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O MITO DO PROGRESSO

Barbuy: Progresso (5) - devenir incessante

“Revista Brasileira de Filosofia”, vol. I, fasc. 3, 1951

quinta-feira 7 de outubro de 2021

BARBUY  , Heraldo. O Problema do ser e outros ensaios. São Paulo: Convívio, 1984, p. 112-114.

5. Quando se verifica que a ideia? do progresso? indefinido?, do devenir incessante, constituiu o fulcro de onde emanaram atividade? e pensamento? contemporâneos, justo será perguntar em que espécie de progresso se tem acreditado tão fanaticamente: se no moral? ou no econômico; no espiritual ou no material; no afetivo? ou no intelectual?. O progressismo, porém, não saberia dar uma resposta: a ideia de progresso nunca foi formulada claramente, tendo agido antes com a força de um mito?. As teorias do progresso são derivados monistas do racionalismo?, seja nas suas formas? idealistas, seja nas materialistas. Ora, para o idealismo? psicológico o mundo? é produto da consciência geral? ou concreta do sujeito? do conhecimento?; para o idealismo lógico, onde a realidade? se apresenta como um sistema? de juízos e determinações conceptuais, sujeito e objeto? são manifestações dialéticas da Ideia do Absoluto?: quer dizer que, espírito? e matéria, individual e social?, moral e econômico, são uma só e a mesma realidade sob aspectos diferentes. E para o materialismo?, a consciência, a Ideia do Absoluto e todas as cousas em suma? se reduzem a manifestações da matéria, ou seja, a uma só e mesma realidade. As infindáveis discussões entre idealismo e materialismo nada? mais são [108] do que um novo tonel das Danaides, que nunca se esgota, porque o seu fundo é inteiramente vazio?; nem o idealismo’ nem o materialismo se decidiram a tirar as últimas conclusões dos princípios da Inteligência e desconhecem ambos a realidade, sendo a matéria, a que se atribui a criação de todas as coisas?, uma entidade? tão abstrata, tão imponderável e tão desconhecida como a Ideia Absoluta de Hegel   e a Vontade? de Viver de Schopenhauer  , que por outro? lado se apresentam como a causa? de todas as realidades. Tanto faz considerar a matéria como tradução do Espírito ou o Espírito como tradução da matéria; tendo o idealismo e o materialismo o comum fundamento? monista, em toda dialética do progresso, seja materialista como a de Marx   ou idealista como a de Hegel  , o progresso se apresenta sob o aspecto? de uma linha de desenvolvimento? da mesma entidade, não se distinguindo essencialmente? entre o moral e o econômico, o espiritual e o material, sendo o progresso um só: progresso de uma totalidade? homogênea, que, como totalidade se compõe de partes que podem progredir em graus diversos: típico é o exemplo? do Elan Vital bergso-niano que se paraliza no mineral, se embota no vegetal? e progride no homem? atravessando e arrastando o peso? da matéria. O progresso indefinido não pode deixar de ser a evolução de um todo homogêneo, seja matéria, seja espírito, seja élan vital. Por isso, além das conclusões inteiramente vagas de que o progresso do mundo ou do homem é fruto do progresso da consciência da liberdade?, ou de que o progresso da liberdade, ao contrário, resulta do progresso do homem e do mundo, não se podem encontrar nas teorias progressistas indicações mais claras da causa fundamental ou predominante do progresso. O progressismo, tendo agido sob o fascínio de um mito e supondo o progresso como existente a priori?, longe de pretender indicar a sua causa, tratou antes de formular? as suas leis?. A filosofia? do progressismo representou gigantesco esforço na determinação das leis de um progresso considerado como realidade evidente por si mesma. Comte   formula na sociologia? dinâmica uma lei geral, de tipo? físico, do desenvolvimento contínuo, a que se subordinam as três conhecidas leis especiais: do progresso intelectual, com a lei dos três estados; do progresso nas atividades e do progresso afetivo; por claras que pareçam as leis oriundas dessa física social, Comte   não consegue determinar as causas reais do progresso; quase sempre os progressos da inteligência, isto é, dos conhecimentos “científicos” [109] determinam os demais; porém no termo? de sua obra Comte   hesita entre a inteligência e os sentimentos?; e depois de ter? artificialmente distribuído as ciências, unificando-as na sociologia, quando tudo podia indicar a crença positivista na supremacia das descobertas intelectuais, Comte   fundou a religião da Humanidade?, que põe o altruísmo no primeiro plano?; se o progresso dos sentimentos ou o da inteligência determina os demais, é problema? que o positivismo? afinal não esclarece. Condorcet, no entanto, de quem Comte   se dizia o filho espiritual, havia escolhido uma solução eclética indicando causas diversas para o progresso nas diferentes épocas. — A subordinação do progresso contínuo a uma lei geral do desenvolvimento, de que se deduzem leis especiais, se generalizou na “filosofia natural?” depois de Lamarck, em cujas Histoire? Naturelle et Philosophie Zoologique se vêem todas as espécies animais derivando de um organismo? primitivo? pela graça da adaptação ao meio?, das reações internas e da transmissão hereditária dos caracteres? adquiridos. Eliminadas as reações internas, no sentido? em que as entendia Lamarck (e que supunham a existência do sujeito, modificado pelo meio, mas independente? dele, o que por sua vez implicava um finalismo?), Darwin estabelece as leis da transformação sob uma perspectiva? mecânica, na qual a vida? é produto das leis da evolução e não vice-versa: através das leis da seleção natural, da luta pela vida, da adaptação ao meio e da transmissão hereditária dos caracteres adquiridos, o homem de Darwin é resultado do progresso que o trouxe desde o animal? até a horda, desde a horda até a sociedade? e desde a sociedade até o indivíduo. Esta marcha de um todo homogêneo para a riqueza? crescente de inumeráveis manifestações heterogêneas (heterogêneas como acidentes, não como substâncias) fornece a lei geral de Spencer segundo a qual a evolução procede pela síntese, na integração constante de novos elementos?, indo do simples? para o complexo?, do homogêneo para o heterogêneo, do indefinido para o definido, do indeterminado? para o determinado, do caos? para a ordem?. A lei geral da diferenciação, que supõe por outro lado o desenvolvimento gradual do altruísmo, como o entendia Comte  , é a que constitui o fundo explicativo? da evolução social e moral. O progresso do indivíduo humano para Spencer se constitui pela sua especialização gradual como parte? cada vez mais diferenciada e pela sua proporcional adaptação e harmonização com o todo?. Nesta síntese de Spencer, como em todo monismo?, o indivíduo, [110] se bem que exaltado pelo liberalismo?, se apresenta finalmente como a parte de um todo, que funciona mecanicamente. Nem por menos, o ideal tradicional da sociedade aperfeiçoada pelo cumprimento das leis morais transcendentes, degenera com o progressismo no ideal da perfeição mecânica, onde o indivíduo só tem uma liberdade acidental?, que lhe é concedida afim de que melhor realize a sua escravização ao interesse? social. O erro? capital do progressismo é considerar a sociedade como substância e o indivíduo como acidente?; enquanto Santo? Tomás estabelecia com admirável precisão que a sociedade não é nada mais do que uma unidade? acidental, unidade de ordem e o indivíduo uma unidade substancial?, o mecanicismo? veio estabelecer justamente o contrário, não pela inversão consciente? dos valores da realidade, mas pelo seu desconhecimento.

