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SOBRE A NOÇÃO ROMÂNTICA DE NATUREZA

Barbuy: Romantismo

Revista “Diálogo”, n.° 1, 1955

quinta-feira 7 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

BARBUY  , Heraldo. O Problema do ser e outros ensaios. São Paulo: Convívio, 1984, p. 87-96.

Se o romantismo tivesse sido o que pretenderam os salões galantes do século XIX e o que diz Victor Hugo no prefácio de “Cromwell”, não teria passado de uma revolução de regras e adjetivos, sem substância e sem uma visão própria da realidade. Longe de um florescimento do divino e do feérico, o romantismo não seria mais do que uma fuga à “realidade” científica, mascarada pela admissão do grotesco na arte, como o preconizava Victor Hugo. O romantismo seria uma espécie de contrafacção do positivismo e precursor até da lei dos três estados; no prefácio de “Cromwell” o gênero humano passa por três fases, nas quais a infância corresponde à poesia lírica, a maturidade à epopeia e a velhice ao drama; em Augusto Comte   as comunidades sociais cumprem a lei do progresso percorrendo os três estados da teologia, da metafísica e da ciência positiva, a qual representa a plena expansão da inteligência (mas onde o conhecimento se confina à experiência sensível!) quando a filosofia assume por tarefa unificar e sintetizar as leis   gerais das ciências da natureza, constituindo-se em especialidade da generalidade. A correspondência entre as três fases do romantismo artificial e a lei dos três estados não seria tão patente se também não coincidissem o “retour à la nature” e a noção positivista duma natureza inteiramente morta. Não se tratava de fato para o romantismo profundo de um suposto “retour à la nature”, concebido como viagem dominical pelos campos e sim de um reviver a intimidade da natureza, de um transfigurar-se numa natureza transfigurada, de um emergir-se no mais obscuro da natureza, surpreendendo a alquimia filosofal da sua potência criadora. A diferença está em que o “retour à la nature” corresponde a um romantismo psicológico-sentimental [97] e a revivescência da natureza corresponde a um romantismo mágico-metafísico. Trata-se em suma, no romantismo radical, de viver a natureza de dentro para fora, no sortilégio das suas manifestações, e não de estudá-la e descrevê-la racionalmente de fora para dentro. A natureza romântica não é um conjunto de relações científicas ou um objeto de descrições artísticas (que se possa imitar ou deformar produzindo o academismo ou o modernismo) e sim uma entidade vital que se deve intuir na continuidade das suas formas.

Os filósofos românticos do idealismo (Hegel  , Fichte  , Sendling, Goerres, Novalis  , Schlegel  ) refletiram a natureza, não como corpo inerte, retalhável entre as várias ciências, mas como ser vivo, como drama teogônico, como teurgia, como alma do mundo, como correspondência simpática entre as cousas. A natureza romântica não é um objeto para onde o sujeito retorna, mas uma identificação do terrestre e do divino e a configuração de um estilo fabuloso de vida. Os murmúrios da floresta wagneriana, o eco distante dos castelos perdidos e a jornada de Sigfried no Reno se movem, como os rios de Hölderlin  , numa natureza fantástica, e não num panorama que se possa descrever exteriormente, imitando-o ou deformando-o. Em verdade, a natureza que jorra dos filósofos românticos é um lugar em cujas entranhas remotas se pode imergir, cujo mistério se pode reviver, mas não é um lugar para onde se possa retornar como o viajante retorna a uma estação de sua viagem. A natureza romântica é o desenvolvimento de cenas sempre novas, processo mágico que se desvenda constantemente a si mesmo, um ser que, como em Heidegger  , se oculta e desoculta. Só se pode “retornar” a uma natureza positivada, morta e petrificada.

Mas não se pode retornar, nem mesmo à natureza hegeliana, que é um momento já ultrapassado da objetivação do Absoluto. Porque Schelling   mostra que é um erro tomar o espírito por sujeito e a natureza por objeto, pois ambos são faces da mesma identidade; e a natureza, como Schelling   a exprime, é a natureza romântica, sobre a qual não se trata de fazer classificações botânicas ou mineralógicas, mas de intuir o fio íntimo das transformações do uno no múltiplo; os elementos científicos na filosofia romântica entram apenas como subsídios da visão mágica da natureza; só têm valor quando relacionadas com a alma profunda de onde o maravilhoso irrompe [98]. O Espírito é a face subjetiva de que a natureza é o lado objetivo; e a natureza se enriquece de todas as possibilidades do Espírito, do qual é a manifestação; a riqueza do infinito pode exprimir-se no finito da natureza. Nisto reside o contorno panteísta da natureza romântica.

