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Horizonte e Complementaridade.

Eudoro de Sousa (HCSM:51-55) – Teogonia, a gênese dos deuses

Ensaio sobre a relação entre mito e metafísica, nos primeiros filósofos gregos

sexta-feira 8 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

[DE SOUSA, Eudoro. Horizonte   e Complementaridade. Sempre o mesmo acerca do mesmo. Lisboa, INCM, 2002, p. 51-55]

      

20. A Teogonia  , gênese dos deuses, põe o começo da linhagem de Zeus   nas núpcias do Céu e da Terra  ; mas a preposição do acto genesíaco dos dois   grandes componentes cósmicos nada apresenta de original. No poema de Hesíodo, o traço   mais surpreendente e, que o saibamos, inédito e inaudito, consta dos vv. 126-127: [51] «Primeiro, a Terra gerou, igual a si mesma, / O Céu estrelado, para que a cobrisse toda inteira.» Na mitologia das mais diversas nações, selvagens ou civilizadas, onde se encontram Céu e Terra, como os primeiros pais   de toda a geração, ambos nascem simultaneamente, por divisão  , ou separação  , «de uma forma só», em duas; e parece claro que estas só vêm a ser o que são agora depois da mesma divisão. Quando se fala em separação do Céu e da Terra, como se preexistissem ambos ao acto que lhes deu origem  , é que, por bons motivos, quase sempre falta um termo que designe a «forma só», primitiva e indiferenciada. Tanto mais vincada resulta a originalidade do traço acima indicado: que Úrano fosse o filho  , antes de vir a ser   o esposo   de Gaia, é, pelo menos, notável. Voltaremos logo ao tema da separação. Mas já que tratamos de Hesíodo, convém não deixar pairando no vago, no indeciso e no indeterminado   uma distintiva característica   da sua obra. Na verdade  , a Teogonia, ao passo em que vai desentranhando um pressuposto da Ilíada   e da Odisseia, que Homero não necessitava propor — referimo-nos às razões da indisputada soberania de Zeus e da organização patriarcal da sua corte olímpica —, sobrepõe outro passo mais audacioso, que consiste de deixar entrever algo do antiquíssimo envoltório dessas mesmas raízes. Na Beócia, onde se mantêm até à época clássica espessos sedimentos depositados por correntes culturais pré-helênicas (Dirlmeier), não é impossível que Hesíodo despertasse para o favorável acolhimento   de mitos que vivem naquele, daquele e por aquele «regime de fascinação», que uma teorese retardatária, tomando o efeito pela causa  , persiste em apelidar de «religião agrária»: nesse regime, é que, do Neolítico mediterrâneo, surge a figura arquetípica da Grande Deusa  , submetendo um acólito ou paredro, filho e amante, à sua autoridade   soberana no que respeita à vida e à morte de todos os entes do mundo vegetal, do mundo animal   e do mundo humano. Se Hesíodo prestou ouvidos atentos às vozes de um passado  , que tantos mais riscos corria de haver passado, quanto mais alto se erguia o fragor da mensagem poética de Homero, então naturalmente se esvaem todos os motivos para nos determos perplexos ante a «novidade» surpreendente daqueles dois versos. Sob este ponto de vista, portanto, é certo que, no confronto   com a mutilada teogonia hurrita e a desfigurada teogonia fenícia, a teogonia grega apresenta caracteres muito mais arcaicos. Para não falar da «escandalosa» inclusão do hino a Hécate (Th., 411—452) — cujo nome nem uma só vez se encontra no texto da Ilíada e da Odisseia, divindade   a quem «Zeus dotou esplendidamente», dando-lhe parte «na Terra e no Mar infecundo», que honras recebeu [52] também «no Céu estrelado» e que «por cima de todos (malista) é venerada entre os Imortais» (412-415) — temos de convir em que, através do proeminente papel desempenhado pela linhagem feminina, no drama   da sucessão dinástica, armando ciladas fatais (Gaia, ao lado de Crono, contra Úrano) ou ardilosos estratagemas (Reia, ao lado de Zeus, contra Crono), inventados para conter a prepotência da linhagem masculina, Hesíodo achou outro modo de nos dizer que a Justiça de Zeus não assenta na aniquilação, pura e simples, dos poderes adversos. Mas, sem dúvida, este outro modo de dizer ainda condiz temperadamente com o modo como as remotas gerações falavam da irresistível potência da Terra.

