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Reagregando o Social

Latour (RS:349) – sabemos tão pouco assim?

quarta-feira 27 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

LATOUR  , Bruno. Reagregando o Social. Uma introdução à teoria do Ator-Rede. Tradução de Gilson César Cardoso de Sousa. Salvador: EDUFBA, 2012, p. 349

Para interpretar um comportamento, temos de acrescentar alguma coisa, mas isso não significa que precisemos encontrar um quadro de referência social. Sem dúvida, os sociólogos estavam certos ao buscar um “lá fora”, exceto pelo fato deste não lembrar em nada aquilo que esperavam, pois é totalmente destituído de habitantes sociais calibrados. Tinham razão em procurar “algo oculto por trás” - que nem está atrás nem escondido. Está no meio e não é feito de material social. Não está escondido, é apenas desconhecido. Parece um vasto interior que fornece recursos para o cumprimento de uma ação, assim como o campo fornece recursos para os moradores da cidade e as massas perdidas abastecem o cosmólogo empenhado em avaliar o peso do universo.

Para interpretar um comportamento, temos, sem dúvida, de estar preparados para diferentes versões, o que não significa, porém, a volta às interações locais. Em muitas passagens deste livro critiquei os fenomenologistas, e talvez também os humanistas, por acreditarem que interações diretas, agentes individuais e pessoas determinadas forneciam um locus mais realista e dinâmico do que as vãs abstrações da sociedade, como eles dizem. Embora estivessem certos ao insistir nas incertezas, confundiram suas fontes. Não é que humanos determinados, pessoas com intenções e almas individuais sejam os únicos agentes interpretativos num mundo de coisas concretas, em si mesmo destituído de significado. O que se entende por interpretações, flexibilidade e fluidez é simplesmente uma maneira de registrar o vasto exterior a que todo curso de ação tem de recorrer para ser realizado. Isso é verdadeiro tanto para ações humanas quanto para qualquer outra atividade. A hermenêutica não é privilégio dos humanos, mas, por assim dizer, uma propriedade do próprio mundo. O mundo não se parece com um continente sólido de fatos pontilhado por algumas lagoas de incertezas; é um vasto oceano de incertezas pintalgado de ilhotas de formas calibradas e estabilizadas.

Sabemos tão pouco assim? Menos ainda. Paradoxalmente, essa ignorância “astronômica” explica muita coisa. Por que exércitos temíveis desaparecem em questão de semanas? Por que impérios formidáveis como o soviético desabam em poucos meses? Por que empresas multinacionais vão à falência depois do quarto balancete? Por que essas mesmas empresas, em menos de dois semestres, saem do vermelho com um lucro espetacular? Por que cidadãos pacatos se transformam em massas revolucionárias, ou multidões agressivas de repente começam a festejar como cidadãos livres? Por que um indivíduo preguiçoso parte de súbito para a ação, ao receber uma notícia qualquer? Por que um músico acadêmico cede inesperadamente à tentação dos ritmos agitados? Generais, editores, administradores, observadores e moralistas costumara dizer que essas mudanças repentinas apresentam uma espécie de qualidade líquida impalpável. Pois essa é justamente a etimologia de “plasma”. [1] Não quer dizer que a sólida arquitetura da sociedade esteja desabando, que o Grande Leviatã tenha pés de barro, mas que Leviatã e sociedade circulam por canais tão estreitos que, para serem ativados, precisam confiar num número desconhecido de ingredientes oriundos do plasma à sua volta. Até agora enfatizei a continuidade, obtida por meio de conexões rastreáveís que têm de ser examinadas à luz de uma quantidade bem maior de descontinuidades. Ou, em outras palavras, precisamos de uma sociologia cujas intuições contraditórias sejam mantidas: dura e macia ao mesmo tempo. Precisamos levar em conta tanto a formidável inércia das estruturas sociais quanto a incrível fluidez que preserva sua existência: esta é o meio real que permite àquelas circular.


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[1Ver o índice em Cassin, L’Effet Sophistique.