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ENÉADAS

Plotino - Tratado 53,4 (I, 1, 4) — Alma enquanto forma no corpo que é matéria

Enéada I, 1, 4

domingo 20 de fevereiro de 2022, por Cardoso de Castro

    

(§4) O sujeito   das paixões é a mistura da alma   e do corpo

  • A crítica da concepção estoica [Stoa  ] da mistura
  • A hipótese do entrelaçamento
  • Última espécie da mistura: a forma na matéria [hyle  ]
    

traduzindo MacKenna

4. Consideremos, então, a hipótese de uma coalescência.

Se há uma coalescência, o inferior   é enobrecido, o mais nobre degradado; o corpo é elevado na escala de ser como feito participante na vida; a Alma  , como associada com a morte e a irracionalidade, é trazida ao mais inferior. Como pode uma diminuição na qualidade   de vida produzir um aumento tal com a Percepção-de-Sentido?

Não: o corpo adquiriu vida, é o corpo que irá adquirir, com a vida, sensação   e as afetividades provindas pela sensação. Desejo, então, pertencerá ao corpo, como os objetos de desejo devem ser usufruídos pelo corpo. E medo, também, pertencerá apenas ao corpo; pois é a sina do corpo declinar de suas delícias e perecer.

Então de novo deveríamos examinar como tal coalescência poderia ser concebida; acharíamos impossível ela: talvez tudo isto seja como anunciar a coalescência de coisas totalmente incongruentes em espécie, digamos de uma linha e uma brancura.

Quanto à sugestão que a Alma é entretecida através do corpo: uma tal relação não daria textura e urdidura a uma comunidade de sensação: o elemento   entretecido não poderia certamente sofrer   modificação  : a alma permeante poderia permanecer inteiramente intocada pelas afetividades do corpo - como a luz   vai sempre livre de todas as suas torrentes - e tanto mais assim, posto que, precisamente somos indagados a considerar ela como difusa através de todo enquadramento.

Diante de tal entretecer, então, a Alma não estaria sujeita as afetividades e experiências de corpo: estaria presente   mais como Forma-Ideal na Matéria.

Vamos então supor a Alma estando no corpo como Forma-Ideal na Matéria. Se - a primeira possibilidade - a Alma é uma essência  , um auto-existente, ela poderia estar presenta somente como forma separável e será portanto decididamente o Princípio-Utilizador (e portanto não afetado).

Suponhamos, em seguida, a Alma estar presente   como forma de machado no ferro: aqui, sem dúvida, a forma é totalmente importante mas é ainda assim o machado, o complemento de ferro e forma, que efetiva o que quer que seja efetivado pelo ferro assim modificado: sobre esta analogia  , portanto, somos ainda mais estritamente compelidos a atribuir todas as experiências da combinação para o corpo: seu assento natural é um membro material, o instrumento, o recipiente potencial da vida.

Compare esta passagem onde lemos «é absurdo supor que a Alma tece»; igualmente absurdo pensar   nela como desejando, afligindo-se. Tudo isto é de fato da província de algo que podemos denominar Animado.

traduzindo Bréhier

4. Ei-los portanto misturados. Por esta união  , o elemento pior se aprimora, e o elemento melhor piora: O corpo se aprimora, tomando parte na vida ; a alma piora participando da morte e do desvario. Como a uma alma, da qual a vida é retirada, se juntará o poder de sentir? Ao contrário, recebendo a vida, o corpo toma sua parte das sensações e das afeições que dele derivam. Logo, ele terá o desejo : Pois é ele que desfruta das coisas que ele deseja. Experimentará o temor por ele mesmo; pois é ele que sentirá falta do prazer e que será destruído.