21. No poema de Hesíodo, à união  , segue-se a separação do Céu e da Terra (154-210). O mito   da separação das duas grandes regiões cósmicas é universal  : Staudacher (1942) descreveu as variantes disseminadas pelo mundo inteiro — tribos africanas, Egipto antigo, Grécia moderna, literatura babilónica e judaica, Hurritas e Fenícios, na índia, Sibéria, Ásia oriental, Indonésia, Melanésia, Austrália, Nova Zelândia, Polinésia e no continente americano. A todos os mitos de separação é comum a ideia de que o Céu, antes do começo da ordem actual das coisas, estava muito mais próximo da Terra, criando uma situação   muito desvantajosa para os homens, que só podiam deslocar-se rastejando e, não podendo desenvolver-se até à sua estatura normal, se encurvavam lentamente. Falta a vegetação   e os homens definham de fome; as nuvens que preenchem o estreito espaço entre os dois amolecem a terra, e a chuva devasta os campos de caça. Cita-se mesmo um caso em que o Céu chega a devorar os homens, correndo todos o perigo de serem exterminados. Quando o Sol   já existe, a sua forçada imobilidade acarreta imensas desgraças. Refere-se que um traço especialmente característico do estágio anterior   à separação é o da obscuridade perpétua e impenetrável. Por seu lado, também o sentimento   do Céu e da Terra é o de que a união os prende e oprime: separarem-se é a solução  . Mobil principal do acto decisivo parece que seja a «conquista da luz». Antes de cometê-lo, os homens reúnem-se em concilio. Primeiro, ninguém se acorda sobre o modo de proceder, ninguém ousa   cumprir o grande trabalho  ; são muitas as tentativas que falham, até que, finalmente, um o consegue, aplicando todas as suas forças. Quando o Céu se afasta, obedecendo a uma ordem, é necessário o repetido pronunciamento da palavra   de comando. Umas vezes, a separação resulta do arremesso de pedras, de tiros de flecha, ou por meio de varas ou de estacas; outras, o Céu é repelido por grande [53] fumaça, uma queimada, ou pelas artes de um feiticeiro. Todavia, o mais frequente é que a separação se efective por intervenção de um «ser» que pode dispor ou necessitar de auxílio de plantas, animais, homens ou deuses. A pessoa   do próprio   «separador» apresenta-se sob diferentes aspectos: o Sol representa muitas vezes esse papel (Marduk é uma divindade solar). Em numerosos casos, a separação opera-se pelo corte do membro que, até então, ligava o Céu e a Terra (tubo  , monte, árvore, liana, corrente, escada, arco-íris, menir, cordão umbilical). Também este acto é caracterizado como enormemente difícil, por todos os meios de que dispõe a arte narrativa dos «primitivos». Céu e Terra podem estar ligados no corpo de um ser vivente, monstruoso (dragão, polvo), que o herói  -separador terá de matar. Também não é raro que o Céu e a Terra sintam a separação como aniquilamento e peçam misericórdia   à pessoa que intenta separá-los. Caso único é aquele em que o Céu deseja o próprio aniquilamento, no interesse   dos homens; poucos aqueles em que o Céu e a Terra se apartam espontaneamente e sem alheio auxílio; mas, aqui, sempre precede uma querela entre ambos. Ou o Céu se separa da Terra, indignado com a ingratidão e a pecaminosidade dos homens, ou foge, sabendo de seus planos insidiosos. Terminado o drama da separação, removidos foram todos os males que antes pesavam sobre os homens: os habitantes da Terra obtêm sua liberdade e poderão, daí por diante, desenvolver-se sem entraves; a Terra devém frutífera, nasce nova vida vegetal e animal; cessa a fome e a chuva mortífera. Porém, o mais importante é o surgimento da luz e do sol, que separa o dia e a noite. Em algumas versões, à separação associa-se o motivo do paraíso  : a proximidade do Céu também apresenta suas vantagens, e os traços positivos da existência anterior à separação resumem-se numa vida de delícias, em completa ociosidade. Neste caso, é claro que são inteiramente negativas as consequências da separação e o distanciamento do Céu e da Terra aparece como efeito de algum equívoco ou transgressão; digamos, de um pecado   original.

