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O Mundo como Vontade e como Representação Tomo I

Schopenhauer (MVR1:182-183) – vida orgânica

Livro II §24

terça-feira 14 de setembro de 2021

[Excerto de SCHOPENHAUER  , Arthur. O mundo como vontade e como representação. Primeiro Tomo. Tr. Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005. p. 182-183]

[I 146] Naturalmente, em todos os tempos uma etiologia? ignara de seu fim? empenhou-se em reduzir toda vida? orgânica ao quimismo ou à eletricidade [182]; e todo quimismo, isto é, toda qualidade? ao mecanismo? (efeito? através da figura? dos átomos), e este, por sua vez?, em parte? ao objeto? da foronomia?, tempo? e espaço unidos para a possibilidade? do movimento?, em parte à mera geometria?, à posição no espaço (algo assim como se constrói, com razão, de maneira puramente geométrica, a diminuição de um efeito de acordo? com o quadrado da distância e a teoria? da alavanca); a própria geometria, por fim, deixa-se resolver em aritmética, que, em virtude? da unidade? da dimensão, é a mais compreensível, a mais fácil de abarcar e a mais bem fundamentada figura do princípio de razão. Em linhas gerais, provas do método aqui indicado são: os átomos de Demócrito  , o vórtice de Descartes  , a física mecânica de LESAGE (que, no final do século passado, procurou explanar mecanicamente tanto as afinidades químicas quanto a gravitação por choque e pressão, como se pode verificar detalhadamente em Lucrece Neutonien.). Também a forma? e a combinação de Reils, enquanto causa da vida animal?, tende a isso. Por fim, totalmente nesses moldes é até mesmo? o tosco materialismo? agora? requentado no meio? do século XIX, e que, por ignorância, tomou a si mesmo como original: em primeiro? lugar? sob a estúpida negação da força vital, procurando explanar os fenômenos da vida a partir de forças físicas e químicas e estas, por seu turno, a partir do fazer?-efeito mecânico da matéria, posição, figura e movimento de átomos oníricos; em segundo lugar, desejando assim reduzir todas as forças da natureza? a choque e contra-choque, que seriam a sua “coisa?-em-si?”: de acordo? com isso, a luz? deve ser um vibrar mecânico, ou ondular de um éter? imaginário e postulado? em vista? de tal finalidade?; ora, quando esse? éter atinge a retina, percute nela, e assim 483 bilhões de batidas por segundo originam o vermelho, 727 o violeta etc. (os cegos? às cores e daltônicos seriam os que não conseguem contar tais batidas — não é mesmo?!). Semelhantes teorias rasas, mecânicas, democritianas, bestas e verdadeiramente grosseiras são bastante dignas de pessoas? que, cinquenta anos após a publicação da doutrina das cores de Goethe  , ainda acreditam na luz homogênea de Newton e não se [I 147] envergonham em admiti-lo. Aprenderão que aquilo a ser perdoado à criança (Demócrito  ) não o será ao adulto. Um dia poderão até findar numa situação ignominiosa: mas então cada um saber?á esquivar-se e fingir-se de ingênuo. Em breve falaremos novamente dessa [183] falsa redução das forças origin?árias da natureza umas às outras. No momento? é o suficiente. Supondo-se que as coisas? realmente fossem assim, então com certeza? tudo seria fundamentado e explanado, sim, tudo seria em última instância reduzido a um problema? aritmético que, assim, no templo? da sabedoria?, seria o ícone mais sagrado? ao qual nos conduziria o princípio de razão. Entrementes, todo conteúdo do fenômeno desapareceria, restando meras formas. Aquilo QUE aparece seria reduzido ao COMO aparece, e este COMO seria o cognoscível a priori?, por conseguinte, totalmente dependente do sujeito?, logo, completamente redutível a este, sendo? ao fim mero fantasma?, representação e absoluta forma da representação. Não se poderia mais perguntar pela coisa-em-si?. — Em consequência, supondo-se que isso fosse plausível, o mundo? inteiro seria de fato? dedutível do sujeito e, ao fim, teríamos aquilo que Fichte   quis PARECER realizar com seus argumentos ocos. Campo? Oculto? — Mas não é bem assim: fantasias?, falsificações, castelos no ar? foram dessa maneira construídos, porém nenhuma ciência. Os muitos e variados fenômenos da natureza foram com sucesso? reduzidos a algumas forças originárias e, onde isso foi feito, realizou-se um verdadeiro? progresso?. Várias forças e qualidades., a princípio tidas por diferentes, foram derivadas umas das outras (por exemplo?, o magnetismo da eletricidade), diminuindo-se assim o seu número. A etiologia atingirá o seu objetivo? se estabelecer e conhecer? todas as forças originárias da natureza enquanto tais e fixar seus tipos? de efeito, isto é, a regra? segundo a qual, pelo fio condutor da causalidade?, seus fenômenos aparecem no tempo e no espaço e determinam reciprocamente suas posições, porém sempre restarão forças originárias; sempre restará, como resíduo insolúvel, um conteúdo do fenômeno que não pode ser remetido à sua forma; sempre restará, portanto, algo não mais explanável por outra coisa e em conformidade com o princípio de razão.


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