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FRANZ VON BAADER’S PHILOSOPHY OF LOVE

Betanzos (FBPL:83, 90-91, 113) – Franz von Baader

Capítulo I

quarta-feira 24 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

Excertos das páginas 83, 90-91 e 113, traduzidos da obra de Ramón Betanzos, FRANZ VON BAADER  ’S PHILOSOPHY OF LOVE

    

A filosofia deve almejar primeiro que tudo «buscar e provar os meios e condições sob as quais um homem   pode alcançar o livre uso de sua capacidade para aprender  ». Sendo o princípio cardinal na epistemologia e metafísica   de Baader  :

«Ao invés de dizer com Descartes  : Penso, logo sou  , um homem deveria dizer: Sou pensamento  , logo penso, ou sou querido (amado  ), portanto sou».

O lema de Baader, cogitor (a Deo), ergo cogito, ergo sum, foi um contraponto visando não somente o subjetivismo do cogito cartesiano mas também a filosofia crítica de Kant   e a metafísica do Ego de Fichte  ; seu lema insiste em um primeiro princípio objetivo, um fundamento para todo o conhecer, amor e fazer do homem. Somente porque eu sou conhecido, amado e iluminado por Deus   posso conhecer, amar e ou iluminar. Baader está insistindo na identidade   entre fundamento de existência e fundamento de conhecimento. Localizar mesmo que seja no homem, em última instância, é deificá-lo. «A mente   finita, com sua visão   parcial, não pode ver exceto sendo arrebatada por um olho central ou universal  » (vide consciência   universal). Na visão de Baader, conhece-se a si mesmo na proporção de como conhece-se Deus; o mesmo vale para o amor. O cogito de Descartes põe o que é realmente «pensamento secundário» ou pensamento derivado (Nachdenken) em lugar do «pensamento original» ou pensamento primordial (Urdenken) e, por conseguinte, abre o caminho   para o ateísmo. Baader insiste que a participação   no conhecimento e amor divinos não faz um homem uma «parte» de Deus em absoluto. O princípio de Baader tenta reunir   ontologia e epistemologia, para superar o solipsismo e o subjetivismo assim como a absoluta autonomia   humana e a deificação da razão.

Conhecimento e existência são inseparáveis um do outro. Falar como se conhecimento fosse uma atividade   puramente humana sem um fundamento em Deus é falar como se existência também fosse auto-dada pelo homem e não fundamentada em Deus. Assim, Baader vê conhecer como Mitwissen ou Gewissen ou conscientia, i.é., conhecer em união   com, e em imitação   do, conhecimento de Deus. [p. 83]


Um princípio maior da revelação trata do modo da presença   de Deus em uma região ou em uma pessoa  ; isto é afetado, por sua vez, pelo status dessa região ou pessoa vis-à-vis tempo e eternidade  . Céu, a «boa eternidade», tem três dimensões temporais — passado  , presente e futuro; terra   (tempo) só tem duas — passado e futuro, mas nenhum presente; inferno, a «má eternidade», só tem uma — o passado. O relacionamento de Deus a cada região é expresso em uma das distinções favoritas de Baader: Inwohnung (morar-em), Beiwohnung («morar-por»), e Durchwohnung («morar-através»). Analogias com a distinção entre princípio, órgão e instrumento são sugeridos. A presença de Deus através de Inwohnung é presença como amor, a espécie mais apropriada à Deus que é amor; sua presença através de Beiwohnung se dá quando um agente   inteligente coopera livremente com Deus e age como órgão de Deus; sua presença através de Durchwohnung é presença somente através de poder: Deus trata com a natureza inanimada — e em última instância com agentes livres que resistem a ele — através de seu poder: i.é. ele os trata como instrumentos.

Essas distinções lançam luz sobre muitas afirmações de Baader: por exemplo, «uma boa pessoa e uma má farão coisas diferentes, mas ambas farão o que Deus quer»; e «Deus faz pessoas boas ou más, como intenciona, pois fazer é determinado pela vontade». Baader diz, com efeito, que Deus se oferece em amor para todos, mas amor não pode ser forçado em ninguém; embora amor possa ser recusado, a presença de Deus através de poder não pode, pois nada pode existir aparte dele. Em uma veia análoga, Baader cita Angelus Silesius  : «Deus é mestre para o servo  , é Pai   para seu filho, e é noivo   quando encontra sua noiva, Sophia  ».

O fato da revelação não justifica panteísmo, pois a unidade   da essência de Deus é indissolúvel e não-transferível. Para Baader, Deus não é alguma espécie de princípio abstrato mas ao invés um ente   pessoal; e a marca   de personalidade é incomunicabilidade. Deus não é «uma parte do mundo» nem é o mundo uma «parte de Deus». Deus é tanto acima do mundo quanto dentro do mundo. Em outras palavras, ele é tanto transcendente e imanente. Deus tem «externalidade» com relação a ele, mas esta é imanente nele:

«Isso é precisamente o grande mérito de Jacob Boehme   — que ele concebe esta interioridade   e exterioridade de Deus de maneira imanente e não concebe imediatamente a externalidade da existência de Deus como existência criatural, como os panteístas fazem, para quem Deus, assim que quer ser ou deve ser um ente existente realmente, imediatamente abandona a si mesmo e entra ou cai na criação. O Deus destes filósofos é um centauro ou um ente híbrido, consistindo de uma centro   que é divino e uma periferia que criatural ou não-divina...».

O que é «externo» a respeito de Deus é antecedente a e independente de qualquer referência ao mundo. [p. 90-91]


Na medida que a criatura conformou-se a si mesma à divina auto-fundação, ela está unida a Deus e feita uma participante em seu amor, Deus é amor. A filosofia do amor, portanto, deve ser a doutrina central. Deus est sphaera, cujus centrum ubique, circunferentia nusquam.

Uma das mais comuns e falsas interpretações desta expressão   tem sua raiz na consideração   superficial da figura geométrica (do círculo ou da esfera), de acordo com a qual imagina-se Deus (o ponto no meio) como cercado por (fechado por) o mundo (criação), assim como o primeiro, como centro, e o segundo, como periferia, fossem simplesmente dois   elementos   constituintes de um e mesmo X. Dificilmente se poderia dizer algo sobre a natureza de tal coisa, tal je ne sai [sic] quoi ou indiferença espinozística, posto que não seria nem Deus nem criatura. Em tal caso, não poderia haver questão de um Deus super-mundano ou livre-de-mundo; de fato, Deus realmente consistiria de algo que é feito centro simplesmente pelo mundo e pela criação, enquanto é Deus que toma este último em seu próprio centro, porque todas as coisas são imanentes em Deus... [p. 113]


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