22. A Teogonia oferece, como variante do mito, a castração de Urano; mas também não reside aqui a originalidade de Hesíodo: o fragmento hurrito-hitita da epopeia de Kumarbi já ostentava o mesmo traço, sem dúvida, de origem anatólica, pois dificilmente se poderá dissociar a castração, como motivo teocosmogónico, da que intervém no mito e no ritual de Cibele e Atis. Mas, passando da variante ao tema: não é impossível, nem, muito menos, improvável ou inverosímil, que nele se possa entrever outra codificação de uma [54] vivência primordial; agora, a do quotidiano milagre   do amanhecer. Todos os dias, a luz separa o Céu e a Terra; todas as noites, a obscuridade os reúne. O mito só nos diz que algum dia foi o primeiro, em que o Céu e a Terra se apartaram, para dar lugar à luz, ou em que por força da luz, eles se separaram. E mais uma vez se anuncia o «fascinante mistério do horizonte  »; para além dele, ainda Céu e Terra permanecem unidos; ainda são uma «forma só». Na sequela de Homero, Hesíodo introduz na tradição   mitológica dos Gregos os dois pensadores do mito universal da separação. Se, como vimos no parágrafo precedente, na separação do Céu e da Terra podem incidir contraditórios juízos acerca do que vale o apartamento das duas grandes regiões cósmicas, pendendo um para a optimística visão   de que todos os males foram removidos do mundo, e outro, para o oposto assentimento   de que a separação pôs termo a um estado paradisíaco, é bem de ver que a Teogonia ainda aponta para o lugar onde nascem as duas vertentes. Daí, por um lado, decorre o processo que vai dar no estabelecimento da soberania de Zeus Olímpico e, por conseguinte, na óptima ordenação das coisas, neste mundo; mas, por outro lado, também vemos nos poemas de Hesíodo que, além dos «limites da Terra» (Th., 335, 518, 622), para lá de onde Atlas em seus ombros sustenta o Céu — evidentemente, para que não volte a aproximar-se da Terra, ou para evitar que sobre ela venha a cair — está plantado o Jardim das Hespérides, ou o Horto dos Deuses, e sediados estão também os plainos do Elísio (Od., 159) e as Ilhas dos Beatos (ibid., 171). Talvez o poeta beócio dê mostras de inconsequência, mencionado ainda o Oceano (ibid., 168 e segs.) juntamente com os «limites da Terra». Por ora, deixamos a critério do leitor decidir se tal incongruência deve ser lançada a crédito de inconsciente imitação   da prestigiosa imagem de Homero, ou se demonstra sintomaticamente a presença das dificuldades com que se defronta a substituição do Oceano pelo Caos  . Mas, seja como for, e como quer que se decida o dilema, permanece certo que a tradição grega recolhe, sem as tornar por contraditórias, a versão «paradisíaca» do Céu e da Terra inseparados e indistintos, e a versão «optimística» da distinção e da separação; e o modo como as acolhe é o que, mais uma vez, se traduz pela coincidência da cifra teocosmogónica com a cifra escatológica (§ 14), e por onde elas coincidem corre a linha do horizonte.