Página inicial > Modernidade > LusoSofia > Vicente Ferreira da Silva (1916-1963) > Ferreira da Silva (TM:101-105) — A nova compreensão do ser

TRANSCENDÊNCIA DO MUNDO

Ferreira da Silva (TM:101-105) — A nova compreensão do ser

Introdução à Filosofia da Mitologia

segunda-feira 11 de outubro de 2021

[FERREIRA DA SILVA  , Vicente. Transcendência do Mundo. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 101-105]

“Introdução à Filosofia da Mitologia”, Revista Brasileira de Filosofia, São Paulo, v. 5, fase. 20, out./dez. 1955, p. 554-566. A pedido do filósofo Ernesto Grassi  , este trabalho foi publicado na revista italiana Aut-Aut, em 1956, sob o título: “La Mitologia e l’Esperienza Tropica dell’Essere”.

Como encontramos diversas vezes? afirmado nos trabalhos? de Heidegger  , é necessário renunciar às incitações do ente, inclusive do ente que somos, para receber? a graça do Ser. De fato?, o ente nada? mais é do que o sugerido pela magia? projetiva do Ser. O sugerido, entretanto, se manifesta como uma sugestão, como algo em relação ao qual nós subjazemos ou estamos entregues. Entregues ao sugerido do ente, só podemos interpretar o que nos é consignado e oferecido, fato que não só se realiza na figura? presente? do ente, como também e primordialmente no que há de ser do próprio oferecido. O Ser é o Sugestor? da sugestão do sugerido. O ente viría a nós a partir da essência ek-stática da sugestão. O sugerido é o que é proposto, isto é, posto como imagem? a cumprir, ou como imagem antecipadamente esboçada. Essas imagens não seriam as nossas imagens das coisas?, imagens de imagens, mas sim as próprias coisas como imagens prototípicas. O sugerido origin?ário das imagens seriam as coisas fluindo da imaginação prototípica do Sugestor. Eis por que a sugestão não poderia provir do ente ou das coisas, desde que esse? ente já seria o sugerido pela instauração originária. O sugerido tem, entretanto, a sua fonte? no Sugestor, sendo? esse termo? apto? para designar o domínio projetante do Ser, isto é, o Aberto? da liberdade? instauradora. Frobenius afirmara ser o homem? um “receptor de realidade?”, ou ainda, um receptor de desempenhos possíveis. No fundo, o receptor e o recepcionado seriam uma só coisa?, desde o momento? em que compreendêssemos universalmente o ente como algo consignado por um poder transcendente? e esse poder, por sua vez, como uma Lichtung des Seins. Não existir?ía, portanto, em primeiro? lugar o homem como receptor e depois as diversas incitações aos “jogos” histórico-culturais?. Pelo contrário, os desempenhos sugeridos, o ente revelado, constituem o próprio ser do protagonista, de forma? que o jogar? do jogo seria o próprio jogador. O jogo, porém, é o que sugestiona e fascina. Eis por que poderemos compreender? a vigência do ente como Fascinação.

Essa conexão de ideias? deve levantar-nos a uma nova experiência do Ser, infensa a qualquer transcrição intelectualista, ou [101] que diga respeito? ao conhecimento? enquanto tal. Se uma aproximação do Ser só nos é facultada por um ultrapassar o oferecido do ente, e, portanto, por uma experiência do aberto do Ser, não devemos pensar? esse domínio do aberto como uma simples? vacuidade inerte ou como um não ser desválido e anódino. O Ser não é unicamente o prodigalizador de essências, mas sim e inicialmente o suscitador de paixões, a Fonte trópica de todos os comportamentos. Heidegger   já ensinara que a ex-posição ao ente é sempre acompanhada de uma sintonização emocional? com a totalidade? do ente descoberto. O traçar? do ente se manifestaria como a irrupção de um campo? emocional e não como um simples desenhar de essências visualizáveis ou como um mundo? de representações. Existiría mesmo? uma precedência da Befindlichkeit?, do encontrar-se? afetivo? no interior? do ente, em relação ao prospecionar-se projetivo do ente. O desvelamento iluminante do ente se daria, portanto, como um stimmend Seinlassen von Seienden [1], como franquia emocional do ente descoberto. Entretanto, falar? do Ser como força iluminante nos remete a um setor de metáforas de ordem? visual e intelectual?ística, propenso a transviar?-nos na compreensão da originalidade? da experiência do Ser. Devemos ter? em mente?, na nossa meditação, a relação da dimensão da liberdade fundante com o sentido? pulsional da realidade.

