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Entre Futuro e Advir
SZLA
- Despertar antecipado como estratégia para evitar a experiência traumática de ser despertado, e não como manifestação de consciência plena da necessidade de acordar.
- Funcionamento regular da antecipação de alguns minutos como ritual defensivo diante da irrupção heterônoma do alarme.
- Estrutura do gesto marcada menos por domínio de si e mais por prevenção de um choque que viria de fora, sob a forma de um despertar imposto.
- Chamado paulino ao despertar como caracterização de uma época em que já seria tarde para permanecer adormecido, confrontado com a experiência histórica de que não existe o momento correto para acordar.
- Descompasso entre a advertência de urgência e a cronologia efetiva das reações coletivas.
- Alternativa recorrente entre o pânico prematuro, percebido como alarmismo vazio, e a lucidez tardia, quando a possibilidade de intervenção já se extinguiu.
- Consolação no intervalo imaginário de tempo disponível para agir, seguida pela súbita percepção de que esse tempo não existia.
- Inversão da fórmula cotidiana do demasiado tarde para estar acordado, em direção à hipótese de que, no plano histórico, seria demasiado tarde para despertar.
- Repetição de metáforas de contagem regressiva até o meio-dia do desastre global como figura de uma última chance.
- Introdução da tese de que a prevenção eficaz da catástrofe exige tratá-la como já ocorrida, deslocando a ação para a posição de já estar além do ponto zero.
- Substituição do apelo a uma oportunidade final pela exigência de agir a partir de um depois que ainda não aconteceu, mas que deve ser assumido como fato.
- Distinção entre dois sentidos de futuro que, em inglês, tendem a se confundir: futur como continuação do presente e avenir como ruptura descontínua com o presente.
- Futur definido como atualização integral de tendências já instaladas, prolongamento imanente do que já está em curso.
- Avenir definido como chegada do novo enquanto evento que não é mera consequência do presente, mas aquilo que vem e rompe.
- Exemplo político como marca de diferença entre o futuro previsto e aquele que é propriamente por vir, distinguindo o que será do que vem.
- Situação apocalíptica em que o horizonte último do futur assume a forma de um ponto fixo distópico, entendido como atrator que orienta a deriva espontânea da realidade.
- Enumeração de figuras de ponto zero como possibilidades convergentes de ruína: guerra nuclear, colapso ecológico, caos econômico e social, ampliação de conflitos regionais a guerras mundiais.
- Caráter indefinidamente adiável do ponto fixo sem que isso neutralize sua força de atração, já que a postergação não remove a tendência.
- Combate à catástrofe concebido como interrupção da deriva por atos que quebram a trajetória rumo ao atrator.
- Releitura do lema no future como ambivalente, designando não a impossibilidade de mudança, mas a tarefa de romper o domínio do futuro catastrófico e abrir espaço para o novo por vir.
- Necessidade de uma nova noção de tempo, o tempo de um projeto, estruturado como circuito fechado entre passado e futuro.
- Produção causal do futuro pelos atos no passado, conjugada com a determinação dos atos pela antecipação do futuro.
- Adoção do ponto de vista do futuro catastrófico como método para inserir retroativamente, no passado desse futuro, possibilidades contrafactuais.
- Conversão dessas possibilidades em alavancas de ação no presente, agindo hoje sobre o que, de dentro do futuro assumido, poderia ter sido diferente.
- Paralelo entre o tempo de projeto e a estratégia crítica que projeta o olhar para um futuro catastrófico a fim de mobilizar ações no presente, em contraste com a orientação tradicional para um futuro redentor.
- Dialética do Esclarecimento como gesto de projeção para um futuro de sociedade administrada e manipulação tecnológica total, com finalidade de evitar sua efetivação.
- Ironia histórica pela qual previsões pessimistas sobre a perda do Ocidente na Guerra Fria contribuíram para mobilizações que favoreceram o colapso do comunismo.
- Eficácia política do pessimismo entendido como antecipação do inevitável que, ao ser assumido, incita a contra-ação.
- Inversão da crença comum segundo a qual o presente seria aberto e o passado determinado, afirmando que, para agentes engajados, o presente aparece como destino, enquanto observadores posteriores identificam alternativas no passado.
- Experiência prática do engajamento como sensação de estar preso a uma necessidade histórica.
- Reconhecimento retrospectivo de bifurcações e caminhos possíveis que não foram atualizados.
- Abertura do passado à reinterpretação retroativa e fechamento do futuro como condição paradoxal da transformação do porvir.
- Transformação do futuro dependente de uma alteração do passado no nível da leitura e da narrativa, de modo a abrir uma direção diferente.
- Exemplo da guerra como acontecimento cuja necessidade se constitui retroativamente pela própria atualização do evento.
- Regra segundo a qual, uma vez iniciado um conflito amplo, o encadeamento que o precedeu passa a ser lido como causalidade necessária.
- Simetria interpretativa pela qual, se a catástrofe não ocorre, o passado é lido como série de momentos perigosos em que o desastre foi evitado.
- Episódio atribuído a Zhou Enlai como ilustração de que o sentido histórico de um evento permanece indeterminado e pode ser reaberto por desenvolvimentos posteriores.
- Reacendimento da luta pelo lugar histórico da Revolução Francesa após 1989, com tentativas de fixá-la como origem e fracasso final de um modelo revolucionário.
