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A Vida de Laboratório

Latour (VL:12-14) – Uma "tribo" científica sob o olhar do etnólogo

A produção dos fatos científicos

quarta-feira 27 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

LATOUR  , Bruno & WOOLGAR, Steve. A Vida de Laboratório. A produção dos fatos científicos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997, p. 12-14

Filósofo, ao prestar meu serviço nacional em regime de cooperação, tive a sorte de encontrar os antropólogos do ORSTOM na Costa do Marfim. Como era formado pelo método deles, pediram-me para explicar por que as sociedades francesas tinham tanta dificuldade em encontrar profissionais costa-marfinenses competentes para substituir os expatriados (Latour  , 1973). Várias respostas “cognitivas” ofereciam-se para responder a essa questão. Falavam-me da mentalidade africana, da alma negra e de psicologia. A pesquisa entretanto levava-me a descobrir, sem a menor dificuldade, dezenas de fatores sociais bem explícitos. A dimensão cognitiva tinha ombros largos. Ao ler a literatura dos antropólogos e ao falar com eles, percebi seu cientificismo. Eles estudavam outras culturas e outras práticas com um respeito meticuloso, mas com um fundo de ciência. Perguntei-me então o que dizer do discurso científico se ele fosse estudado com o cuidado que os etnógrafos têm quando estudam as culturas, as sociedades e os discursos pré, para [13] ou extracientíficos. A “dimensão cognitiva” não estaria, aí também, amplamente exagerada? E o que dizer dos antropólogos de gabinete que jamais estiveram no campo? Agraciado com uma bolsa da Fundação Fulbright, escolhi um laboratório da Califórnia, dirigido por um pesquisador de origem francesa, da Borgonha como eu. O laboratório, rico e célebre, fornecia um excelente contraste com os funcionários costa-marfinenses que eu acabara de estudar.

Cheguei ao Instituto Salk. Vi apenas casamatas de concreto. “Parece que estamos em um filme de ficção científica”, diziam com frequência os visitantes. Na esplanada de mármore vazia, desenhada pelo arquiteto Khan, encontrei-me diante de uma mistura de templo grego e mausoléu. Apresentado a Jonas Salk, vi-me diante de um sábio. Disseram-me que para todos os norte-americanos médios este sábio, o homem da vacina contra a poliomielite, é a própria imagem do saber - como Pasteur, o homem da raiva, na França. [...]

[...]

Guiam-me até o subsolo. Por trás das divisórias de vidro, posso ler, em letras douradas, Laboratories for Neuroendocrinology. É aí que vou passar dois anos. Este é o meu campo. Apresentam-me a Wylie [14] Vale, um sulista, a estrela ascendente do grupo, comentam. Depois, a um pequeno homem ruivo, redondo como um anão da Branca de Neve, Roger Burgus, um dos químicos do grupo. Dizem que este notável químico é um has been que quer abandonar a química para predicar em uma escola fundamentalista. Depois apresentam-me a uma suíça, Catherine Rivier, depois a Nick Ling, um químico chinês. Outro suíço, Jean Rivier, recebe-me de braços abertos e, em seguida, me introduz aos livros de contabilidade do grupo: cálculos de crédito, quem deve quanto a quem; quem é o melhor; quem é o mais citado; quem roubou a ideia de quem; quanto custará a próxima experiência. Achei que estava na Bolsa.

[...] Um garotão entrou na sala. Era Marvin Brown, um médico. A conversa generalizou-se. Falou-se de investimentos, de lucros, de espaços, de bolsas, de subvenções, de vantagens comparativas. Percebi que estava lidando com jovens executivos dinâmicos. Falou-se de estratégia, de formas de auxílio, de pontos de passagem obrigatórios, de investir em lugares, de ordenar ideias, de arruinar reputações, de liquidar adversários, de guerrilhas. Achei que tinha aterrissado no meio de uma reunião de Estado-maior. Falou-se de controle, de vigilância, de teste, de contaminação, de traição, de inteligência com relação ao inimigo. Achei que estava tratando com algum dispositivo policial. Falaram de viradas radicais, de revoluções, de transformações rápidas, de minas e de explosão. Achei que estava em meio a conspiradores.

[...]

Em um breve paper anunciei-lhes corajosamente que, voltando da África, eu iria agora estudá-los como se eles fossem uma tribo exótica.


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