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A Fenomenologia no Brasil

Beneval de Oliveira: A reinterpretação da filosofia grega segundo inspiração heideggeriana

Temática do Existencialismo Brasileiro

terça-feira 5 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

A Fenomenologia no Brasil, Beneval de Oliveira  , Pallas, 1983


O presente   trabalho   tem como objetivo enfocar a temática do existencialismo brasileiro. Neste sentido, procuramos pesquisar as origens dessa temática, a partir de uma reinterpretação da filosofia grega, dando ênfase, sobretudo, à ontologia de Martin Heidegger  , justamente por ter esse filósofo despertado maior atenção que os demais filósofos existencialistas entre os nossos estudiosos da matéria.

De outro lado, procuramos analisar a frio  , o pensamento   de nossos pesquisadores, sem nos deixar levar por inclinações de ordem   preferencial.


      

Vale a pena   começar este trabalho citando uma frase bem expressiva de W. Dilthey  , filósofo da existência histórica, quando diz : “Somos em primeiro lugar seres históricos antes de sermos historiadores da história e somente porque somos seres históricos é que podemos ser historiadores da história”. [1] E, mais adiante, completa o seu pensamento   : “História e vida se identificam num sentido profundamente dialético-real: a conexão da história é a própria vida na medida em que produz uma relação segundo as condições de seu meio natural  . O que é a vida, só nos ensinar  á a história. E esta se acha essencialmente referida à vida. A história é o curso no tempo da vida e por isso encontra nela o seu conteúdo. Por sua matéria (a vida) se identifica com a história de vez que a história não é mais do que a vida apreendida do ponto de vista do todo da humanidade, aí há história”. [2]

Portanto, vivência, compreensão e conexão constituem os elementos   básicos para a decifração da história humana que dão à historicidade um sentido verdadeiro da existência do homem  . História é a ação humana que se temporaliza, que se presentifica sob as formas dos mais diferenciados modos   de fazer, conhecer e sentir.

Posto que as mito  -poéticas, teogonias e cosmologia órficas precederam e influenciaram a física milésia e a metafísica eleática, pitagórica e platônica, e que as escatologias helenísticas inspiradas nas doutrinas dos mistérios de Deméter e Dionisos sucederam e reagiram contra a antropologia sofista   e socrática, reabilitando os velhos mitos mediante a exegese   de Platão por Orfeu   - tornava-se verossímel a hipótese de que nunca a primitiva religião helênica ou pré-helênica cessara de agir subterraneamente no pensamento filosófico dos gregos, -e tanto mais verossímil uma tese pela qual se pretendia estabelecer a perenidade   de uma recíproca relação entre as formas expressivas da consciência mítica e da ciência filosófica. [3]

Escreve, ainda, Eudoro, citando Werner Jaeger  , “desde o princípio sublinhamos o fato de que não existe um abismo   intransponível entre a primitiva poesia grega e a esfera   racional da filosofia, a racionalização da realidade começou mesmo no mundo mítico de Homero   e Hesíodo  , e há ainda um germe de produtiva força mítico poética na milésia explicação de Natureza, que não deixa de operar no campo   do entendimento ou da razão humana”. [4]

Não é outro o posicionamento de Píndaro  , o grande poeta helênico, num livro de Jacqueline Duchemin, Pindare poète et prophète, citado por Mikel Dufrenne  , em seu livro “Estética e Filosofia”, [5] quando exaltando o social por si mesmo  , associa-o às potências da natureza, isto é, às potências da vida, uma temática de vida florescente.

Aqui o social e a vida se integram no contexto de um todo, um todo que contém dentro de si mesmo uma dialética do luminoso e do obscuro   : uma primeira apreensão, observa Dufrenne da consciência como abertura   para o mundo, do mundo como aberto para uma consciência. “ É a vida que se deslumbra, no homem, um conhecimento se torna possível e, de algum modo, com esse extraordinário advento   da reflexão, pelo qual por iniciativa do mundo mesmo, pois se o homem tem sentidos, também as coisas têm um sentido”. [6] E mais adiante : A beleza do mundo, é antes de tudo, sua realização   no olhar que se iguala ao mundo: a forma espontânea de seu desvelamento   e a promessa de sua inteligibilidade. O fato de habitar   o mundo, equivaler a conhecê-lo, é indubitavelmente belo. Talvez esse advento da consciência para: fora das trevas do gesto imediato tenha sido celebrado pelas hierofanias da luz”. [7]

Assim, um desvelar-se da consciência na luminosidade da vida e do mundo, razão por que o poeta celebrando a luz   da vida, glorifica a consciência desabrochando da própria vida. Ela conquista o espaço que é o lugar do encontro do homem com o mundo.

