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Sócrates - O Mestre

quinta-feira 24 de março de 2022

    

O MESTRE
Excertos de Micheline Sauvage, Sócrates  . Agir, 1959 (original em francês: Socrate ou la conscience de l’homme

«Se tivesse o entusiasmo   de um Platão a escutar   Sócrates, exclama Kierkegaard  , se meu coração   pulsasse tão forte   quanto o de Alcibíades, e ainda mais forte que o dos coribantes, se minha paixão em admirá-lo só pudesse ser satisfeita abraçando este homem   prodigioso, sem dúvida Sócrates sorriria para mim   dizendo:»Meu caro, que amante enganador, não é verdade? Pois queres me divinizar por causa   de minha sabedoria   e ser aquele que me compreendeu melhor e a cujo amplexo de admiração   não pude me furtar; não és acaso um sedutor«? E se não quisesse compreendê-lo, então sua ironia   fria me lançaria no desespero   quando me explicasse que tinha a meu respeito uma dívida tão grande quanto a que eu tenho para com ele, ó rara probidade, que não engana ninguém, mesmo aquele para o qual a própria felicidade   consistisse em ser enganado... ó rara fidelidade, que não seduz ninguém, mesmo aquele que emprega toda a arte da sedução   para se fazer seduzir»! O erro   de Alcibíades é uma idolatria que quer apenas abraçar determinado homem de carne   e osso sem deixar, entretanto, que se dissipe a pessoa de Sócrates atrás de sua doutrina  . Mais insidiosamente ainda, ela consiste em compreender está doutrina como certa aquisição a fazer, como a transmissão   de saber do mestre ao discípulo  .

Eis-nos no próprio núcleo do evento socrático. A Grécia não carece de saber, pois desde Tales de Mileto  , já um século antes, viu florescer um número   extraordinário de sophoi, de sábios. Carece acaso de sabedoria? Foi, por ventura, Sócrates o primeiro a desviar   a pesquisa humana das coisas do mundo para os problemas do homem como para seu objeto próprio? É o que se costuma dizer, seguindo a tradição formada por Cícero  , do qual transcrevemos um texto ilustre: «Basta dizer que, até Sócrates, discípulo de Arquelau, que o fora de Anaxágoras  , a filosofia se contentava em ensinar a ciência dos números, os princípios do movimento   e as fontes da geração e da corrução de todos os seres; procurava, com cuidado  , a grandeza  , as distâncias e o curso dos astros; numa palavra, as coisas celestes. Sócrates, porém, foi o primeiro a fazer descer do céu a filosofia, introduzindo-a, então, não só nas cidades, mas até nas casas e forçando-a a regular a vida, os costumes, os bens e os males». Segundo este testemunho, o pensamento   pré-socrático (na medida em que é possível falar no singular) seria um pensamento de matemáticos, de «fisiólogos» e de «meteorólogos» e a inovação de Sócrates teria consistido em propor o homem como objeto de reflexão  . Antes dele, a filosofia natural; com êle, a ética, — termo que, aliás, parece ter sido ele o primeiro a empregar.

Mas Cícero se engana e nos engana. Apesar da alusão aos Pitagóricos, ele pensa, sobretudo, na física jônica e, especialmente, em Anaxágoras, a cujo respeito se conta certa historieta que poderia muito bem servir de chave para toda a passagem. Ora, a ambiguidade   essencial da sophia se opõe a esta interpretação   do «momento histórico» de Sócrates. Falar em «filosofia natural», a propósito dos pré-socráticos  , exige, pelo menos, que se distinga na especulação   anterior   a Sócrates diversas «correntes», pois aquele do qual saiu o que há de ser mais tarde a ciência ocidental (a matemática talesiana e pitagórica, a física e a cosmologia dos Jônicos e da escola de Abdera) é apenas uma delas. O pensamento dos Eleatas, por exemplo, é-lhe exterior, como já observara Aristóteles.«Além disso, a própria distinção é artificial. Ciência e sabedoria, para esses povos, são uma coisa só expressa por uma única palavra. A arte de viver   consiste em certo conhecimento e este conhecimento é, em si mesmo  , sem passagem nem aplicação, uma arte de viver; em seus começos o pensamento ocidental é, neste ponto, um pensamento oriental. Por conseguinte, se pusermos de lado (e ainda...) os três»físicos«da Jônia, isto é, Anaximandro  , Anaxímenes   de Mileto e Anaxágoras de Clazomenos, assim como os atomistas de Abdera, o misterioso Leucipo e seu discípulo mais conhecido Demócrito, o juízo   de Cícero perde aplicação, pois Sócrates não precisou de fazer descer nas»cidades e nas casas«uma filosofia que só pôde desinteressar-se»pelos costumes, pelos bens e pelos males«acidentalmente, em função de um ou outro temperamento individual. A especulação pitagórica, junta com o orfismo, transforma a escola numa seita   cuja regra desce até às prescrições dietéticas; a Antiguidade   atribuía ao próprio Pitágoras algumas obras de pedagogias e de política. A cosmologia de Heráclito   é inseparável de uma sabedoria que pensa o homem no Todo, pois»as fronteiras da alma  , não lograrás nunca alcançar por longe que te conduzam teus passos em todos os caminhos, tão profunda é, pois, a Palavra que nela habita«.»Possuímos mesmo certas máximas práticas de Heráclito que, pelo menos, quanto ao espírito   senão pela forma, já são socráticas; e nem estaria fora de lugar nos Memoráveis, se a compreendermos como convém, esta frase ambígua que deixa transparecer o reflexo de uma ironia: «Os filósofos da natureza devem explorar um domínio   extremamente vasto. A ciência das coisas é um conhecimento múltiplo que não constitui a sabedoria. O mesmo acontece com a cosmologia eclética de Empédocles   que descreve simultaneamente um itinerário místico  . A filosofia não precisa, pois, descer do céu à terra   quando o céu e a terra formam uma unidade   aos olhos daquele que conhece por ciência genuína, o»bem-aventurado que possui a riqueza   de uma inteligência divina«, que Empédocles propõe como modelo aos mortais   afligidos pelo mal da ignorância. O termo»física", aplicado a semelhante forma de pesamento, dá aos espíritos de nosso tempo uma ideia inexata.

Em suma, o testemunho desajeitado de Cícero desloca a inovação socrática. O que faz de Sócrates o primeiro dos modernos não é o fato de se ter interessado pelo curso da vida humana, pois desde o nascimento, no século VI, a sabedoria helênica nunca pretendeu separar os problemas do homem das «coisas celestes». Não é, portanto, a descoberta de um novo objeto ou de uma nova direção   para a reflexão, mas a descoberta do próprio sujeito que reflete.