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Transcendência do Mundo

Ferreira da Silva (TM:90-93) – a vida nos povos aurorais

A EXPERIÊNCIA DO DIVINO NOS POVOS AURORAIS

quarta-feira 12 de agosto de 2020

[Excerto de FERREIRA DA SILVA  , Vicente. Transcendência do Mundo. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 90-93]

Assim como a vida? não se desenrola num cenário já dado?, mas é, ela mesma, uma eclosão de cenas, assim também o processo? teogônico não transcorre num mundo? físico?-natural? prefixado, mas é também uma total configuração da realidade?. Podemos, portanto, estabelecer relações entre essas duas ordens de eventos, isto é, entre a série? das formas? vitais e a sucessão? das hierofanias. Evidentemente, o que tentaremos fundamentar através dessa redução? não é o ente? biológico percebido pela consciência? atual, uma vez que esse? só existe para o nosso conhecimento? fragmentador e intelectualista. A filosofia? [90] romântica tentou justamente destruir a versão estática e material do vital, mostrando que os tipos e espécies conclusos e fechados são momentos de detenção, configurações instantâneas de uma onda móvel? e incircunscritível. O pensamento? tentou marchar do produto acabado para o produzir? infinito?, que forma e organiza as expressões finitas da vida, contemplando nessa atividade? original o centro de expansão da vida. Já afirmamos, entretanto, que essa sucessão criadora foi transcrita pelo pensamento filosófico, numa dimensão? naturalística, compreendida a partir do simples? estar?-aí intramundano. Outro? fato? a ser assinalado é a determinação? da força? morfogenética da vida como princípio? endereçado para o homem?, nesse encontrando seu coroamento existencial?, o que provocou o rebatimento da vida pré-humana a um mero plano? preparatório e inconcluso.

A partir da afirmação? do hominismo?, o conjunto infinito da vida não pôde deixar de se manifestar como acontecer espaço?-temporal? neutro e como representação? para uma consciência. A transcendência? da consciência humana reduziu as manifestações da vida à situação? da transcendência transcendida, seja quando foi compreendida como processo cinemático criador?, seja quando foi transcrita como processo fisiológico ou mecânico?. Acompanhando o destino? da objetividade? em seu conjunto, a vida, como o já transcendido pela consciência, manifestou-se a modo? de um mero pensado pelo pensamento. É evidente que a vida não podia revelar? os seus segredos enquanto pensada como simples transcendência transcendida, ou enquanto mero estar-aí intramundano.

Já nas filosofias da vida, uma produtividade criadora vinha sendo captada como realidade última das formas biológicas, sob a espécie? de uma Vida indivisa, que tinha nos entes em que se fragmentava uma expressão? transeunte? e exterior?. A versão do multiplice, oferecida pelo intelecto?, devia ser superada quando tentássemos aceder à fonte? geradora da existência biológica. Outro tanto devemos fazer para justificar filosoficamente a inclusão da vida entre as hierofanias do divino. A mente? dos povos [91] aurorais assim compreendeu as expansões das formas de vida, vendo no modo de ser variável dos vegetais e animais qualquer coisa? de sagrado? e de oprimente. O homem não se havia ainda destacado e oposto ao mundo das expressões vegetais e animais, porque, como assinala Jensen, “outrora, nos tempos primitivos, os homens ainda eram animais e os animais ainda eram homens, podendo assumir reciprocamente as duas formas de manifestação?”. Evidentemente, as ideias? de animal? e vegetal? eram totalmente diversas do grupo? de significados que unimos hoje em dia a essas palavras?. A palavra planta e a palavra animal designam agora? objetivação? de uma realidade transcendida e negada. Devemos imaginar, para nos intimizarmos com o espírito que desfrutava de uma proximidade mais funda com a essência? da vida, que a cena vegetal, por exemplo?, constituía uma prodigiosa realidade imposta à mimese? humana como uma revelação do sagrado. Não era a materialidade e a presença? tangível? das árvores que aqueles seres viviam nos bosques e nas florestas, mas sim o arrebatamento? de um modo de ser excelso e numinoso?. Viviam o impulso? surdo e imponente daquele transbordamento vital e sentiam-se como expressão do mesmo princípio e da mesma imaginação? concreta. A substância? dos deuses ou do deus? vegetal subjugava e incluía em si a forma fluida dos povos do passado, ditando-lhes o desenho de seu mundo. A planta não era, para eles, um objeto? intramundano transcendido em sua ação?, mas a própria essência da vida, o horizonte? a partir do qual compreendiam-se a si mesmos. Os episódios da cena vegetal constituíam a melodia contínua do seu viver, sendo o próprio? mundo de essência vegetal. Os homens-planta eram plantas antes de ser homens. A transcendência da vida vegetal enchia os espaços do mundo-planta, com suas ramificações infinitas de galhos, folhas, flores e frutos. Tudo estava em continuidade com esse ir além? gerador e, na dimensão fítica, cumpria-se o rito? supremo do real? e o encontro com a substância última das coisas. O mesmo podemos dizer em relação? ao poder encantatório-totêmico do animal sobre a consciência do passado. Qualquer livro de etnologia? ou de história? das religiões relata-nos acerca [92] da esmagadora ascendência do desempenho da dramática animal sobre o comportamento? auroral da existência. Os homens-cangurus, os homens-répteis, os homens-araras são expressões dessa primitiva autocaptação da vida em outras fases do tempo?. Para ser possível? um tal monopólio da consciência por uma representação animal devemos admitir que a cena animal, como conjunto fantástico de desempenhos, precisaria possuir um extraordinário? fascínio, a ponto? de atrair o diverso da operação? humana. Esse modo de propor o problema? é arriscado, entretanto, pois supõe uma prévia separação? entre o comportamento cênico animal e a autonomia? da ação humana. O cativeiro da forma humana no plexo das possibilidades cênico-animais é anterior, como vimos, à autoconsciência? do homem; o prévio é uma unidade? indivisa, uma matriz? numinosa como potência? mítico-vital. No interior da essência ofídica ou felina da cena mundanal é que o agente? humano em potência vislumbra o seu papel. As paixões? animais abrem caminho para os impulsos que são consignados ao protagonista histórico? a partir da peça (Schau-Schuck) teriomórfica. Essa peça é o próprio ser da animalidade quando pensada em seu mostrar-se primordial, em sua transcendência não transcendida. O ser do animal não se põe como uma sucessão de fenômenos no espaço natural fixo, mas como a instauração de um mundo e a abertura de uma cena fantástica. Se a vida, em suas aparências variadas e caprichosas, foi compreendida pela filosofia bergsoniana em analogia? com o impulso criador subjacente na obra de arte?, podemos – mediante um esclarecimento radical desta última – sondar mais profundamente o oceano das expressões vitais.


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