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Psicologia Tentação

segunda-feira 28 de março de 2022

      

Tanquerey   Tentações - CAPÍTULO V - LUTA   CONTRA AS TENTAÇÕES (cont.)

II. A psicologia da peirasmos   - tentação
Descreveremos: 1. a frequência da peirasmos - tentação; 2. as suas diversas fases; 3. os sinais   e os graus de synkatathesis   - consentimento.

905. 1. Frequência das tentações. A frequência e violência das tentações variam em extremo: há almas que são amiudada e violentamente tentadas; outras há que o são apenas raras vezes e sem se sentirem profundamente abaladas. Muitas são as causas que explicam esta diversidade.

a) Em primeiro lugar, o krasis   - temperamento e o carater: há pessoas extremamente apaixonadas e ao mesmo tempo fracas de vontade, frequentemente acometidas e perturbadas pela peirasmos - tentação; outras, bem equilibradas e enérgicas, que não são tentadas senão raramente e conservam a serenidade nó meio da peirasmos - tentação.

b) A educação origina outras diferenças: há almas educadas no phobos   - temor e amor de Deus  , no cumprimento habitual do dever   austero  , que não receberam quase senão bons exemplos; outras, pelo contrário, foram educadas no amor do hedone   - prazer e no horror de qualquer sofrimento  , e não viram quase senão exemplos de vida mundana e sensual. É evidente   que as segundas serão mais violentamente tentadas que as primeiras.

c) É necessário também ter em conta os desígnios da Providência: há almas que Deus chama a um alto grau de santidade   e que preserva de toda a mácula com o mais desvelado carinho; outras, que destina também à perfeição, mas que quer fazer passar por árduas provações, a fim de as robustecer na virtude; outras, enfim, que Deus não chama a estado   tão elevado e que serão mais frequentemente tentadas, se bem que nunca acima das suas forças.

906. 2. As três fases da peirasmos - tentação. Conforme a doutrina   tradicional, exposta já por S. Agostinho, há três fases na peirasmos - tentação: a peirasmos - sugestão, o deleite e o synkatathesis - consentimento.

a) A peirasmos - sugestão consiste na proposição dalgum mal: a phantasia   - imaginação ou o espírito representa-nos, mais ou menos vivamente, os encantos do fruto   proibido; às vezes esta representação é sobremaneira sedutora, impõe-se com tenacidade   e torna-se uma espécie de obsessão. Por mais perigosa que seja esta peirasmos - sugestão, não é pecado, contando que se não haja provocado ou nela se não consinta livremente; não há falta, senão quando a vontade lhe dá synkatathesis - consentimento.

b) À peirasmos - sugestão junta-se a deleite: instintivamente, sente-se inclinada a parte inferior   da alma   para o mal sugerido, experimentando um certo hedone - prazer. «Sucede muitas vezes, diz S. Francisco de Sales   \ que a parte inferior se deleita na peirasmos - tentação sem o synkatathesis - consentimento, antes contra a vontade da superior. É esta a guerra que o apóstolo S. Paulo descreve, quando diz que a sua sarx   - carne tem apetites contra o espírito». Esta deleite da parte inferior, enquanto a vontade não consente, não é falta; mas é um perigo, porque a vontade se encontra assim solicitada a dar a sua adesão. Propõe-se então a alternativa: vai a vontade consentir, sim ou não?

c) Se a vontade recusa o assentimento, se agon - combate e repele a peirasmos - tentação, fica vitoriosa e faz um ato sobremaneira meritório. Se, pelo contrário, se compraz na deleite, se nela se goza voluntariamente, se consente nela, está cometido o pecado interior.

Tudo depende, pois, do livre synkatathesis - consentimento da vontade; e é por isso que, para maior clareza  , vamos indicar os sinais por onde se pode reconhecer   se houve synkatathesis - consentimento e em que medida o houve.

907. 3. Sinais de synkatathesis - consentimento. Para melhor explicarmos este ponto importante, vejamos os sinais de não-synkatathesis - consentimento, de synkatathesis - consentimento imperfeito e de pleno   synkatathesis - consentimento.

a) Pode-se assentar que não houve synkatathesis - consentimento, se, a despeito da peirasmos - sugestão e do hedone - prazer instintivo que a acompanha, a alma sente descontentamento, desgosto de se ver assim tentada, se agon - luta para não sucumbir, se na parte superior sente um vivo horror do mal proposto (NA: S. Francisco de Sales refere (Vie devote, IV.e P., ch. IV) que uma vez que Santa Catarina de Sena fora violentamente tentada contra a hagneia   - castidade, Cristo   Senhor Nosso lhe perguntara: «Dize-me, esses impuros logismos   - pensamentos do teu coração   davam-te hedone - prazer ou tristeza  , amargura ou deleite? — Respondeu a Santa: «Suma tristeza e amargura». E Nosso Senhor consolou-a, acrescentando que essas penas eram um grande mérito e lucro espiritual.).

b) Pode-se ter culpa   da peirasmos - tentação na causa, quando se prevê que esta ou aquela praxis   - ação, que podemos evitar, nos é fonte de tentações: «Se eu sei, diz S. Francisco de Sales, que alguma conversação me ocasiona peirasmos - tentação e queda, e a ela me exponho voluntariamente, serei sem dúvida alguma culpado de todas as tentações que nela me vierem». Mas, então, não há culpa senão na medida em que houve previsão, e, se esta não passou de vaga e confusa, fica proporcionalmente diminuída a culpabilidade.

908. c) Pode-se considerar que o synkatathesis - consentimento é imperfeito.

1) Quando se não repele a peirasmos - tentação tão prontamente como se dá pelo seu caráter perigoso; há nisto uma falta de imprudência que, sem ser grave, expõe ao perigo de consentir na peirasmos - tentação. (NA: «Somos às vezes sobressaltados por um titilamento de deleite, antes de podermos sequer dar por ele; isto, quando muito, não pode passar de bem ligeira venialidade, a qual se faz maior, se, depois de termos advertido no mal em que caímos, nos demorarmos por negligência, algum tempo, a negociar com a deleite, se a devemos aceitar   ou repelir». Vie devote, I, c., ch. VI.)

2) Quando se hesita um instante  : desejar-se-ia provar um pouco do hedone - prazer vedado, mas não se quereria ofender a Deus; em suma, após um momento de hesitação, repele-se a peirasmos - tentação; também aqui há pecado venial de imprudência.

3) Se não se rechaça a peirasmos - tentação senão a meias: resiste-se, mas com indolência, incompletamente; ora semi-resistência é semi-synkatathesis - consentimento: falta venial.

909. d) O synkatathesis - consentimento é pleno e inteiro, quando a vontade, enfraquecida pelas primeiras concessões, se deixa arrastar a saborear voluntariamente o hedone - prazer mau, sem embargo dos protestos da consciência que reconhece o mal. Então, se a matéria é grave, é mortal   o pecado: pecado de logismos - pensamento   ou de deleite morosa, como dizem os teólogos  . Se ao logismos - pensamento se ajunta o desejo consentido, mais grave ainda é a falta. Enfim, se do desejo se passa à execução, ou ao menos a procurar meios para pôr por obra o mau projeto, é pecado de praxis - ação.

910. Nos diversos casos que acabamos de expor, há por vezes dúvidas que se elevam acerca do synkatathesis - consentimento ou semi-synkatathesis - consentimento dado. Deve-se então distinguir entre as consciências delicadas e as consciências relaxadas: no primeiro caso, julga-se que não houve synkatathesis - consentimento, porque a pessoa   de que se trata tem o hábito   de não consentir, ao passo que no segundo se formará juízo inteiramente contrário.