Já se vê, portanto, que não há nessa linguagem nenhuma ocultação da condição humana como expressão de uma corporalidade vivida e sentida. Sente-se o mundo, percebe-se os mistérios da vida “sem uma intenção escatológica”, mas numa transformação maravilhosa de realização mesma de uma realidade profunda na qual o homem se presentifica, através de uma luminosidade consciental, subjetiva e objetiva ao mesmo tempo.

No triunfalismo pindárico, isto é, nos Epinicios cantados pelo poeta há, ainda, como conteúdo existencial, uma ambivalência do funerário e do triunfal. Talvez, escreve Dufrenne, “a vida se reflita no vivente que se descobre mortal  , já a sombra apareça como a triste metade da luz : o nada   desponta no ser, mas é a vida que carrega a morte e sem que uma vida a negue.

É própria de Orfeu a posição escatológica de salvação sobrenatural, e a primitiva poesia grega se nutria do mito dos deuses, como recurso do alegorismo. Mas, como observa Dufrenne, chamando a atenção de Jacqueline Duchemin, se Píndaro se refere a esses mistérios da morte e da beatificação dos justos, é menos para anunciar um mundo misterioso do que para exprimir o mistério desse mundo, no qual o mito ainda não está separado do aqui.

Mas repetimos, citando ainda Dufrenne, a espiritualidade de Píndaro não consiste numa intenção escatológica, mas na glorificação desta vida. A transformação maravilhosa que o poema opera não é um ato de imortalização, é a realização mesma da “realidade profunda” na qual o homem está presente   e que vem à consciência pelo próprio homem, ao mesmo tempo vem à “consciência por ela. [8]

Emmanuel Carneiro Leão   escrevendo sobre a “hermenêutica do mito”, [9] salienta que o mito vem estranhamente interessando às pesquisas de filósofos e antropólogos  , literatos e psicólogos, sociólogos e historiadores; mais estranho ainda o interesse   dos filósofos existenciais. E até já haver um problema filosófico do mito. Ocorre, porém, que para os existenciais essa problemática tem uma outra significação além daquela que consiste na explicação do que sejam razão e racionalidade, porque tudo isso deve ser encarado por outro prisma, por uma ótica diferente daquilo que consagra a metafísica tradicional, ou clássica, como queiram.

O que se argumentava à luz da verdade, o que se pretendia induzir ao entendimento dos incautos era que a questão do mito só podia ser decodificada por um emprego maior da razão sobre o que se convencionava chamar de irracional ou ilógica.

Já o positivismo   de Comte na sua ingênua e pueril teoria   dos “três estados” pretendia demonstrar   que um maior atraso no desenvolvimento científico se devia a um estado   infantil da humanidade com seus mitos e suas crenças. Antecedendo a Comte toda uma filosofia substancialista também erigiu a razão como a verdade de toda filosofia, fazendo do mito um verdadeiro fantasma. Não era outra a posição do socratismo, do aristotelismo, de escolástica, do racionalismo do Cogito, de todo o criticismo e do panlogismo hegeliano que tudo levava ao Absoluto.

Uma nova maneira de pensar, entretanto, no nosso tempo, passou a reformular e a redescobrir o pensamento auroral e originário, mostrando que o mito podia ser considerado como validade indiscutível, na busca de verdades que são intrínsecas, ao próprio homem, porque como tão bem diz Carneiro Leão no seu livro já citado, p. 195, o que o filósofo procura na verdade do mito é a verdade da própria filosofia.

Ao nietzscheismo desassombrado e autêntico devemos a abertura para a pesquisa do pensamento originário, para o estabelecimento de uma filosofia lúdica, perspectivista, dimensionando as amplas proporções do antigo pensamento grego, e desta feita, contribuindo para uma verdadeira revolução no pensamento ocidental, fatigado da velha metafísica, dos falsos valores, de uma eticidade que parecia inarredável e absoluta. Uma verdadeira “camisa de força”, como dizia Nietzsche  , que tendia a abafar a voz da humanidade e entorpecer o verdadeiro sentido da vida.

Dos mitos órficos, homéricos e pindáricos, passaríamos a conhecer o teatro   sofocliano, com o Édipo-Rei e a Antigona  ; o Prometeu de Ésquilo; o fragmento imortal de Anaximandro  , o ser   de Parmênides   e o vir-a-ser de Heráclito   de Éfeso, enfim, toda uma gama de conhecimentos maravilhosos que iriam levar Martin Heidegger   lançar Sein und Zeit, Ser e Tempo, sua primeira obra que o consagrou como um dos maiores pensadores deste século.


