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Rahner Ogdoada

terça-feira 29 de março de 2022

      

Mitos Gregos em interpretação cristã, Hugo Rahner  , Herder  : Barcelona, Espanha, 2003, 381 p. ISBN 84-254-2283-3 título original: “ Griechische Mythen in christlicher Deutung” © 1945, “ Orden der Gesellschaft Jesu, Munich” trad. Carlota Rubies, prólogo de Lluís Duch (autor dos livros “ Mito  , interpretación y cultura” e “ Antropologia de la religión” publicados pela mesma editora). Contribuição e tradução de Antonio Carneiro das páginas 96, 97, 98 e 99.

III Batismo   - O MISTÉRIO DO BATISMO

O antigo cristão, para expressar esta salvação através do batismo — que excede em muito a qualquer anseio   antigo — “ conforme a sua imagem” , e para dizer o que, junto com Paulo, acreditava desta semelhança   com a vida glorificada do Ressuscitado, recorreu a um símbolo extraído de seu entorno piedoso e místico, símbolo que posteriormente, e em sua interpretação cristã, teria uma longa tradição: trata-se do “ mistério da Ogdóada ” [1].

Cristo   ressuscitou ao oitavo dia, no dia de Helios   que, a partir desse momento, seria para os cristãos o primeiro dia, ao igual que outrora foi o primeiro dia da criação do universo  . Na sessão de Eranos do ano passado   falamos do mistério da luz desse dia de sol. Segundo a antiquíssima concepção pitagórica, o número   oito simboliza o consumado, o eterno e o quieto. O oito é o número do cubo, do corpo que se dilata em direção para todos os lados a intervalos regulares, o oito é o número das esferas que giram ao redor da terra  , “panta okton” tudo é oito, segundo um antigo provérbio [2]. Também sabia disso o homem   antigo. Agora vê em tudo o símbolo místico do número oito, em suas íntimas convicções de fé e no característico obrar   do batismo, e o reveste com um significado cristão. Ao oitavo dia ressuscitou o Senhor; em dia de Páscoa, no oitavo dia de liturgia, Cristo foi batizado. É o mesmo dia em que o Espírito se derramava sobre as águas. Oito pessoas iam na Arca de Noé e esta arca salvífica simboliza a cruz. Tudo está cheio de prodígios e símbolos ocultos. Na “ segunda Epístola de Pedro  ” (2Pd 2,5) lemos “ Se tampouco perdoou ao mundo antigo, pelo menos preservou ao predicador da justiça. Noé, com sete   pessoas, (“ogdoon Noe” ) ao inundar com o dilúvio o mundo dos ímpios.” Isto prefigura o batismo segundo lemos na “ primeira Epístola de Pedro” (1Pd 3,20-21): ... “ Nos dias de Noé, o justo, ao construir a arca na qual poucas pessoas, a saber, oito, se salvaram no meio das águas. O que era figura (“antitypon”) do batismo agora, o qual de uma maneira semelhante os salva a vós mesmos, não ao tirar manchas da carne  , mas sim justificando a consciência para com Deus   pela ressurreição de Jesus Cristo.” A partir daqui gerou-se uma grande quantidade de imagens em torno do mistério do número oito tal e qual as encontramos já desenvolvidas no século II com Justino. Referindo-se à passagem mencionada disse: “ Este é o sentido da palavra de Deus, que nos tempos do dilúvio o mistério para salvação dos homens era já veladamente realidade. Noé, o justo, junto às demais pessoas do dilúvio, a saber, sua mulher, seus três filhos com suas respectivas mulheres, no total de oito pessoas, simbolizam com este número o dia em que Cristo ressuscitou, ao oitavo dia que em virtude d’Ele é sempre o primeiro dia. Pois Cristo, o filho   primogênito de todas as criaturas, é também o princípio de uma nova estirpe que Ele devolve à vida por meio da água, a fé e a cruz no mistério da cruz” (Justino Trifon - Diálogo   con Trifón).

O batismo é o renascer   da vida eterna, o trânsito ao incorruptível e a paz   que expressa o símbolo da Ogdóada, é a antítese do nascimento terreno. Nos “Clemente Excertos Teodoto   - Excertos de Teodoto” de Clemente lemos: “Ao que engendra a Mãe é conduzido à morte e ao mundo; ao que Cristo regenera é transferido à vida, à Ogdóada. Tais morrem para o mundo, mas vivem em Deus, a fim de que a morte seja aniquilada pela morte e a corrupção pela ressurreição” [3]. A pia batismal é a tumba da vida corruptível e ao mesmo tempo o seio materno da nova vida da Ogdóada do céu; em um sentido completamente diferente e mais sublime que o da Mãe Terra, é o seio materno e tumbo ao mesmo tempo [4]. Orígenes   escreveu um dos hinos mais belos sobre este “mistério da Ogdóada”, uma louvação ao domingo (“Sonntag”, literalmente dia do sol em alemão) como oitavo dia:

Este dia o criou o Senhor. Há algo que se possa comparar à ele? Nele teve lugar a reconciliação de Deus e o homem. Nele apagou-se a batalha   do tempo e a terra se fez digna do céu posto que os homens que eram indignos dela se fizeram dignos do reino dos céus, posto que o Primogênito foi elevado de nossa natureza por cima dos céus; abriu-se o Paraíso, pois obtivemos de novo a pátria velha ao ter sido retirada a maldição e acabado o pecado  . Se bem Deus criou todos os dias, este dia o criou de um modo especial. Nele fez que se cumprissem seus mistérios supremos. [5]

Alexandria sempre mostrou grande compreensão por este mistério. Assim o demonstram todavia as palavras de Cirilo: “Para nós este oitavo dia é o dia da ressurreição em que Cristo, que por nós sofreu a morte, ressuscitou. Nós assemelhamos à ele em espírito ao morrer   pelo batismo para poder assim participar en ressurreição. O momento mais apropriado para uma cerimônia de iniciação como esta (teleiosis  ) é o ‘ mysterion  ’ de Cristo que simboliza a Ogdóada” [6]. A mística latina do sacramento também conhece este símbolo, seja o “sacramentum ogdoadis” em palavras de Hilário [7] ou o “ sacramentum octavi” daquele que tão frequentemente fala Agostinho de Hipona   [8] : o número oito é o símbolo do renascimento a partir do batismo e também para a Vida Eterna que, no sentido místico, começa na água e se consuma na bem-aventurança  , a paz eterna, a contemplação de Deus. Entre o batismo e a visão de Deus se encontra a subida da alma   do gnóstico cristão, a paulatina deificação na virtude do batismo. Este também é um mistério do número oito. Escutemos a Clemente de Alexandria:

Daquele que, como disse o apóstolo, chegou a ser um homem perfeito  , disse David  : acharão repouso na montanha   sagrada de Deus. Reunir  -se-ão na Igreja   suprema dos céus, na que se reúnem os filósofos de Deus, cujo coração   é puro e que carecem de mancha alguma. Pois não permaneceram no sete da paz mas sim que por suas boas ações assimilaram-se à Deus e levaram-se como herdeiros do que pertence à Ogdóada, pois atenderam à visão pura da contemplação insaciável. [9]

A partir deste simbolismo místico do número oito os antigos cristãos determinaram o lugar na terra em que se celebraria este mistério, aquele “ ínfimo lugar cheio de graça” , o batistério e a piscina batismal. Edificaram os batistérios preferentemente em planta   octogonal e rodearam a piscina de água vivificadora com uma balaustrada octogonal. Conserva-se uma cópia de uma inscrição desaparecida de Ambrósio, efetuada para o Batistério de Santa Tecla em Mediolano. Apresentamos a versão métrica:

Com oito nichos se erige o templo   para o divino   ofício, sua pia é octogonal, digna de tal quefazer sagrado  . No oito místico deverá criar a casa   de nosso batismo, pois nele se brinda a salvação eterna ao povo inteiro pela luz do Cristo ressuscitado, que fez saltar os ferrolhos da morte e liberou a todos os mortos da cripta, redimiu aos pecadores penitentes da mácula da culpa  , purificando-os na água desta fonte cristalina. [10]

No verso final Ambrósio se expressa com umas palavras que apontam para o sentido mais profundo da paradoxa mística que se produz no mistério do batismo: “nam quid   divinus isto, ut puncto exiguo culpa cadat populi” :

Acaso pode Deus obrar algo mais sublime
que em um lugar tão ínfimo resolver a culpa dos povos?



[1O que segue está baseado em F. J. Dölger, “Zur Symbolik des altchristlichen Taufhauses. Das Oktogon und die Symbolik der Achtzahl”, em “Antike und Christentum” 4 (1934), pp. 153-187.

[2Teón de Esmirna, “Expositio rerum mathematicum” (ed. Hiller, p.105, 12).

[3Clemente Excertos Teodoto - Excertos de Teodoto 80, I.

[4Clemente de Alexandria, Stromata Purificação - “Stromata” IV, cap.25,160; a piscina batismal como seio materno e tumba também em Cirilo de Jerusalém, “Mystagogus Catechesis” 2,4 (PG 33, 1080 C), em Dionisio Areopagita - Pseudo-Dionísio Areopagita, “Ecclesia Hier.” II,2,7 (PG 3, 396 C), em Agostinho de Hipona, Sermão 119, 4: “Vulva matris aqua baptosmatis” ; vide também A.Dietrich, “Mutter Erde”, op.cit., p.114.

[5“Selecta in Psalmos” (Lommatzscch XI, p.359 s.), vide também H.Rahner, “Tauffe und geistliches Leben bei Origenes” , em “ Zitschrift für Aszese und Mystik 7 (1932), pp 205-223.

[6“Glaphyra in Exodum 2” (PG 69, 441 BC).

[7“Instructio psalmorum 14” (CSEL 22, p. 12, 24).

[8“Epistula 55, 9, 13, 15.” Outros tantos textos em F. J. Dölger, “Theologisches Wörterbuch, op. cit.,” pp. 165 ss.

[9“Stromata VI, 13 107 s.” (GCS II, pp.485 ss.).

[10Texto latino em F. J. Dölger, “ Theologisches Wörterbuch, op.cit., ” pp.155 junto com uma tradução em prosa completa.