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TRANSCENDÊNCIA DO MUNDO

Ferreira da Silva (TM:462-465) – o nivelamento

Kierkegaard e o Problema da Subjetividade

domingo 10 de outubro de 2021

[FERREIRA DA SILVA  , Vicente. Transcendência do Mundo. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 462-465]

Kierkegaard   e o Problema da Subjetividade”, Revista Brasileira de Filosofia, São Paulo, v. 6, fasc. 21, jan./mar. 1956, p. 70-76.

A verdade? da história e a verdade individual e interior não coincidem, crescendo em direções diversas. A categoria? da história macroscópica é a categoria da quantidade?, da eficácia a todo o custo, da forma? arrebatadora, enquanto que o domínio da interioridade? subjetiva não é precedido pelos clarins da história mundial. Em resumo, o homem? subjetivo? do pensador dinamarquês não é um frequentador do teatro? da história mundi, não é [462] uma personalidade? genial, nem um grande do século, mas unicamente um grande diante de Deus?.

E assim ele se propõe a desmontar esse? cenário de papelão da história universal?, e desarticular o processo? global em proveito da pontualidade dos destinos individuais ou da verdade subjetiva. A história assim se apresenta como uma ficção criada pela mente? construtiva dos eruditos e professores, ao arrumarem o infinito? dos fatos? acontecidos numa tela fantástica e irreal?. “No processo da história mundial”, diz Kierkegaard  , “os mortos não são chamados à vida?, mas unicamente a uma vida objetiva e fantástica, e Deus se comporta num sentido? fantástico como a alma? desse processo”. No processo da história o homem aliena a sua autoconsciência existencial?, sacrifica suas possibilidades concretas e intransferíveis em tributo a um ídolo espectral e ilusório, a história. Não é aí que devemos descobrir quais as nossas tarefas existenciais próprias e qual o código ético que devemos seguir. A ética é um assunto de interioridade, e de realização personalíssima. Para o homem interior o que importa é a palavra? de Deus, é o significativo em e para Deus e não o genialismo da história mundial com sua tragicidade estética e teatral. A verdade subjetiva pregada por Kierkegaard   implica portanto num transcender a forma de exterioridade? da história e a história como tribunal do mundo?. Para o homem subjetivo, que está em relação com o Eterno, a história e o tempo? constituem uma sombra falaz da eternidade?, um estar?-fora-de-si, um não-ser. O homem kierkegaardiano vive no instante?, é um ser concreto? e existente, que não é o homem em geral?, mas sim esse homem singular?, único, concentrado em si mesmo. Mas esse homem deve conquistar-se sempre a partir da exterioridade abstrata do das Man?, do homem em geral, do homem decaído na banalidade com sua concepção própria das coisas? e da vida. O homem em geral, em nosso tempo, é o homem massa?, a plebe, o poder abstrato? da omnitude e todas as formas de nivelamento e abastardamento da verdade individual. Em seu livro Crítica da Época Presente, Kierkegaard   aduz ideias? muito afins às de Nietzsche   em relação ao fenômeno do nivelamento e [463] do ressentimento?. As forças que colimam o aplatissement universal do espírito? em níveis cada vez mais inferiores nutrem-se do ressentimento por tudo que é único e excelso. O nivelamento é, segundo Kierkegaard  , a supremacia absoluta da abstração sobre o individual, da categoria do gênero sobre a categoria do indivíduo e em geral o prestígio incontestado da ideia? de massa e igualdade? matemática. Entretanto, o nivelamento é a outra face da falta? de paixão e de caráter? do homem contemporâneo. Em um de seus livros, Kierkegaard   afirmou que o Absoluto? separa, destaca, pontualiza em consonância aliás com sua doutrina da verdade subjetiva. Pelo contrário, o predomínio desse “espantoso nada?” do nivelamento da massa, a vitória do Público, significa a não-verdade e a não-existencialidade da vida atual. Esse público e essa massa é constituída pelos homens nos momentos em que não são nada, nos instantes, dias e anos em que renegam a sua consciência de si e se põem como inermes fantasmas. A dialética existencial se desenvolve aqui como um movimento? vis-à-vis do poder abstrato do nivelamento. O existencialismo? seria o único antídoto filosófico à invasão do nivelamento e do comportamento? multitudinário. Esse comportamento não é sinal? de força, paixão e desenvolvimento?, mas sim de astenia, indolência e irresponsabilidade. O nivelamento é o crescimento do objeto?, da forma objetiva de ser, da omnitude, representa o adelgaçamento ontológico e a nulidade do homem massa. Possuído pelo fantasma? do homem objetivo?, o homem rodopia e erra cada vez mais longe de si mesmo, cada vez mais alienado a si, no rebanho devorador da multidão. O seu pensamento? é o pensamento de todos, o seu agir? é o agir de todos e assim o seu sentir. Mas esse pensar?, agir e sentir não têm qualquer verdade, é um poder abstrato, desde que toda a verdade reside na subjetividade?. Esse é o homem sem Absoluto, o homem infinitamente leve, o homem sombra, o homem nada. Ao se conquistar sobre o público, a plebe, a massa e a omnitude, a consciência volta a adquirir o Absoluto e volta a relacionar-se com Deus que é também interioridade e subjetividade em grau? infinito. Essa conquista não é uma luta fora de mim, uma luta com os outros, mas sim uma luta em mim desde que esse poder do homem objetivo se [464] aninha em cada um de nós. O transcender da subjetividade subjetivante é um ir além da forma de omnitude e da objetividade? que se expressa continuamente no meu agir e pensar. A verdade ou a subjetividade como verdade é o resultado de um salto? que nos devolve a nós mesmos, que nos devolve porque nos conduz às origens?, ou à Origem, a Deus, ao não objeto Absoluto. Esse tornar-se subjetivo é para o pensador dinamarquês uma conquista laboriosa, um devir? contínuo, porque todo o parar é um cair em poder da abstração e do objeto. A verdade subjetiva é em consequência um militar, um transcender que só existe em ato?. A área conquistada somos nós mesmos, mas nós só existimos no salto, na escolha? que nos constitui. Essa é a doutrina da verdade, segundo Kierkegaard  .


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