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TRANSCENDÊNCIA DO MUNDO

Ferreira da Silva (TM:223-225) – origem do mundo

Sobre a origem e o fim do mundo

domingo 10 de outubro de 2021

[FERREIRA DA SILVA  , Vicente. Transcendência do Mundo. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 223-225]

“Sobre a Origem e o Fim do Mundo”, Jornal de Letras, Rio de Janeiro, abr. 1950.

Continuando o estudo? da origem? do mundo?, na linha dessas nossas reflexões, vejamos se é possível pensar? essa origem como uma criação de coisas?. Só podemos falar? em coisas como de realidades intramundanas, isto é, como seres que se destacam numa prévia presença mundanal. A esse? respeito?, diz Heidegger  : “O mundo não é simples? conjunto das coisas numeráveis e inumeráveis, conhecidas e desconhecidas. Welt weitet (o mundo [223] mundifica) e é mais existente do que as coisas tangíveis e perceptíveis, entre as quais nos julgamos em segurança”. O problema? da criação do mundo deve ser elaborado em função dessas novas concepções que mudam completamente a fisionomia da problemática mesma. A criação do mundo é o resultado de um projeto? de possibilidades, de um ato? poético, no sentido? mais amplo da palavra?, que descobre, descerra e instaura uma visão das coisas. Temos, portanto, acesso ao mundo, mediante um gesto de transcendência que estabelece um regime? de inteligibilidade?, uma compreensão articulada dos seres intramundanos. Essa doação de sentido às coisas não é uma tarefa? do intelecto? discursivo?, mas sim uma façanha da exuberância imaginativa, da fantasia? criadora que povoa a realidade? de um sem-número de personagens e de significados. Uma interpretação defeituosa dessa teoria? podería levar-nos a supor? que o mito? seria uma criação arbitrária e caprichosa do homem?, quando na realidade, o homem é que é uma criação do mito. Mais do que isso: o homem só tem acesso às suas possibilidades, só cobra consciência de si mesmo, mediante a experiência poético-religiosa. Na sugestiva imagem? de Heidegger  , o homem grego? não preexistiu, na plenitude de sua realidade, ao tempo? de seus deuses, mas foi a presença do templo? que tornou o grego, grego.

Dessas considerações decorre o que entendemos por origem do mundo, e qual o conceito? que formamos da relação do homem com o polo inicial. O começo se propõe, portanto, como aurora de um sentimento? do divino e do humano, como o desabrochar gradativo das anteposições axiológicas máximas, como o despertar de uma experiência inédita da vida?. Esse começo, apesar de? acontecer no tempo, retroage sobre o seu momento? particular?, alargando a perspectiva? para um passado ainda mais remoto. Esse começo se apresenta como contendo em si um passado. Os deuses olímpicos gregos reportavam à linhagem teogônica das divindades ctônicas. O cristianismo? acrescentou-se ao passado dos livros de Israel. A ideia? da origem das coisas, assim compreendida, é um elemento? essencial? para a compreensão de [224] nossa realidade histórica é cultural. Nesse sentido, podemos dizer que o começo é o verdadeiro? plasmador do homem histórico e que o mito é a paideia original da humanidade?. Não podemos aceitar a tese? platônica, hostil à fundação poética da educação e contra ele vemos em Homero   o educador da Grécia.

Com o começo, entendido não como um ponto? espaço-temporal?, mas como um complexo? de pressentimentos e de crenças, como nebulosa mítica, é proposto um destino?. Ser-para-o-começo significa abraçar? e identificar-se com os grandes modelos e exemplos de um dado? círculo de possibilidades históricas. Não devemos pensar, entretanto, que num grupo? histórico-cultural exista uma homogeneidade? absoluta em relação às normas e valores gerais nele reinantes. Podemos descobrir, na evolução do pensamento? grego, concorrentes orientalizantes que prenunciavam os futuros desenvolvimentos neoplatônicos. Nas épocas de maior unidade? cultural, essas forças heterogêneas e discordantes parecem ter?-se apagado diante da luminosidade das grandes ideias?-força. São, entretanto, esses fermentos heréticos os pontos sensíveis a partir dos quais poder-se-ão desenvolver novas sementes? culturais e históricas.


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