O ente determinado como o sugerido em possibilidades manifesta-se, outrossim, como Fascinação, isto é, como o ser-tomado (Ergriffensein) pelo revelado enquanto revelado. A fascinação é o próprio rigor de uma projeção do mundo. A Fascinação é a essência última do ente, compreendido como realidade des-coberta pela Fascinação. A experiência do Ser dar-se-ia no adentrar-se, no intimizar-se com a força trópica da fascinatio. Poderíamos esclarecer esses mesmos fenômenos abordando-os por um ângulo mais ilustrativo. Para nós, o documento originário do Ser manifesta-se na vida? prototípico-divina, isto é, na Mitologia?. Se para Heidegger   o “pôr-se em obra?” da verdade? do Ser dá-se na Poesia?, para nós, essa deve ser, antes de tudo, compreendida como Poesia [102] transumana, como Poesia em si, como vida transcendente das potências divinas. Os Deuses encarnaram de maneira insuperável a fulguração imediata do Fascinator, os Deuses são essa fulguração imediata do Fascinator, os Deuses são essa fulguração mesma, enquanto vida produtiva? em si e por si. Se meditarmos, por outro lado, na atuação dos Deuses no cenário da História, no contragolpe do seu debruçar-se sobre as coisas, verificaremos que a presença de um Deus? manifesta-se sempre e essencialmente? como Fascinação e através de um despertar de um mundo de paixões. A Teologia? cristã acostumou-nos a considerar unicamente Satanás como o Tentador, não tendo em vista? que o seu polo oposto divino? também se manifestava à sensibilidade? cristã como tentação e atração amorosa?, como Fascinação. A diacosmese? de um Deus é a área revelada pelos eros? divino, é o que se prospeciona e delineia por força dessa teofania?.

É a partir de uma experiência do divino que devemos alçar-nos a uma experiência idônea do Ser. Seguindo as insinuações dessa experiência veremos, em primeira linha, que o fundo oculto? da realidade não é uma substância inerte ou indiferente?, ou uma Ideia?, mas sim uma inexaurível Fonte de Atrações, uma instância mágico-transcendente que suscita o soerguer-se do ente enquanto configuração fascinada. O Ser é o Sugestor, o Fascinator, aquilo cuja manifestação ou fulguração se dá como polo pulsional erótico e que traça ou des-vela as coisas ao fasciná-las. Eis por que Heidegger   relaciona a proximidade? do Ser com a experiência do estranho, do espantoso (Ungeheure), desde que essa experiência nos remete ao Poder selvagem e incalculável que comanda a instrução dos mundos. A compreensão do Ser, como essência fundante, acompanha a experiência desse mesmo Ser, como propensão abismal além do já fundado, como luta de princípios na sequência do divino. O apelo do sagrado? faz-nos romper com as possibilidades dadas, com o ente assegurado, através do vir a nós de novas possibilidades e do sortilégio de uma singular? epifania. Inicialmente, entretanto, esse chamado? se manifesta unicamente como inquietação do espírito?, como vertigem do [103] abismo? que ainda não irrompeu num novo meio?-dia do sagrado. O “ser fascinado” além do já dado? é a experiência da experiência da essência trópico-fascinante do Ser. O domínio do Ser é um Poder Passional?, um foco de propensões e de parcialidades, e não um domínio isento e equilibrado. Eis por que a experiência do Ser é uma experiência de arrebatamento? e de sugestão.

Se para caracterizarmos a atuação essencial do Ser falávamos de uma destinação do Ser (Schickung des Seins) de uma consignação de possibilidades, devemos ter em mente que isso implica um ater-se ao consignado, um ser tomado pelo ente oferecido. Entretanto, esse abandonar-se e subsumir?-se ao oferecido, a ponto? de que o receptor é o próprio oferecido, constitui a essência da Fascinação. Se a consistência última do Ser se esgota no iluminar projetivo, de forma a se resolver, em última instância, num poder consignante inexaurível, então podemos identificar a área do Ser com um puro? foco fascinante. A realidade do Ser traduz-se nesse poder mágico-poético, nessa fascinação omnimoda. Além do já conseguido, manifesta-se o Poder consignante transcendente, além do oferecido manifesta-se o Oferecer do ainda não oferecido, além do fascinado se insinua o Poder mágico-encantatório do Ser. O Ser é um baixar da balança, um princípio faccioso, tendencioso, um contínuo “escolher?” instaurador. Assim como se manifesta na figura singular dos deuses? essa ameaça arrebatadora, esse rapto? instituidor do ente, assim também, e por antonomásia, a dimensão do Ser se manifesta como a dimensão trópica por excelência. É ela o reino? do tendencioso, não pelo fato de preferir isso àquilo, desde que não existe ainda o isso ou o aquilo no reino ek-stático do Ser, mas por projetar? facciosamente as tendências e as formas pulsionais do cenário do mundo. E como no sugerir do Sugestor se esgota a alma? do Ser, é-nos lícito caracterizá-lo como domínio tendencioso e ameaçador. O que é ameaçado do Ser é o ente em sua totalidade, é o direito? adquirido? do já consignado do ente. O permanecer no já instituído e fundado constitui o puro errar no não fundamento?. É o errar que in-siste em si mesmo e que se quer proteger contra o abismar-se [104] no Abismo fundante. De nada vale ao esquecimento?, entretanto, empunhar o esquecimento contra a memorização do memorável do Ser, desde que a essência nadificante do Ser rói, em suas bases, o edifício do esquecimento. Essa atuação nadificante do Ser ou Fascinator é, em sua essência, o próprio pensamento? do Ser, como ir além de todo o ente. Esse novo pensar pensa o Fascinator e é o próprio Fascinator, como ruptura? mágica do esquecimento.


Ver online : VICENTE FERREIRA DA SILVA - TRANSCENDÊNCIA DO MUNDO


[1(Um) Afinado permitir do ente. (N. O.)

3 visiteurs en ce moment