Busquemos ainda o modo de união da alma e do corpo. Talvez não seja nada mais que, por exemplo, aquela de uma linha e da cor branca, quer dizer de duas naturezas diferentes. É um entrelaçamento ? O entrelaçamento não faz a simpatia ; coisas entrelaçadas nada podem experimentar umas das outras; a alma, estando toda difundida através do corpo, poderia dele não experimentar as paixões e ser como a luz, sobretudo se se pode considerá-la como entrelaçada ao meio que ela atravessa. A alma não experimentará as paixões do corpo, devido a aí estar entrelaçada; ela estará no corpo como a forma está na matéria. Mas posto que ela é uma substância, a alma será uma forma separada do corpo, e será preferível considerá-la como se servindo do corpo. Ela é como a forma que se dá ao ferro para fabricar o machado? É então o machado, combinação do ferro e da forma, que age, é o ferro dotado de uma certa forma; e ele age segundo esta forma. É por conseguinte ao corpo que se deve atribuir as paixões que partilha com a alma, mas ao corpo vivo, entendo o “corpo natural, organizado e possuindo a vida em potência”. (Aristóteles  ) disse bem com efeito que se e absurdo pretender que é a alma que tece, é absurdo também pretender que é ela que deseja e que sofre; é de preferência o animal  .

Igal

4. Supongamos, pues, que está mezclada [1]. Ahora bien, si está mezclada, la parte peor, el cuerpo, saldrá ganando, y la otra, el alma, perdiendo. El cuerpo saldrá ganando al participar de la vida, y el alma perdiendo al participar de la mortalidad e irracionalidad. Entonces, ¿cómo es posible que lo que ve mermada de cualquier modo su vida reciba como incremento la sensibilidad? Bien al contrario, será el cuerpo el que, al recibir la vida, participará de la sensación y de las afecciones resultantes de la sensación. Y será el cuerpo, por tanto, el que también desee —pues él es quien ha de disfrutar de las cosas que desee— y el que tema por sí, pues él es quien ha de fracasar en la consecución de sus placeres y quien ha de corromperse. Pero hay que inquirir si este tipo de mezcla no será tan imposible como si alguien dijera que una línea está mezclada con lo blanco, o sea, una naturaleza con otra diferente [2].

Pero lo de «entrelazada», no hace que las cosas entrelazadas experimenten las mismas afecciones, sino que es posible que lo entrelazado sea impasible, y así, es posible que el alma, aun permeando al cuerpo, con todo, al igual que la luz, no experimente las afecciones de aquél, sobre todo si lo permea de tal modo que esté compenetrada del todo con él. No por eso, pues, experimentará las afecciones del cuerpo, por estar entrelazada [3].

¿Estará en el cuerpo como la forma en la materia? En primer lugar, estará como forma separada, puesto que es sustancia, y así estará más bien en calidad de quien se vale del cuerpo. Pero si es para el cuerpo como la figura impuesta al hierro es para el hacha [4] (y será el compuesto de ambos, el hacha, quien realice cuanto realice el hierro así configurado, sólo que por razón de la figura), entonces todas las afecciones comunes se las atribuiremos más bien al cuerpo, sólo que al cuerpo específico, «al natural orgánico poseedor de vida en potencia» [5]. Es que es absurdo —dice (Aristóteles)— «afirmar que el alma teje» [6]. Luego también que apetece y que se apena. Ello es más bien propio del animal [7].

Bouillet

IV. Supposons l’âme mêlée au corps. Dans ce mélange, la partie inférieure, le corps, devra gagner, et la partie supérieure, l’âme, devra perdre : le corps gagnera en participant à la vie, l’âme perdra en participant à une nature mortelle et irraisonnable. L’âme, en perdant la vie jusqu’à un certain point, recevra–t–elle, comme un accessoire, la faculté de sentir? Le corps au contraire, en participant à la vie, ne devra-t-il pas recevoir la sensation et les passions qui en dérivent? C’est donc le corps qui éprouvera le désir : car c’est lui qui jouira des objets désirés; c’est le corps qui éprouvera la crainte : car c’est lui qui pourra voir échapper les plaisirs qu’il recherche, c’est lui enfin qui sera exposé à périr (19).