Reduzida pelo monismo toda realidade a um só e mesmo desenvolvimento, de que os múltiplos aspectos são apenas manifestações; indicadas as leis gerais e especiais do progresso, (suposto? como existente, mais do que demonstrado), a indicação da causa do progresso, dependia, em última análise, da preferência de cada autor: tanto fazia indicar a Ideia Absoluta de Hegel  , com sua incoercível exteriorização dialética, desde a triologia inicial — ser, não-ser e vir-a-ser — até as últimas formas superiores da arte?, da religião e da filosofia e a reabsorção do Espírito em si mesmo: todo progresso seria então a tríplice, sucessiva manifestação do Espírito Absoluto; e verbalmente se pretenderá ser esta uma explicação da realidade concreta, quando ao contrário não toma sequer conhecimento do mundo das existências; o progressismo dialético gira num puro? mundo de conceitos? que inutilmente se esforçam por atingir a realidade existente [1]. Ou então, o progressista fatigado de abstrações poderá escolher a nebulosa de Laplace como ideia geral explicativa da origem? do universo? cósmico; ou ainda, poderá adotar a engenhosa teoria? de Haeckel que desvenda todos os “enigmas? do universo” com a monera, composta de azoto, hidrogênio, oxigênio e carbono: quatro elementos que, em transformações sucessivas, produzem todas as formas da vida, compreendida na sua totalidade; e o progressista convicto, depois de ter acompanhado linha por linha a construção de Haeckel, explicar?á as maravilhas do progresso indefinido, [111] inclusive o próprio gênio daquele naturalista, como produto da monera; as grandes sinfonias e os grandes poemas; as grandes descobertas técnicas e as mais aprimoradas filosofias, afinal o que serão? Produtos refinados do azoto, do hidrogênio, do oxigênio e do carbono. Mas, o Espírito Absoluto, a monera de Haeckel ou a grosseira matéria de Büchner e Le Dantec podem ser indiferentemente a causa miraculosa do progresso indefinido. Tudo se reduz sempre à mesma evolução, não se reconhecendo nunca a existência substancial da cousa que evolui.


[1Sobre este ponto as originais observações de Étienne Gilson em seu livro L’Être et l’Essence,, Vrin, 1948; particularmente o cap. VII.