A natureza porém é um fazer-se e algo que pode ser feito. O romantismo não seria radical se não acreditasse na possibilidade de criar um mundo novo. Criar e não fabricar. A proposição de Leibniz   segundo a qual o objeto da filosofia não é o ser, mas o possível, pode ser um ponto de partida da consciência romântica; a mesma proposição é tomada por Wolff. Se tal proposição se entende no sentido de que o ser é o atualizado e o possível o atualizável, haverá nela um empobrecimento da noção de ser, pois o ser não é só o atual, mas também o atualizável. Mas, se a expressão for tomada neste sentido: “o possível é mais rico do que o atual”, o idealismo romântico verá, no possível, a possibilidade de projetar mundos novos e realidades mais ricas. Uma realidade inteiramente poética e musical é possível, porque o possível é mais rico do que o atual. Schelling   e Schlegel   viam a possibilidade de uma nova mythica, plasmadora de uma nova realidade. A projeção romântica da natureza se dá inicialmente em função duma liberdade que reside no Absoluto, que se determina em natureza segundo uma dialética rigorosa. Mas tal determinação, em Fichte  , se apresenta por vezes como podendo ou devendo tornar-se consciente e voluntária. Do mesmo modo em Schelling  , a natureza se projeta em princípio dedutivamente; mas no Schelling   posterior a criação se torna livre. Isto exprime a decidida posição voluntarista, em que o romantismo se sente capaz de fazer da Poesia realidade e da realidade Poesia (Novalis  ), abolindo e extirpando todos os mundos petrificados, nos quais não há realidade porque não há poesia.

A natureza é uma entidade viva, que assume todas as fisionomias que lhe forem impressas pelo Espírito. O Espírito pode acordar as fadas e animar os gnomos; pode abolir o quotidiano pondo vivos no seu lugar os contos de Grimm   e de Perrault. Tal a crença romântica na configuração possível de mundos inteiramente determinados pela identificação da alma com a paisagem, ou por momentos dialéticos do Espírito. A projeção do maravilhoso como realidade se tornou ainda mais crível quando as fontes irracionais do romantismo se ligaram [99] aos mistérios do inconsciente; descobrindo o inconsciente, o romantismo pareceu ter encontrado a chave das forças secretas, forj adoras da magia. O inconsciente nos une diretamente aos gênios invisíveis da natureza e dele brotam as forças mais profundas da cultura. O inconsciente é a matriz original de onde saem os novos mundos; tem uma função materna e se assimila ao feminino fecundado pela Vontade; como o feminino aristotélico, a natureza é a matéria em busca da forma que lhe é dada pelo Espírito. Do inconsciente nasce o culto romântico da mulher, da mãe e da matriz. No inconsciente estão todos os mitos do passado e a irrupção possível de todos os mitos do futuro. A cultura, que é mais profunda do que a ilustração e do que a razão, se converterá na entidade forjadora de novas naturezas, com novas florestas e novos deuses. Por isso a noção de “cultura” está intimamente unida à noção de “Weltanschauung”. Weltanschauung, isto é, Anschauung e Welt, visão e mundo, intuição e mundo, ou, imagem e mundo. Uma cultura é uma visão do mundo; o mundo não é senão a face objetiva de uma cultura e o mundo não é senão uma “simbólica do Espírito” (Novalis  ). A crença romântica na ressurreição da natureza divina, ou na projeção de uma nova natureza, vem da crença pela qual nascerão tantas realidades, quantas culturas nascerem. Eis porque, Wagner e Nietzsche   não repetem, mas criam. E o lado mais trágico do romantismo é justamente este sonho criador de novas naturezas e novos homens, que requer uma tensão agônica. A agonia do romantismo foi uma agonia de gênios e de heróis. Foi um Crepúsculo dos Deuses.