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Lei Cativeiro

segunda-feira 28 de março de 2022

      

Ascetismo e Misticismo  
Thomas Merton  : TEMPO E LITURGIA

E nossa fraqueza  ? E a lei que existe em nossos membros, a Lei do pecado   e da morte?

Tudo isso aí está, ainda, mas não é preciso temê-lo. Não é necessário odiarmo-nos pelo fato de essas coisas ainda operarem por sua força em nós. Essa força tornou-se, pela vitória de Cristo  , inoperante, contanto que permaneçamos firmes na fé, confiando no poder d’Ele, com confiança profunda e tranquila. Assim, ousamos viver   na aparente contradição de sermos ainda "pecadores", em nada imunes do temor e da perda de confiança - e, no entanto, maravilhosamente sustentados pela presença da graça de Cristo.

Essa confiança significa uma delicada e amorosa sujeição à direção do Espírito Santo. É uma atenção cuidadosa e reverente a toda indicação de sua vontade. Temos de ousar "alimentar-nos no pão ázimo da sinceridade e da verdade". Quer isso dizer que devemos ser inteiramente francos (na medida em que podemos ser francos) conosco, com o próximo e com Deus  . Não precisamos mais esconder coisa alguma das nossas fraquezas passadas ou mesmo presentes, porque elas não são mais causa   de vergonha  . Não temos mais necessidade   de nos desculpar e de nos justificar. Não precisamos mais do zelo   amargo que procura reanimar nossa confiança em nossa própria virtude, procurando descobrir as falhas nas virtudes dos outros. Esse zelo é o velho fermento   dos que estão debaixo da Lei.

Não nos tornamos subitamente anjos  . Fomos pecadores e podemos facilmente voltar a sê-lo. Ainda somos "pecadores", mas que não pecam (1 Jo 3,9). Permanece o fato de que a mais perniciosa influência na vida do cristão é o espírito de escravidão à Lei, que frustra a graça e a liberdade de Cristo em nossas almas e dispõe almas boas e santas a recaírem no pecado. Pois essa é precisamente a função da Lei. "Sobreveio a Lei para fazer abundar o delito, mas onde abundara o pecado, superabundou a graça" (Rom 5,20). A Lei sem Cristo é fonte de desespero  , enquanto a Cruz de Cristo e sua vitória Pascal   são nossa esperança - nossa única esperança - de libertação real e total do pecado.

Entretanto, para alguns cristãos, na prática, a Cruz se tornou sinal, não da vitória de Cristo, mas da vitória da Lei. Consideram a Cruz como sinal do castigo   imposto a todos os que violam a Lei. Tal castigo não era devido a Cristo, argumentam, mas Ele o assumiu por causa da grande reverência devida ao pecado e para mostrar-nos que coisa terrível é infringir a Lei.

Assim, numa estranha e inconsciente incompreensão da Cruz, agimos como se a Cruz fosse a maior e mais inevitável vingança da Lei. É como se, para nós, o sangue   de Cristo tivesse sido derramado, não para nos libertar da Lei, realizando-a com perfeição uma vez por todas em Si mesmo  . É, antes, como se o sangue do Redentor tivesse sido derramado para saciar e fortalecer a Lei para sempre, de maneira que jamais pudesse morrer  , mas vivesse com a eterna sanção do Deus justo.

Ambas essas aberrações são terríveis em sua falsidade  . Cristo morreu na Cruz cumprindo a Lei e, assim, tornou-se, para todos aqueles que estão unidos a Ele por uma fé amorosa, o completo cumprimento da Lei. "Com efeito, a lei do espírito, que é da vida em Jesus Cristo, te libertou da lei do pecado e da morte" (Rom 8,2).

No entanto, a Lei permanece, potencialmente, juiz e adversário de cada um de nós, e retoma sua posse sobre nós logo que recomeçamos a viver "segundo a carne  ", quer o façamos pecando, quer meramente substituindo uma vida verdadeiramente eucarística em Cristo por uma vida de adoração "carnal" e formalística.

A sobrevivência tenaz da Lei não é um acidente. Está na intenção de Deus que o combate   de Cristo contra a Lei continue na humanidade até o fim dos tempos. É necessário que esse combate continue, e Ele, de fato, continua em nossas próprias vidas. Por que será que alimentamos secretamente e com carinho uma espiritualidade baseada na Lei, e não em Cristo? Por que recaímos no temor e deixamos de confiar? Pois é preciso mais coragem  , mais energia viril e mais completo sacrifício de si mesmo para assumir a liberdade de Cristo do que para permanecer sob a escravidão da Lei.

Sempre nos será possível fugir   desse problema, confundindo liberdade com licença, e dizer que, na prática, é impossível distinguir   uma da outra. Assim, segundo essa cômoda teoria  , se não nos agarrarmos à Lei, cairemos na licença. Não existe para nós o "amai e fazei o que quiserdes!" de Santo Agostinho  . Não podemos, é evidente  , chamar Santo Agostinho de herege, mas, sem dúvida alguma, gostaríamos de condenar esse seu pronunciamento e quase todos nós não hesitamos fazê-lo com toda a força de nosso farisaísmo indignado. Será isso por termos uma falsa noção da liberdade cristã? Lembremo-nos da doutrina   de Santo Anselmo  , de que "o poder de pecar" não é de fato um poder e nada tem a ver com a verdadeira natureza da liberdade. Aquele que é realmente livre abandonou o pecado, a ele renunciando, de modo que, pela graça de Deus, não se sente mais inclinado a escolher o que é mau.

Esquecemos comodamente o verdadeiro sentido do aforismo de Santo Agostinho. Alguém para quem o amor de Deus substituiu a "Lei", e para quem o amor de Deus é a força que orienta a vida, nada quer de contrário ao amor de Deus. No momento em que, voluntariamente, abandona o caminho   do amor, desviando-se para querer o que é contrário ao amor, perde a liberdade e cai, novamente, sob a tirania da Lei.

E aí, é evidente, não pode mais "fazer o que quer". Tem de fazer o que a Lei prescreve, ou então cai ainda mais baixo, sob a tirania mortífera do pecado. E o salário   do pecado é a morte.

É, então, a liberdade de Cristo um escândalo? Sim, francamente é. Essa liberdade é demasiada para nós, porque não consideramos seriamente o mergulhar-nos numa vida de grandes riscos aparentes para que possamos ser sustentados pelo poder oculto de Deus e guiados por seu Espírito Santo.

Ora, de fato isso tem sido olhado com a maior desconfiança. Os riscos são muito reais. Não houve heresias que apelavam presunçosamente para a graça? Não tem havido grandes pecadores que combinavam um falso misticismo com uma licença desenfreada, sob pretexto de que podiam amar   e fazer o que lhes aprouvesse?

Sim. Se pensarmos, porém, que tudo isso é motivo para abandonarmos a liberdade dos filhos de Deus e nos colocarmos novamente sob a Lei, esvaziamos o mistério Pascal das mais sérias implicações nele contidas para a nossa vida cristã.

Não vamos, portanto, cometer o engano   de pensar   que a perfeição cristã significa ligarmo-nos de maneira cada vez mais apertada numa rede de prescrições cada vez mais severas e minuciosas. Os grandes sacrifícios dos santos, suas mortificações e penitências, tantas vezes mal compreendidos e desorientadores, não foram ditados pela lei, mas pelo "espírito de vida no Cristo Jesus que os libertara da lei da morte". Sua grandeza   cristã consiste precisamente no fato de que eram atos livres, espontâneos, ultrapassando qualquer exigência da Lei.