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O real e seu duplo

Rosset (RD:13-18) – a ilusão cega

Ensaio sobre a ilusão

terça-feira 12 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

    

Excerto   de ROSSET, Clément. O real   e seu duplo. Ensaio sobre a ilusão. Tr. José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008, p. 13-18.

    

Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade  , de aceitar   sem reservas a imperiosa prerrogativa do real. Esta faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescritível — o do real a ser percebido —, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. Tolerância que cada um pode suspender à sua vontade, assim que as [13] circunstâncias   o exijam: um pouco como as aduanas que podem decidir de um dia para outro que a garrafa de álcool ou os dez   maços de cigarros — “tolerados” até então — não passarão mais. Se os viajantes abusam da complacência das aduanas, estas demonstram firmeza e anulam todo o direito de passagem. Da mesma forma, o real só é admitido sob certas condições e apenas até certo ponto: se ele abusa e mostra-se desagradável, a tolerância é suspensa. Uma interrupção de percepção coloca então a consciência   a salvo de qualquer espetáculo   indesejável. Quanto ao real, se ele insiste e teima em ser percebido, sempre poderá se mostrar em outro lugar.

Esta recusa do real pode, naturalmente, tomar formas muito variadas. A realidade pode ser recusada radicalmente, considerada pura e simplesmente como não-ser  : “Isto — que julgo perceber— não existe.” As técnicas a serviço de uma tal negação radical são, aliás, elas mesmas muito diversas. Posso aniquilar o real aniquilando a mim mesmo: fórmula do suicídio  , que parece a mais segura de todas, ainda que, apesar de tudo, um minúsculo coeficiente de incerteza pareça vinculado a ela, se acreditarmos, por exemplo, em Hamlet: “Quem gostaria de carregar esses fardos, gemer e suar sob uma vida fatigante, se o temor de algo após a morte, desta região inexplorada, de onde nenhum viajante retorna, não perturbasse a vontade e não nos fizesse suportar os males que temos por [14] medo de nos lançarmos naqueles que não conhecemos?” Posso também suprimir o real com menores inconvenientes, salvando a minha vida ao preço de uma ruína mental  : fórmula da loucura, muito segura também, mas que não está ao alcance de qualquer um, como lembra uma célebre frase   do doutor Ey: “Não é louco quem quer”. Em troca da perda de meu equilíbrio mental, obterei uma proteção mais ou menos eficaz com relação   ao real: afastamento   provisório no caso do recalcamento descrito por Freud   (subsistem vestígios do real em meu inconsciente), ocultação total no caso da forclusão descrita por Lacan. Posso, enfim, sem sacrificar nada da minha vida nem de minha lucidez, decidir não ver um real do qual, sob outro ponto de vista, reconheço a existência: atitude de cegueira voluntária, que simboliza o gesto de Édipo furando os olhos, no final de Édipo Rei, e que encontra aplicações mais ordinárias no uso imoderado do álcool ou da droga.

Entretanto, essas formas radicais de recusa do real permanecem marginais e relativamente excepcionais. A atitude mais comum, face à realidade desagradável, é bastante diferente. Se o real me incomoda e se desejo livrar-me dele, me desembaraçarei de uma maneira geralmente mais flexível, graças a um modo de recepção do olhar que se situa a meio-caminho entre a admissão e a expulsão pura e simples: que não diz sim nem não à coisa [15] percebida, ou melhor, diz a ela ao mesmo tempo   sim e não. Sim à coisa percebida, não às consequências que normalmente deveríam resultar dela. Esta outra maneira de se livrar do real assemelha-se a um raciocínio justo coroado por uma conclusão aberrante: é uma percepção justa que se revela impotente para acionar um comportamento   adaptado à percepção. Não me recuso a ver, e não nego em nada o real que me é mostrado. Mas minha complacência pára por aí. Vi, admiti, mas que não me peçam mais. Quanto ao restante, mantenho o meu ponto de vista, persisto no meu comportamento, exatamente como se não tivesse visto nada. Coexistem paradoxalmente a minha percepção presente   e o meu ponto de vista anterior  . Aí, trata-se menos de uma percepção errônea do que de uma percepção inútil.

Esta “percepção inútil” constitui, ao que parece, uma das características mais marcantes da ilusão  . Estaríamos provavelmente enganados em considerar esta como resultando principalmente de uma deficiência   no olhar. Às vezes se diz que o iludido não vê: ele está cego, cegado. É inútil a realidade se oferecer à sua percepção: ele não consegue percebê-la, ou a percebe deformada, tão completamente   atento que está apenas aos fantasmas de sua imaginação   e de seu desejo. Esta análise, válida sem nenhuma dúvida para os casos propriamente clínicos de recusa ou ausência   de percepção, parece muito sumária [16] no caso da ilusão. Menos ainda que sumária: antes à margem de seu objeto.

Na ilusão, quer dizer, na forma mais corrente de afastamento do real, não se observa uma recusa de percepção propriamente dita. Nela a coisa não é negada: mas apenas deslocada, colocada em outro lugar. Mas no que concerne à aptidão para ver, o iludido vê, à sua maneira, tão claro quanto qualquer outro. Esta verdade   aparentemente paradoxal se torna perceptível a partir do momento cm que pensamos no que se passa com a pessoa   cega, tal como nos mostra a experiência concreta e cotidiana, ou ainda o romance e o teatro. Alceste, por exemplo, em O misantropo, vê bem, de forma perfeita e total, que Célimène é uma coquete: esta percepção, que ele acolhe todo dia sem protestar, nunca é posta em questão. E, no entanto, Alceste está cego: não por não ver, mas por não associar seus atos à sua percepção. O que vê é colocado como fora de circuito: o coquetismo de Célimène é percebido e admitido, mas estranhamente separado   dos efeitos que seu reconhecimento deveria normalmente acarretar no plano prático. Pode-se dizer que a percepção do iludido é como que cindida em dois  : o aspecto teórico (que designa justamente “aquilo que se vê”, de théorein) emancipa-se artificialmente do aspecto prático (“aquilo que se faz”). Aliás, é por isso que este homem   afinal de contas "normal” que é o iludido está, no íntimo, muito mais [17] doente do que o neurótico: porque, de maneira diferente do segundo, ele é deliberadamente incurável. Aquele que está cego é incurável não por ser cego, mas sim por ser dotado de visão  : porque é impossível lhe “fazer ver de outra forma” algo que já viu e que ainda vê. Toda “advertência” é vã: não se poderia “advertir” alguém que já tem, debaixo dos olhos, aquilo que se pretende que ele veja. No recalcamento, na forclusão, o real pode eventualmente reaparecer, se acreditarmos na psicanálise, graças a um “retorno do recalcado”, nos sonhos e nos atos falhos. Mas, na ilusão, esta esperança   é vã: o real não voltará jamais, porque já está aí. Observaremos de passagem a que ponto o doente de que os psicanalistas se ocupam representa um caso anódino e, em suma, benigno, em comparação   com o homem normal.


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