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Introdução à fenomenologia existencial

Luijpen (IFE:33-37) – materialismo

Capítulo 1 O homem como existência

domingo 24 de outubro de 2021

LUIJPEN  , Wilhelmus Antonius Maria. Introdução à fenomenologia existencial. Tr. Carlos Lopes de Mattos. São Paulo: EDUSP, 1973, p. 33-37

 Materialismo?

Todos os sistemas? materialistas concordam em considerar o homem? como o resultado de forças e processos? cósmicos, do mesmo modo? que as coisas?. Um materialista há de dizer, portanto, que o ser do homem será chamado? ser-no-mundo? no sentido? de que, como todas as coisas, é algo no meio? das outras coisas mundanas, um fragmento da “natureza?”, um momento? na infinita evolução? do cosmos. [1]

Essa ideia? não é tão tola que possa ser deixada de lado como se não significasse nada?. Exprime uma noção? valiosa, dando conta de uma realidade? que nunca se deveria negligenciar e levando a sério o fato? irrefutável de que o homem só é o que é “devido à materialidade”. [2] Desde que não queira menosprezar o significado? da matéria?, todo filósofo? deve ter? sentido a tentação de convir com o materialismo. Porque medeia uma distância muito pequena entre a ideia de que o homem é o que é devido à matéria, [3] e a convicção? de que o homem não passa de um fragmento da matéria ou uma fase transitória da infinita evolução do cosmos. [4] De fato, não existe conhecimento? espiritual sem objetos? sensivelmente perceptíveis, sem cérebro, sem processos fisiológicos, sem imagens? sensoriais ou sem palavras?. Não há amor? espiritual sem amor sensível?, consciência? pessoal sem infra-estruturas biológicas, ato? artístico? sem expressão? na matéria. Assim é possível? falar?, p. ex., como biólogo, sobre o conhecimento, o amor ou a consciência, e o que o biólogo diz sobre isso tem relação? com a realidade.

O exemplo? mostra claramente como certo modo de pensar? pode ser materialista, sem que o pensador afirme jamais de maneira explícita que o homem é uma coisa. O materialismo será frequentemente camuflado. Apresenta-se o mais das vezes como cientismo?, como supervalorização das “ciências?”, máxime das naturais, que se ocupam ex professo com as coisas, empregando categorias? e modelos só a elas relativos?. O exercício das ciências torna-se cientismo quando se afirma que não há outras realidades senão as descobertas pelas ciências naturais. Justamente porque o homem só é o que é com base na materialidade é que as ciências podem também dizer algo sobre o homem. Assim, p. ex., será possível, em princípio?, achar a diferença? fisiológica entre um santo? e um malfeitor, e criar, no último?, por meio de uma operação?, as condições materiais para a virtude?. Em princípio, não há inconveniente em afirmar-se que existe uma diferença material entre uma consciência cristã e uma maometana. Muitos alcoólatras e prostitutas não são, em primeiro lugar? — ou mesmo nunca o são — “transgressores da lei? de Deus?”, mas gente com defeitos corporais, incompleta, que não deveria ser castigada e sim operada.

Ao compreender? tal coisa, verifica-se também quão grande deve ser a tentação de afirmar que as ciências podem exprimir de modo total qualquer realidade. Desde que o homem só é tudo o que ele é por causa? da materialidade, nada há no homem sobre que as ciências não possam falar. Por que, pois, não dar o passo fatal, asseverando que, uma vez que o cientista se pronunciou, não há mais nada a dizer ? O filósofo precisa conhecer essa sedução a fim? de não minimizar a força? e o significado do materialismo. O passo fatal, porém, traz consigo a degenerescência das ciências, transformadas em cientismo, teoria? materialista: fora das coisas materiais, de que tratam as ciências da natureza, não há nada digno de ser mencionado.