- Persistência do conflito interpretativo, pois o surgimento de uma política emancipatória radical reconfiguraria o estatuto do acontecimento.
- Retificação do anedótico pelo deslocamento do referente do é cedo demais para dizer, aplicado mais plausivelmente a 1968 do que a 1789.
- Leitura de 1968 como revolta de esquerda cujos slogans foram apropriados, permitindo a passagem ao capitalismo permissivo neoliberal, convertendo críticas em engrenagens do sistema.
- Concepção do futuro como conjunção de estados superpostos, incluindo simultaneamente a catástrofe e sua não ocorrência, de modo que a necessidade emerge a posteriori quando o presente escolhe.
- Recusa da fórmula simplificadora que opõe dois cenários como alternativas excludentes.
- Introdução de duas necessidades superpostas: a necessidade de que a história tenda à catástrofe e a necessidade de agir para preveni-la.
- Colapso dessas necessidades superpostas em uma única efetivação, produzindo em qualquer caso a aparência de necessidade histórica.
- Incidente da escassez de papel higiênico como modelo de coordenação social baseada em pressuposições de crença, distinguido da situação contemporânea de catástrofe real.
- Rumor falso que, por comportamento preventivo, torna-se verdadeiro, configurando uma profecia autorrealizável.
- Raciocínio do consumidor que não exige crença direta no rumor, bastando a pressuposição de que existem outros que acreditam que existem outros que acreditam.
- Produção do efeito real por uma cadeia reflexiva de suposições, independentemente da verdade inicial do enunciado.
- Distinção decisiva entre o caso do rumor e a situação presente, em que a deriva para a catástrofe é efetiva, e o impasse assume a forma de autossabotagem.
- Fala reiterada sobre a ameaça como mecanismo de neutralização prática, em que a nomeação do perigo convive com a inação.
- Hipótese sobre a ausência de contato extraterrestre como alegoria da irrelevância de uma espécie que observa a própria autodestruição sem agir de modo significativo.
- Retrato da humanidade como espécie dominante que impulsiona múltiplas formas de ruína e permanece politicamente paralisada.
- Reafirmação de que a política contemporânea, sob formas progressistas ou populistas, serve aos interesses do capital.
- Metáfora escatológica do presente como estar entre dois excrementos, associando direita fundamentalista e establishment liberal progressista, e extensão da imagem pela mercadoria kopi luwak como figura da ideologia dominante.
- Anedotas sobre líderes como matéria simbólica para condensar o estado do mundo, independentemente de sua veracidade factual.
- Café produzido por digestão e excreção como modelo de processamento ideológico, no qual enzimas removem a acidez e produzem suavidade vendável.
- Ideologia como transmutação do conteúdo em forma compatível com o sistema, preservando uma aparência de exceção e refinamento.
- Digestão e neutralização das partes nobres da tradição emancipatória por líderes e aparelhos políticos, convertendo radicalidade em resíduos integráveis ao capitalismo global.
- Ingestão de conteúdos anti-fascistas, anti-racistas, anticoloniais e anti-elitistas como matéria-prima simbólica.
- Ação de enzimas políticas que retiram a acidez radical e produzem versões suavizadas que se ajustam ao sistema.
- Apresentação dessa integração como destruição do sistema, enquanto opera como seu reforço.
- Funcionamento contemporâneo da ideologia como dizer a verdade e, ao mesmo tempo, produzir as condições para que a verdade seja percebida como mentira.
- Piada do adultério e do talco como mecanismo em que a confissão literal é lida como falsidade por causa de um indício que desloca a interpretação.
- Verdade proferida na superfície e erro interpretativo garantido pelas coordenadas simbólicas que determinam o que pode ser acreditado.
- Exemplo de chamado à limpeza moral na Europa como operação que aparenta invocar uma herança antifascista, mas visa eliminar o núcleo emancipatório dessa tradição.
- Associação entre tais apelos e a proximidade de explosões destrutivas de pura fúria.
- Reativação da temática homérica da ira como matriz poética e política para pensar a violência contemporânea, culminando no grito de guerra Goida como condensação da obediência imediata.
- Caracterização de Goida como comando para agir sem pensar, obedecer e executar.
- Vínculo histórico do termo com forças de terror e violência, implicando tortura e extermínio.
- Paralelo de tom com discursos de mobilização totalitária do século XX.
- Descrição do evento público como encenação estatal, com indiferença e medo no público, e fabricação televisiva de entusiasmo.
- Generalização da lógica do kopi luwak para além da Rússia, alcançando tanto a direita trumpista quanto a ideologia liberal-democrática que legitima exploração e intervenções.
- Recusa de restringir a forma ideológica a um único caso nacional.
- Inclusão do próprio campo liberal-democrático como processador de ideais em justificativas do sistema global.
- Universalização do envolvimento na mesma substância degradada, indicando implicação comum.
- Possibilidade de merecer atenção externa apenas pela escolha do novo por vir, articulada como tarefa do livro de buscar pistas para um verdadeiro despertar.
- Despertar exigido como mais do que reconhecimento sóbrio do estado das coisas, implicando transformação do campo de possibilidade.
- Necessidade de despertar para aquilo que ainda não se é e que ainda pode ser, como abertura concreta do avenir contra o ponto fixo do futur.
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