; não há nada por si que pudesse se subtrair ao movimento do ser-aí ou ao fluxo do acontecimento da tradição. De maneira correspondente, mesmo a tentativa de se distanciar da realização do ser-aí ou do acontecimento da tradição precisa pertencer à realização ou ao acontecimento. Mas isso significa: ele só se dá instantaneamente, precisamente como instante   da verdade ou como o flamejar no círculo da corrente da vida histórica. [FigalO  :29-30]


[1Platão, República 511b. Os diálogos platônicos são citados segundo Platonis Opera, org. por John Burnet, Oxford, 1900-1907. Cf. § 28 sobre o “Pensamento escrito”.

[2Edmund Husserl, Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie (Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica), Husserlia-na III. 1, org. por Karl Schuhmann, Den Haag, 1976, p. 61.

[3Husserl, Ideen I (Ideias 1), Husserliana III. 1, p. 61.

[4Ibid., p. 63.

[5Cf. Sextus Empiricus, Pyrrhoniae Hypotyposes I, 201 (capítulo 206). Cf. também Malte Hossenfelder, Einleitung zu: Sextus Empirikus, Grundriss der pyrrhonischen Skepsis (Introdução a: Sexto Empírico, Plano fundamental do ceticismo pirrônico), Frankfurt junto ao Main, 1968.

[6Foi deste modo que Ernst Tugenhat respondeu à questão sobre por que Heidegger não acompanha mais a ἐποχή no sentido de Husserl, dizendo que o que está em questão para Heidegger não é, como Husserl suporia, uma recaída na ἐποχή, mas a “sua (δα ἐποχή) própria radicalização”. Heidegger não necessita mais da ἐποχή porque ele se encontra “desde o princípio nela” (Ernst Tugenhat, Der Wahrheitsbegriff bei Husserl und Heidegger – O conceito de verdade em Husserl e Heidegger, segunda edição, Berlim, 1970, p. 263).

[7Heidegger, Ontologie (Ontologia), GA63, p. 30.

[8Gadamer, Verdade e método, GW 1, p. 304.