 O materialismo como “destotalização da realidade”

A tentativa do materialismo de exprimir a realidade do ser do homem malogra, porque aduz só um aspecto? da totalidade? do ser humano, embora essencial?. É, conforme uma expressão de Le Senne, uma espécie? de “destotalização da realidade”. O materialismo redunda num monismo? para o qual na totalidade só existe um tipo? de ser, a saber?, o das coisas materiais. Até o homem é uma coisa e sua vida? um encadeamento de processos.

Em que consiste expressamente essa “destotalização”? Em termos gerais, pode defender-se a tese? de que uma filosofia? não fracassa tanto pelo que afirma, como pelo que silencia ou elimina da realidade. Isso se aplica muito bem ao materialismo. O meterialista não enxerga que o homem existe para si mesmo como homem, ou seja, que o ser-homem tem alcance e sentido para si, enquanto as coisas têm alcance e sentido para o homem e não para si mesmas ou para outras coisas. Se existissem apenas coisas, nada teria sentido. O materialismo esquece que só com o homem e por ele se pode falar de coisas e processos.

Que significa então que haja a “fala?” sobre coisas ? Significa que se “diz” das coisas que existem e o que são. Mas como isso se torna possível ? Que vem a ser o “dizer” — é original que se supõe chegar à fala pelo que se exprime ? Respondemos que é o homem que fala as coisas a si mesmo. Por mais que o homem seja “coisificado”, jamais será possível deixar de pensar a “dimensão?” pela qual lhe é possível falar as coisas e a si mesmo. Essa “dimensão”, contudo, não é a “coisificação?” do homem, pelo menos se tivermos de aceitar, com todos os materialistas, que as camadas geológicas e as rajadas de chuva não falam nada. O homem distingue-se da coisa por sua capacidade? de “falar”, por seu “dizer” — é. Eis pelo que o homem transcende a “coisificação” em seu ser e eis o que todos os não-materialistas chamam subjetividade?.

O materialista, por conseguinte, nega simplesmente a subjetividade do homem. [5] O ser do homem na altura de seu ser-homem é um ser-consciente?, pelo qual o homem existe para si [6] e pode dar-se um nome?. O homem chama a si mesmo eu?. Pela “luz?” da subjetividade, do eu consciente que é o homem, existe para si e é “luz” no mundo das coisas, de modo a surgirem estas com sentido aos olhos do homem, ser-para-o homem, discutidas por ele.

Logo, o materialismo desconhece um momento essencial do ser-homem, uma vez que, afinal de contas, ignora que o ser humano é um ser-consciente. O materialista não pode defender-se dessa acusação dizendo que, como todos os processos relativos às coisas materiais, os atos conscientes do homem também podem ser reduzidos a um jogo? de átomos e moléculas. Porque então ainda precisaria admitir que há alguns “átomos” que se distinguem dos outros pelo fato de existirem para si mesmos como átomos e de existirem os outros como átomos para eles, bem como por poderem eles filosofar sobre si mesmos e sobre os outros átomos ou elaborar uma teoria atômica. A esses “átomos” chamamos homens. Reduzindo-se o homem a um conglomerado de átomos, elimina-se o “dizer” — é das ciências naturais e a possibilidade? de formular? uma teoria atômica.

O materialismo vive, portanto, de uma contradição? oculta, [7] por ser totalmente impossível? ao materialista, como filósofo materialista, explicar? seu próprio? ser, desde que continue aferrado à ideia de existir? um só tipo de ser, a saber, o das coisas. A contradição consiste em que, de um lado, o filósofo materialista admite que as camadas geológicas, as chuvaradas, as plantas e os bichos não são capazes de criar uma filosofia, ainda que materialista, enquanto que, de outro? lado, quer explicar, como filósofo materialista, seu próprio ser, recorrendo às mesmas categorias pelas quais exprime o ser das camadas geológicas, chuvaradas, plantas e animais. No materialismo encontramos não só o mundo material, mas, também, o filósofo materialista, [8] cuja existência? permanece incompreendida.

