Não seja verdadeiro consigo mesmo
SZL
A lição final é que devemos aceitar a estupidez sem sentido da natureza. A humanidade deve sua existência à imensa destruição e sofrimento que se abateu sobre a vida na Terra. Sem a extinção dos dinossauros, não haveria vida humana na Terra. Nossas principais fontes de energia (carvão, petróleo) são os resquícios de destruições inimagináveis que ocorreram no passado. Nossos hábitos diários dependem do sofrimento global — basta pensar no que acontece nas fazendas industriais com galinhas e porcos. Não somos apenas uma catástrofe para o nosso meio ambiente, nós emergimos dessa catástrofe e ainda hoje vivemos dela. E todos esses sacrifícios nunca serão redimidos em algum tipo de novo tribunal de Nuremberg que nos condene por nossos crimes contra a vida natural. O mais difícil não é encontrar algum significado mais profundo para o sofrimento, mas realmente aceitar sua falta de sentido.
Em seu pequeno livro Memo sur la nouvelle classe ecologique, Latour e Schultz confrontam o grande problema: embora a mídia nos bombardeie com notícias sobre a pandemia e a ameaça de uma catástrofe ecológica, por que tudo isso não desencadeia uma mobilização política em massa no nível das grandes mobilizações anteriores (o movimento do Terceiro Estado contra o feudalismo, o movimento socialista contra a exploração capitalista, até mesmo a mobilização fascista)? Embora Latour e Schultz tentem situar a luta ecológica como a última (e mais universal) da série de lutas de classes emancipatórias, eles apontam a diferença: a “classe ecológica” é universal, inclui não apenas todos nós, seres humanos, mas até mesmo nosso ambiente natural, e rompe com o paradigma progressista que sustentou as lutas de classes anteriores (mais desenvolvimento material). Portanto, sua promessa básica é apenas a sobrevivência, uma vida melhor, não um padrão de vida mais elevado, e para alcançar isso, ela está ciente de que serão necessários grandes sacrifícios materiais e sociais, especialmente nos países “desenvolvidos”. É por isso que ela não consegue desencadear uma mobilização em massa? Acho que a situação é mais complexa, pois, com exceção dos novos populistas, a mobilização política está fracassando em todo o domínio da política, caracterizado por uma apatia crescente.
Não encontramos uma passividade semelhante já na obra de Adorno e Max Horkheimer? Na postura de Horkheimer em relação ao Ocidente desenvolvido, podemos discernir um estranho eco da diferença ontológica: no nível ontológico, a sociedade consumista ocidental desenvolvida é a pior possível, o culminar da “dialética do Iluminismo”, a sociedade da manipulação tecnológica total, mas no nível ôntico, como uma das ordens sociais em comparação com outras, ainda é a melhor e devemos defendê-la. (É por isso que, no final da década de 1960, Horkheimer se recusou a condenar a intervenção dos EUA no Vietnã, alegando que o Exército dos EUA sempre traz liberdade…) Assim, a postura de Horkheimer não pode deixar de lembrar a famosa definição de democracia de Churchill: o pior sistema político possível, mas todos os outros são piores.
Como Latour e Schultz apontam, embora a classe ecológica deva se esforçar para se unir às forças democráticas e socialistas, sua união não é garantida. Os obstáculos não são apenas as forças “reacionárias” interessadas na expansão capitalista, mas também as forças “progressistas” incapazes de abandonar o paradigma do crescimento infinito — décadas atrás, muitos sindicatos se opuseram aos primeiros alertas ecológicos, descartando-os como uma tentativa do capital de limitar as demandas dos trabalhadores, e mesmo nas teorias da conspiração atuais, há uma tendência de descartar as limitações ecológicas como uma trama do establishment para controlar a população. A classe ecológica, portanto, muitas vezes se cruza com outras lutas, e não devemos reduzir essa tensão a um momento passageiro que deve ser gradualmente superado através da construção de uma solidariedade global. Talvez, se quisermos reativar a noção de comunismo, devamos aceitar a inadequação básica da ideia do poder da classe trabalhadora. Em seu último texto, Christopher Hitchens escreveu que “no final de sua vida, isolado no México e ciente de sua saúde em declínio, [Trotsky] admitiu, após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, que o conflito poderia simplesmente terminar sem uma revolução socialista. Nesse caso, todo o projeto marxista-leninista teria que ser abandonado” — aqui está uma passagem do último texto de Trotsky:
Seríamos obrigados a reconhecer que [o stalinismo] não estava enraizado no atraso do país nem no ambiente imperialista, mas na incapacidade congênita do proletariado de se tornar uma classe dominante. Então, seria necessário estabelecer, em retrospecto, que… a atual URSS foi a precursora de um novo e universal sistema de exploração.
Trotsky é claro aqui: é preciso deixar para trás a ideia básica do “poder proletário”, dos miseráveis da terra capazes de organizar um poder alternativo. “Em retrospecto” significa que essa ideia estava condenada desde o início. Hoje, estamos em posição de tirar todas as consequências desse fato, sendo a mais importante delas a frase já citada de Karl-Heinz Dellwo de que hoje é “razoável não mais falar de senhores e servos, mas apenas de servos que comandam servos”. (E, como disse Gandhi, o destino do servo é pior do que o do escravo, pois o escravo perdeu apenas sua liberdade, mas o servo tornou-se indigno dela). Isso significa que devemos deixar para trás a caracterização da reprodução capitalista global como uma expressão da “vontade de poder”: o capital se reproduz sem vontade, a vontade é, ao contrário, algo que caracterizaria apenas uma tentativa revolucionária “voluntarista” de interromper essa dança louca: “Hoje, quem não quer revolução não quer nada”. É também por isso que devemos resistir à busca nostálgica por um (novo) sujeito revolucionário: não há um agente predestinado para uma revolução, a única solução é que nós mesmos, cada um de nós que sente a necessidade de uma mudança global, nos afirmemos como tal: “Não levantarei a questão sobre o sujeito revolucionário. Se não somos isso, então os outros também não são”. Em resumo, ninguém pode seguir o caminho fácil de esperar que outro grupo (especialmente os chamados “proletários nômades”) apareça como um agente privilegiado que nos mostrará o caminho — há um igualitarismo absoluto em ação aqui, a “situação social objetiva” é estritamente secundária. Esta deve ser a nossa versão da declaração (erroneamente) atribuída a Gandhi: “Seja você mesmo a mudança que você quer ver no mundo.” A mensagem é exatamente o oposto de “seja fiel a si mesmo”: não há verdade interior profunda em você (como a psicanálise amplamente demonstra), então apague-se, não seja livre, mas torne-se um objeto-instrumento da Liberdade.