En admettant le mélange de l’âme et du corps, si toutefois ce mélange n’est pas impossible, comme le serait par exemple celui d’une ligne et de la couleur   blanche, c’est-à-dire de deux natures hétérogènes, il faut encore rechercher quel est le mode de ce mélange. Si l’on suppose l’âme répandue dans le corps, il ne s’ensuit pas qu’elle en partage les passions : car ce qui est répandu dans une substance peut rester impassible; donc l’âme, tout en pénétrant le corps, peut être étrangère à ses passions, comme la lumière, partout répandue, n’en demeure pas moins impassible (20). Ainsi, pour être répandue par tout le corps, l’âme ne doit pas nécessairement en subir   les passions.

L’âme sera-t-elle dans le corps comme la forme est dans la mati  ère? Alors, en sa qualité d’essence et surtout de cause qui se sert du corps comme d’un instrument, elle y sera une forme séparable. Si elle est dans le corps comme la figure est dans le fer pour constituer avec lui une hache et lui donner, par la vertu qui lui est propre, le pouvoir de faire ce que fait le fer ainsi façonné, nous aurons une raison de plus pour attribuer au corps les passions communes : elles appartiendront au corps vivant, à ce corps naturel organisé qui possède la vie en puissance (21). Car, « s’il est absurde, comme l’a dit Platon   (22), de prétendre que c’est l’âme qui tisse, » il n’est pas plus raisonnable de dire que c’est elle qui désire, qui s’afflige; c’est bien plutôt à l’animal qu’il faut rapporter tout cela.

Bréhier

4. Les voilà donc mêlés. Par cette union, l’élément pire s’améliore, et l’élément le meilleur empire : le corps s’améliore, en prenant part à la vie ; l’âme empire en participant de la mort et de la déraison. Comment une âme, à qui la vie est enlevée, s’adjoindrait-elle le pouvoir de sentir ? Au contraire, en recevant la vie, le corps prend sa part des sensations et des affections qui en dérivent. Donc, il aura le désir : car c’est lui qui jouit de choses qu’il désire. Il éprouvera de la crainte pour lui-même ; car c’est lui qui manquera le plaisir et qui sera détruit.

Recherchons encore le mode d’union de l’âme et du corps. Peut-être n’est-elle pas plus possible que, par exemple, celle d’une ligne et de la couleur blanche, c’est-à-dire de deux natures différentes. Est-ce un entrelacement ? L’entrelacement ne fait pas la sympathie ; des choses entrelacées peuvent ne rien éprouver les unes des autres ; l’âme, tout en étant répandue à travers le corps, pourrait n’en pas éprouver les passions et être comme la lumière, surtout si on peut la considérer comme entrelacée au milieu qu’elle traverse. L’âme n’éprouvera pas les passions du corps, du fait qu’elle y est entrelacée ; elle sera dans le corps comme la forme est dans la matière. Mais puisqu’elle est une substance, l’âme sera une forme séparée du corps, et il sera préférable de la considérer comme se servant du corps. Est-elle comme la forme que l’on donne au fer pour fabriquer une hache ? c’est alors la hache, couple du fer et de la forme, qui agit, c’est le fer doué d’une certaine forme ; et il agit selon cette forme. C’est alors plutôt au corps qu’il faudrait attribuer les passions qu’il partage avec l’âme, mais au corps vivant, j’entends le « corps naturel, organisé et possédant la vie en puissance ». [Aristote] dit bien en effet que s’il est absurde de prétendre que c’est l’âme qui tisse, il est aussi absurde de prétendre que c’est elle qui désire et qui souffre ; c’est bien plutôt l’animal.

Guthrie

CONSEQUENCES OF MIXTURE OF SOUL AND BODY.

4. Now let us suppose the soul is mingled with the body. In this mixture, the worse part, or body, will gain, while the soul will lose. The body will improve by participation with the soul; and the soul will deteriorate by association with death and irrationality. Well  , does the soul, in somewhat losing life, gain the accession of sensation? On the other hand, would not the body, by participation in life, gain sensation and its derived passions? It is the latter, then, which will desire, inasmuch as it will enjoy the desired objects, and will feel fear about them. It is the latter which may be exposed to the escape of the objects of its desire, and to decay.

