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A Técnica e o Desafio do Século [TDS]

Ellul (TDS:10-12) – operação técnica e fenômeno técnico

Capítulo I — Técnicas – 1. Situações

domingo 24 de outubro de 2021

ELLUL  , Jacques. A Técnica e o Desafio do Século. Tr. Roland Corbisier  . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968, p.

Com os pontos de referência que acabamos de estabelecer, é possível procurar, senão uma definição, ao menos uma aproximação da técnica. Mas, evitemos uma confusão: não se trata aqui, a rigor, das diferenças técnicas. Cada um, em sua profissão, exerce uma técnica, e é a dificuldade de conhecer? essas diversas técnicas que mencionávamos no início.

Mas desses diferentes ramos é possível reter alguns pontos comuns, certas tendências, certos princípios, idênticos em toda parte?. É inconveniente chamar esse? elemento? comum de Técnica com T maiúsculo, pois ninguém encontrará sua técnica nesse esqueleto. Tal elemento, no entanto, envolve uma realidade? que é o fenômeno técnico, hoje universal?.

Se admitirmos que, em todas as nossas atividades?, a técnica particular? de cada um é o método empregado para atingir um resultado, seremos levados, evidentemente, a propor o problema? dos meios. E, de fato?, a técnica nada? mais é do que meio? e conjunto de meios. Isso, porém, não diminui a importância do problema, pois nossa civilização é antes de mais nada uma civilização de meios e tudo leva a crer que, na realidade da vida? moderna, os meios sejam mais importantes do que os fins. Qualquer outra concepção não passa de idealismo?.

Consideradas como método, no entanto, as técnicas apresentam características comuns, orientações que não devem ser consideradas exclusivamente, mas que servem de ponto? de partida a um estudo? mais especializado. O fenômeno técnico, é verdade?, é mais complexo? do que essa espécie de síntese dos caracteres? comuns às diversas técnicas.

Se quisermos chegar mais perto de uma definição da técnica, deveremos, com efeito?, separar a operação técnica e o fenômeno técnico.

A operação técnica engloba todo trabalho? feito com certo método tendo em vista atingir um resultado. O que pode ser tão elementar quanto o trabalho de explosão dos sílex e tão complexo quanto o acabamento de um cérebro eletrônico.

De qualquer modo?, é o método que caracteriza esse trabalho. Pode ser mais ou menos eficaz, mais ou menos complexo, não há diferença de natureza?: o que leva frequentemente a acreditar que há uma espécie de continuidade no trabalho técnico e que é apenas um maior refinamento devido ao progresso? científico que diferencia a operação técnica moderna da primitiva. Todo trabalho comporta, evidentemente, certa técnica, mesmo a colheita dos frutos entre os não-civilizados: técnica para subir na árvore, para colher o mais depressa possível e com o menor cansaço, para reconhecer os frutos maduros, etc. . . Todavia, o que caracteriza a ação técnica no trabalho é a procura da maior eficácia: substitui-se o esforço inteiramente natural? e espontâneo por uma combinação de atos destinados a melhorar o rendimento, por exemplo?. É o que provoca a criação de formas? técnicas a partir de formas simples? de atividade; as formas técnicas, aliás, não são forçosamente mais complicadas do que as outras, são, no entanto, mais eficazes, mais adaptadas.

Assim, nesse momento?, a técnica cria meios, mas a operação técnica se faz ao nível mesmo daquele que realiza o trabalho. O operário qualificado permanece, como o caçador primitivo?, um operador técnico, e é verdade que sua atitude? varia muito pouco.

No campo? muito amplo da operação técnica, assistimos a uma dupla intervenção: à da consciência e à da razão, e essa dupla intervenção produz o que chamamos de fenômeno, técnico.

Em que se caracteriza essa dupla intervenção? Essencialmente? em fazer passar para o domínio das ideias? claras, voluntárias e raciocinadas, o que era do domínio experimental?, inconsciente? e espontâneo.

Quando Leroi-Gourhan   apresenta-nos o perfil das armas zulus e desenha o quadro da eficácia balística dos sabres e das flechas, levando em conta conhecimentos físicos atuais, realiza um trabalho diferente, sem sombra de dúvida do trabalho do ferreiro de Bechuana-Land quando cria a forma de determinado sabre; a escolha? da forma será perfeitamente inconsciente e poderá ser justificada pelo cálculo, este, porém, não interfere na própria operação técnica. A intervenção da razão é indispensável, pois espontaneamente o homem?, em sua atividade, imitará a natureza. Já se observou, no entanto, há muito tempo?, que as realizações que se limitam a copiar a natureza não têm futuro? (a asa do pássaro reproduzida desde Ícaro até Ader). A razão leva a realizar um objeto? em função de certos traços característicos, de certos dados? abstratos: o que conduz, fora da imitação da natureza, por um caminho que é justamente o da técnica.

