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Horizonte e Complementaridade

Eudoro de Sousa (HCSM:112-113) – Ideia do Bem

Ensaio sobre a relação entre mito e metafísica, nos primeiros filósofos gregos

sábado 9 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

[DE SOUSA, Eudoro. Horizonte   e Complementaridade. Sempre o mesmo acerca do mesmo. Lisboa, INCM, 2002, p. 112-113]

RESUMO DE REPÚBLICA VI, apenas de 504d a 511e

      

65. «Então é que o mais importante não era aquilo de que falávamos, a justiça e o resto, e algo há que mais importa ainda [...]. — Que é, no entanto, esse estudo que é o mais importante e qual o seu objecto, ao que te parece? [...] — É uma coisa de que não poucas vezes me ouviste falar [...], que, efectivamente, não há mais importante objecto de estudo, que não seja a Ideia do Bem [...] e agora não podes deixar de saber [...] que esta natureza não a conhecemos nós de maneira satisfatória [...]. — Contentar-nos-emos [...] com o mesmo método de que te serviste, falando da justiça, da temperança e do mais. Aplica-o, para falar do Bem [...]. — A cria do Bem, o ser que mais se lhe assemelha, consinto em falar-vos dele, se, por vossa parte, tal vos agrada; senão, ficamos por aqui. — Vamos, fala. De outra vez nos contarás a história do procriador. — Gostaria que fôssemos capazes, eu, de vos pagar tal dívida, e vós, de reavê-la, em lugar de nos contentarmos [...] apenas com o juro [...]. — Ficaremos em guarda   [...] tanto quanto pudermos. Vamos, agora fala! — Sim, falarei, mas depois de alcançarmos um acordo   e de apelar para as vossas recordações acerca de frases de que precedentemente nos servimos e que muitas vezes pronunciamos em outras ocasiões. — Que frases? — Que há uma pluralidade de coisas belas, uma multiplicidade de coisas boas, das quais enunciamos a existência, justamente como de coisas múltiplas e distintas [... ] e também, que existe um belo que é precisamente tal, e assim para todas as coisas que outrora propúnhamos na sua multiplicidade [...]. Das primeiras, dizemos que as vemos, mas não temos delas intelecção  ; ao contrário das naturezas unas, que as conhecemos, mas não as vemos [...]. Pois bem, qual é em nós a função que nos permite ver o que é visível  ? — A vista. — Mas o mesmo se dirá do ouvido, para os audíveis, e dos outros sensos, para a totalidade dos sensíveis? [...] Ora, reflectiste já sobre o excesso   de custo que exigiu ao fabricante dos nossos sensos a produção da propriedade, quer a de ver, quer a de ser visto? Examina o caso da maneira seguinte: haverá [112] alguma realidade   de que o ouvido e a voz careçam, e que [...] permita, a um, ouvir  , e a outra, ser ouvida? Um terceiro termo, por falta do qual, o primeiro não escutará e a segunda não será escutada? [...]. Mas não te apercebes de que a capacidade de ver e a propriedade de ser visível comporta semelhante carência? [...] — De que gênero   de coisas falas tu? — Precisamente daquilo a que chamas luz [...]. Ora, a qual dos deuses que estão no céu poderás atribuir a soberania sobre o que faz que, o mais perfeitamente possível, a vista veja e os visíveis sejam vistos? — Esse mesmo [...] a que te referes, tu como os outros, pois, manifestamente, que é o Sol   que a tua pergunta tem em mente  . — [...] Pois é o Sol que eu afirmo ser a cria do Bem, cria que o Bem gerou numa relação   de semelhança   a si mesmo  ; exactamente o que ele é em si mesmo, no mundo inteligível  , em relação à inteligência e aos inteligíveis, é-o o Sol no mundo visível, em relação à vista e aos visíveis [...]. Os olhos, quando os não fitamos em objectos, sobre cujas cores, em lugar da luz do dia, fluem os fogos nocturnos, não têm eles uma visão debilitada, chegada ao que aconteceria se fossem cegos e como se a vista não mais existisse neles, em sua integridade? [...] Mas quando se dirigem para objectos, cujas cores o Sol ilumina, então veem claro, e a existência da vista, nesses mesmos olhos é evidente   [...]. Pois bem, concebe agora, semelhantemente, e do modo seguinte, o olho da alma  : quando aquilo de que há iluminação, é a verdade   e, também, a existência, e que aí se apoiou sem olhar, nesse caso há, para ele, intelecção e conhecimento, e é claro que possui inteligência. Mas quando se apoiou sobre o que foi misturado de obscuridade, sobre o que nasce e perece, então opina, sua visão é fraca, há um revoluir incessante de suas opiniões e, inversamente, parece que não possui inteligência [...]. Portanto, declara tu mesmo que é a natureza do Bem este princípio que aos objectos de conhecimento confere a realidade, e ao sujeito cognoscente, o poder de conhecer! Representa-o como a causa   do saber e da realidade [...]. Saber e realidade, por outro lado, são análogos ao que eram, no outro caso, luz e vista [...]. Aprofunda mais, desta outra maneira, o exame   da imagem que se me afigura do Bem [...]. O Sol, dirás então, não dá aos visíveis, segundo creio, somente a propriedade de ser vistos, mas ainda a de chamá-los à existência, de os criar, de os manter, ainda que o provocar-lhes a existência, não seja seu mister [...]. Para os cognoscíveis, também não é só o serem conhecidos que eles devem ao Bem, mas dele recebem, além disso, a existência e a essência  , ainda que o Bem não seja essência, mas que esteja ainda para lá da essência, ultrapassando-a em dignidade   e poder.» [113]