MIXTURE OF SOUL AND BODY.

We will set aside as impossible the mixture of two incommensurables, such as a line and the color called white. A mixture of the soul and body, which must imply their commensurability, would demand explanation. Even if the soul interpenetrate the body, the soul need not share the body’s passions, for the interpenetrating medium   may remain impassible; as light, which remains such in spite of its diffusion. Thus the soul might remain a stranger to the body’s passions, though diffused through it, and need not necessarily undergo its passions.

ARISTOTELIAN HYPOTHESIS   CONSIDERED.

Should we say that the soul is in the body, as form in matter? In this case, she is “being,” and she would be a separable form. If then she be in the body as, in the case of the axe, the schematic figure is in the iron, so as by her own proper virtue, to form the power of doing what iron thus formed accomplishes, we will have all the more reason to attribute the common passions to the body, which is an organized physical tool possessing potential life. For if as (Plato) says it be absurd to suppose that it is the soul that weaves, it is not any more reasonable to attribute the desires and griefs to the soul; rather, by far, to the living organism.

MacKenna

4. Let us consider, then, the hypothesis of a coalescence.

Now if there is a coalescence, the lower is ennobled, the nobler degraded; the body is raised in the scale of being as made participant in life; the Soul, as associated with death and unreason, is brought lower. How can a lessening of the life-quality produce an increase such as Sense-Perception?

No: the body has acquired life, it is the body that will acquire, with life, sensation and the affections coming by sensation. Desire, then, will belong to the body, as the objects of desire are to be enjoyed by the body. And fear, too, will belong to the body alone; for it is the body’s doom to fail of its joys and to perish.

Then again we should have to examine how such a coalescence could be conceived: we might find it impossible: perhaps all this is like announcing the coalescence of things utterly incongruous in kind, let us say of a line and whiteness.

Next for the suggestion that the Soul is interwoven through the body: such a relation would not give woof and warp community of sensation: the interwoven element might very well suffer no change: the permeating soul might remain entirely untouched by what affects the body- as light goes   always free of all it floods- and all the more so, since, precisely, we are asked to consider it as diffused throughout the entire frame.

Under such an interweaving, then, the Soul would not be subjected to the body’s affections and experiences: it would be present rather as Ideal-Form in Matter.

Let us then suppose Soul to be in body as Ideal-Form in Matter. Now if- the first possibility- the Soul is an essence, a self-existent, it can be present only as separable form and will therefore all the more decidedly be the Using-Principle [and therefore unaffected].

Suppose, next, the Soul to be present like axe-form on iron: here, no doubt, the form is all important but it is still the axe, the complement of iron and form, that effects whatever is effected by the iron thus modified: on this analogy, therefore, we are even more strictly compelled to assign all the experiences of the combination to the body: their natural seat is the material member, the instrument, the potential recipient of life.

Compare the passage where we read [8] that «it is absurd to suppose that the Soul weaves»; equally absurd to think of it as desiring, grieving. All this is rather in the province of something which we may call the Animate.


Ver online : ENÉADAS I-II (Gredos)


[1En IV, 1-12, Plotino estudia el primer modo de unión: «mezclada» en el sentido de «fusionada», que es el único tipo de mezcla propiamente dicha, y lo rechaza reduciéndolo al absurdo.

[2Reminiscencia de Aristóteles, De gen. et corr. I 7, 323 b 26.

[3Pero no en el sentido estoico de la compenetración física total, sino en el de la unión inconfusa de Amonio (cf. Introd. gen., secc. 3).

[4Con el ejemplo del hacha, expresa aristóteles la unión hilomórfica del alma con el cuerpo (Acerca del alma II 1, 412 b 11-15).

[5Cita de Aristóteles (ibid., 412 a 27-28).

[6Ibid. 408 b 12-13.

[7Es decir, es, más bien, el animal el que apetece y se apena. Esto nos lleva a la hipótesis 3.a, tema del capítulo 5.

[8«We read» translates «he says» of the text, and always indicates a reference to Plato, whose name does not appear in the translation except where it was written by Plotinus. S.M.