A intervenção da razão na operação técnica leva às seguintes consequências: de um lado, surge a convicção de que outros meios podem ser encontrados, a razão sacode as tradições pragmatistas e cria novos métodos de trabalho, novos utensílios, examina racionalmente as possibilidades de uma experimentação mais extensa, mais móvel. A razão multiplica, por consequência, as operações técnicas com uma grande diversificação, mas opera também em sentido? inverso: a razão mede os resultados, leva em conta esse fim? preciso da técnica que é a eficácia. Registra o que cada meio inventado é capaz de fornecer, e, entre os meios que põe à disposição da operação técnica, faz uma escolha, opera uma discriminação para reter o meio mais eficaz, mais adaptado ao fim procurado, o que permitirá reduzir os meios a um só: o que é efetivamente mais eficaz. Esse é o aspecto? mais nítido da razão em seu aspecto técnico.

Além disso, no entanto, intervém a tomada de consciência. Esta faz aparecer? claramente aos olhos de todos os homens as vantagens da técnica e o que graças a ela se pôde fazer em determinado domínio. Toma-se consciência de possibilidades. O que tem imediatamente por corolário a tendência a aplicar os métodos e a abrir o mesmo campo de ação em domínios nos quais o trabalho está ainda entregue ao acaso?, ao pragmatismo? e ao instinto?. A tomada de consciência produz, portanto, uma rápida e quase universal extensão da técnica.

Vemos, pois, que essa dupla intervenção no mundo? técnico, que produz o fenômeno técnico, pode resumir-se na "procura do melhor meio em todos os domínios". É esse "best one way" que é, a rigor, o meio técnico e é o acúmulo desses meios que produz uma civilização técnica.

Consiste, pois, o fenômeno técnico na preocupação da imensa maioria dos homens de nosso tempo em procurar em todas as coisas? o método absolutamente mais eficaz. Pois, atualmente, estamos chegando ao extremo? nos dois sentidos. Hoje, não é mais o meio relativamente melhor que conta, quer dizer comparado a outros meios igualmente em ação. A escolha é cada vez menos tarefa? pessoal entre vários meios aplicados. Trata-se na realidade de encontrar o meio superior? em sentido absoluto?, quer dizer fundando-se no cálculo, a maior parte das vezes.

E quem faz a escolha do meio é o especialista que fez o cálculo demonstrativo de sua superioridade. Existe, pois, toda uma ciência dos meios, uma ciência das técnicas, que se elabora progressivamente.

Essa ciência estende-se a domínios os mais diversos, desde o barbear-se até a organização do desembarque na Normandia e a cremação de milhares de deportados. Não há mais atividade humana que doravante escape a esse imperativo? técnico. Há uma técnica da organização (verifica-se assim que o grande acontecimento? assinalado por A. Toynbee   integra-se nessa concepção do fenômeno técnico) exatamente como há uma técnica da amizade? ou uma técnica da natação. Nessas condições, percebe-se que estamos muito longe da confusão entre? a técnica e a máquina; e, se quisermos considerar os grandes setores de aplicação dessa pesquisa? dos meios, encontraremos, após a muito evidente técnica mecânica (da qual não falaremos porque já chamou por demais a atenção e porque é por demais conhecida), e todas as formas de técnicas intelectuais? (fichários, bibliotecas, etc.), três grandes setores de ação da técnica moderna.

A técnica econômica, cuja amplitude totalmente subordinada à produção vai desde a organização do trabalho até a planificação. Essa técnica é distinta das outras em virtude? de seu objeto e de seu fim sem que, seus problemas, obviamente, sejam os mesmos que os de todas as outras atividades.

A técnica da organização, que concerne às grandes massas, aplica-se tanto aos grandes negócios comerciais ou industriais (relacionando-se portanto com o domínio econômico) quanto aos Estados e à vida administrativa ou policial. E não é só, essa técnica de organização acha-se aplicada na guerra?, assegurando atualmente o poderio de um exército tanto quanto suas armas. Hoje em dia, tudo o que faz parte do domínio jurídico é tributário da técnica de organização.

O terceiro domínio é o da técnica do homem, cujas formas são muito diversas, desde a medicina, a genética, até a propaganda, passando pelas técnicas pedagógicas, a orientação profissional, a publicidade?, etc. Aqui, o próprio homem é o objeto da técnica.

Verificamos assim que, em cada um desses domínios, as técnicas empregadas são diversas e não são necessariamente semelhantes umas às outras enquanto técnicas, embora tenham um mesmo fim, uma mesma preocupação e, consequentemente, sejam bem relativas umas às outras. Esses três domínios mostram-nos a extensão do fenômeno técnico.

Praticamente, nada há, hoje em dia, que dele escape. Nada mais há que não seja técnico. Essa verificação, fácil de fazer, não provocar?á surpresa, pois estamos tão acostumados às máquinas que não nos parece que estejamos fazendo aqui descoberta? alguma.

Na realidade esse fato não tem importância alguma, é apenas a marcha do tempo, ou, ao contrário, há um problema específico do nosso tempo? É a esse problema que nos levará esta biologia? da técnica. É preciso, porém, inicialmente, percorrer, nas formas mais concretas possíveis, essa imensidade que é englobada pelo fenômeno técnico. É preciso tomar consciência do que significa. De que é o sinal??


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