BIBLIOGRAFIA

  • 01) BINSWANGER, Ludwig - Discours, parcours, et Freud - Éditións Gallimard - Paris - 1970. Ensaios que entrelaçam uma série de discursos acerca da aplicação do Da-sein heideggeriano na Psicanálise.
  • 02) BINSWANGER, Ludwig - Introduction a L’Analyse Existencielle - Les Éditions de Minuit - Paris - 1971. Novos ensaios do autor da Daseinanalyse, estudando as relações existentes entre sonho e vigília, delírio e razão, afecções psicossomáticas e modos de ação psiquiátricas e psicoterapêuticas.
  • 03) BORNHEIM, Gerd A. - Dialética, Teoria, Praxis - Editora Globo - Editora da Universidade de São Paulo - Ensaio crítico da fundamentação ontológica da dialética. O autor faz uma crítica do problema da finitude em Heidegger, sobretudo, na questão da praxis.
  • 04) CARNEIRO Leão, Emanuel - Aprendendo a pensar - Vozes - Coletânea de artigos tendo como base o sentido existencial da vida.
  • 05) DUFRENNE, Mikel - Estética e Filosofia. Persepctiva - São Paulo. Estudo da estética fenomenológica com um capítulo destinado ao estudo do poeta grego Pindaro, através do livro de Jacqueline Duchemin Pindare poeta et prophète.
  • 06) DILTHEY, W. - Escritos Reunidos - E. Weniger, 1944 Leipzig - Embora sendo considerado um filósofo da vida, Dilthey pode figurar como um historiador da existência humana. Sua posição de filósofo histórico está bem definida neste trabalho.
  • 07) FERREIRA DA SILVA, Vicente - Obras Completas vol. 1. Edição da R.B.F. São Paulo, Coletânea de artigos de filosofia, dentre os quais se destacam os que estudam a filosofia existencial de M. Heidegger.
  • 08) GURWITCH, Georges - Las Tendências Atuales de La Filosofia Alemana - Aguilar Editores - Madrid. 1928. Estudos filosóficos em torno de Husserl, Sheler, Lask, Hartman e Heidegger, fazendo clara exposição dos temas da filosofia contemporânea.
  • 09) HEIDEGGER, Martin - L’Étre et le Temps - Gallimard - 1964 - Estudo da primeira obra de Martin Heidegger em que são expostos os principies básicos da sua filosofia do sentido do ser.
  • 10) HEIDEGGER, Martin - Chemins qui ne ménent nulle pari - alemão Holswege - Gallimard, Paris. Estudo de vários temas de filosofia existencial de Heidegger, incluindo “A origem da obra de arte” e a Palavra de Anaximandro.
  • 11) HEIDEGGER, Martin - Que é Metafísica. Duas Cidades. São Paulo, 1969. Textos de Heidegger desenvolvendo temas relacionados com a ontologia do prof. de Friburg.
  • 12) HEIDEGGER, Martin - Introdução à Metafísica. Tempo Brasileiro. Tradução de Emanuel Carneiro Leão. Livro básico para a compreensão do problema do esquecimento do Ser. Porque o ser e não apenas, o Nada?
  • 13) HEIDEGGER, Martin - Ensaios I. II e III Gallimard - Novos Artigos em torno da temática heideggeriana sobre finitude, temporalidade, a caverna de Platão, etc.
  • 14) LÉVINAS, Eminanuel - En Découvrant L’Existence avec Husserl et Heidegger - Vrin - Paris, 1974 - Conferências e Estudos em torno da fenomenologia de Husserl e Heidegger.
  • 15) RICOEUR, Paul - O Conflito das Interpretações Imago Editora, 1978 - Seu objetivo central consiste em enfrentar os grandes desafios do pensamento contemporâneo. Trata-se de assumir filosoficamente a tensão dos conflitos que nos envolvem no plano do pensamento.
  • 16) STEIN, Ernildo - Em busca de uma ontologia da Finitude. Este trabalho é parte de um Curso de Metafísica instituído pelo autor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1969. Pub. na Revista Brasileira de Filosofia.

[1NA: Dilthey, W - Escritos Reunidos - E. Weniger, Leipzig, 1934. Apud Emanuel Carneiro Leão, Aprendendo a Pensar - Vozes, pp. 31/32.

[2NA: Ibid. pp. 35/36.

[3NA: Sousa, Eudoro de - Orfeu, ou acerca do conceito da Filosofia Antiga R.B.F. São Paulo - julho-setembro, 1953 - pp. 393/94.

[4NA: Ibid. pp. 394.

[5NA: Dufrenne, Mikel - Estética e Filosofia - pp. 206/207.

[6NA: 6. Ibid. p. 207.

[7NA: Ibid. p. 207.

[8NA: 8. Ibid. p. 211.

[9NA: Carneiro Leão, Emmanuel - Aprendendo a Pensar - Vozes, p. 193.