O fato de terem as coisas e os processos um sentido para o homem, como sujeito? consciente, justifica o reconhecimento? de certa prioridade? da subjetividade sobre as coisas. Quem deixa de lado o sujeito, que é o homem, abandona todo o sentido, e o termo? “ser” perde consequentemente sua importância. Porque o que poderia significar o termo “ser” sem a afirmação? de ser por um sujeito ? Que sentidos humanos e importância no mundo das coisas poderiam ainda ser aceitos como reais, se, na ausência? do sujeito, o ser só mereceria chamar-se ser-para-ninguém ? De mais a mais, só posso supor? a ausência do sujeito enquanto não faço de fato tal suposição ! Apenas a posso formular verbalmente. O sujeito é, na verdade?, incontestável, mostrando certa precedência, certo primado? em relação ao mundo das coisas.


Ver online : Existential Phenomenology


[1“Há... duas concepções clássicas. Uma consiste em tratar o homem como o resultado das influências físicas, fisiológicas e sociológicas que o determinariam de fora e fariam dele uma coisa entre as coisas”. Merleau-Ponty, M., Sens et Non-sens, Paris, 1948, p. 142.

[2A. Dondeyne, Dieu et le matérialisme contemporain, em: Essai sur Dieu, l’homme et l’univers, publié sous la direction et avec une introduction de Jacques de Bivort de la Saudée, Paris, 1957, p. 24.

[3“Nossa experiência científica ainda não nos fez conhecer nenhuma força desprovida de base material e nenhum ‘mundo espiritual’ fora e acima da natureza”. E. Haeckel, Die Welträtsel, Leipzig 1909-1910, p. 259. (Trad. port. de Jayme Filinto: Os Enigmas do Universo, Porto, Chardron, 1908).

[4“Também nós homens somos apenas estados passageiros da evolução da Substância eterna, fenômenos individuais da matéria e energia, cuja nulidade compreendemos ao ver o espaço sem limites e o tempo eterno”. E. Haeckel, ibid.

[5“Não sou o resultado ou cruzamento das múltiplas causalidades que determinam meu corpo ou meu ‘psiquismo’; não posso pensar-me como uma parte do mundo, como o simples objeto da biologia, da psicologia e da sociologia, nem fechar-me sob o universo da ciência. Tudo o que sei do mundo, ainda que pela ciência, eu o sei a partir de uma visão minha ou de uma experiência do mundo sem a qual os símbolos da ciência não significariam nada”. Merleau-Ponty, Μ., Phénoménologie de la Perception, 14.a ed., Paris, 1945, Avant-propos, p. II.

[6“Minha consciência não poderia ser em nenhum caso uma coisa, porque seu modo de ser em si é precisamente um ser para si”. J-P Sartre, L’imagination, Paris, 1948, p. 1.

[7“As concepções científicas segundo as quais sou um momento do mundo são sempre ingênuas e hipócritas, porque subentendem, sem mencioná-la, esta outra concepção, a da consciência, só pela qual um mundo se dispõe em redor de mim e começa a existir para mim”. Merleau-Ponty, Μ., Phénoménologie de la Perception, 14.a ed., Paris, 1945, Avant-propos, p. III.

[8“O materialismo, que quer reduzir todo o ser a um jogo de partículas em movimento, explicáveis apenas causalmente, não pode ser refutado por conceitos a priori. Não contém uma contradictio in terminis, mas sim uma contradictio in actu exercito, i. e., encontramos no materialismo, ao lado do sistema do mundo material, com suas leis causais, a afirmação do mundo e a prática consciente da explicação causal, e isto é um ato de consciência, que, visto em sua estrutura essencial, está acima do determinismo causal”. A. Dondeyne, Belang voor de Metaphysica van een aceurate bestaansbeschrijving van de mens ais kennend wezen, em: Kenleer en Metaphysiek (Verslag van de twaalfde algemene vergadering der Vereniging voor Thomistische Wijsbegeerte en van de derde studiedagen van het Wijsgerig Gezelschap le Leuven), Nijmegen, 1947, p. 39.