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5. Divisão e limitação

MML

  • Centralidade absoluta da noção de limitação em todo o edifício teórico fichteano, articulada como alternativa simultânea ao realismo dogmático e ao realismo idealista de matriz cartesiano-leibniziana.
    • Realismo dogmático definido pela posição de um não-Eu substancial como única agência verdadeira e independente, deslocando para fora do Eu a fonte última de atividade.
    • Realismo idealista caracterizado pela primazia de uma substância espiritual monádica como única realidade verdadeira, reduzindo a atividade do não-Eu a mera ilusão sem consistência própria.
    • Relação entre Eu e não-Eu compreendida como limitação mútua, recusando tanto a unilateralidade do não-Eu substancial quanto a dissolução ilusória do não-Eu no domínio exclusivo do espiritual.
  • Posicionamento dessa limitação mútua no interior do Eu absoluto, sem que isso autorize conceber o Eu absoluto como substância espiritual realista que conteria tudo em si.
    • Eu absoluto determinado como abstrato e puramente transcendental-ideal, isto é, como meio em que Eu e não-Eu se delimitam reciprocamente.
    • Função do Eu absoluto não como realidade suprema, mas como condição formal do campo em que a delimitação acontece, impedindo que a unidade seja entendida como coisa.
    • Deslocamento do estatuto de realidade para o engajamento efetivo, de modo que o Eu só se torna real por meio de sua colisão com a força oposta do não-Eu.
  • Realidade do Eu adquirida somente no engajamento real com a potência opositiva do não-Eu que frustra e limita, de tal modo que não há realidade do Eu fora desse choque.
    • Impossibilidade de uma realidade do Eu isolada da oposição, já que a existência efetiva do Eu depende do encontro com uma força que o contraria.
    • Generalidade do poder frustrante do não-Eu, abrangendo desde a inércia natural do próprio corpo até a pressão de constrangimentos sociais e instituições, incluindo a presença traumática de outro Eu.
    • Privação do Eu de seu não-Eu equivalendo à privação do Eu de sua própria realidade, já que, sem resistência, não há efetividade do Eu.
  • Não-Eu primariamente não como objeto abstrato de contemplação distanciada, mas como Gegenstand, isto é, aquilo que se põe contra, como obstáculo ao esforço do Eu.
    • Distinção entre Objekt e Gegenstand como distinção entre objeto contemplado e objeto que resiste, deslocando o problema para a dimensão prática.
    • Objeto definido como obstáculo ao esforço tético do sujeito, isto é, ao esforço de pôr e efetivar-se no mundo.
    • Passividade do sujeito diante do objeto frustrante definida como pathic, marcada por uma tonalidade afetiva e sofrida própria do embate com a resistência.
    • Experiência de obstáculo possível apenas quando o sujeito está orientado para fora, empurrando para fora em seu esforço prático, pois somente um sujeito em investimento ativo pode ser frustrado.
  • Posição, no interior do Eu absolutamente ponente, de um Eu finito e de um não-Eu como divisíveis, delimitando-se reciprocamente, segundo a fórmula em que se opõe no Eu um não-Eu divisível ao Eu divisível.
    • Divisibilidade como condição formal do recorte mútuo, em que ambos os polos são postos como repartíveis e limitáveis.
    • Limitação mútua como estrutura interna ao Eu absoluto, sem que isso elimine o caráter efetivamente frustrante do não-Eu para o Eu finito.
  • Designação da Wissenschaftslehre como materialismo sem matéria, na medida em que a consciência pura do Eu absoluto cumpre a função de um equivalente idealista da matéria no materialismo abstrato.
    • Funcionamento do Eu absoluto como espaço abstrato e infinitamente divisível, análogo ao espaço matemático em que se recorta indefinidamente a relação entre Eu e não-Eu.
    • Substituição da matéria por um meio formal de divisão, no qual a delimitação opera como princípio estruturante do campo.
  • Proximidade e distância entre Fichte e Hegel discerníveis na diferença entre suas noções de limitação, apesar de partilharem a intuição de que limitação e verdadeira infinitude constituem uma mesma constelação.
    • Convergência no ponto em que a infinitude verdadeira não exclui a limitação, mas se articula com ela em um mesmo movimento.
    • Diferença decisiva na maneira como essa sobreposição é pensada, separando uma estrutura vital de auto-relação em Hegel de uma infinitude prática atuante em Fichte.
  • Em Hegel, sobreposição entre infinitude verdadeira e autolimitação desenvolvida como auto-relação, em que a relação ao outro coincide com relação a si, definindo a estrutura elementar da vida.
    • Vida definida por auto-relação que inclui o outro como momento interno, de modo que o outro não aparece como mera exterioridade.
    • Ilustração contemporânea pelo problema biológico da emergência de um organismo distinto, deslocando a questão da interação para a gênese da distinção.
      • Problema decisivo formulado como surgimento de uma entidade autoidêntica a partir do entorno, e não como simples adaptação ao entorno já dado.
      • Membrana celular como figura paradigmática da constituição do limite que separa dentro e fora, instaurando o próprio espaço em que a adaptação se torna possível.
    • Questão principal como gênese do algo que deve adaptar-se, e não como explicação de como algo já dado se adapta.
  • Em Fichte, vínculo entre infinitude e limitação pensado de modo inteiramente distinto, já que a infinitude é infinitude atuante, isto é, infinitude do engajamento prático do sujeito.
    • Infinitude definida como esforço incessante do sujeito, e não como estrutura lógico-ontológica de auto-relação vital.
    • Diferença entre animal e homem na experiência do limite: o animal pode ser frustrado, mas não experimenta seu estado como limitação propriamente dita.
      • Animal simplesmente constrangido ao limite, com limite externo e, por isso, invisível a partir de seu horizonte.
      • Ausência de consciência de limitação porque o horizonte do animal não inclui a possibilidade de localizar-se como limitado.
    • Homem experimentando sua própria situação como frustrantemente limitada, e essa experiência sendo sustentada por um esforço infinito de romper o limite.
      • Infinitude atuante fundada diretamente na experiência da finitude, de modo que a finitude não é apenas constatação, mas ferida que convoca a ultrapassagem.
      • Limitação como autolimitação no sentido preciso de que ela corta por dentro a identidade do sujeito, finitando-o e frustrando-o.
  • Limitação humana como corte interno que mina a identidade desde dentro, fazendo com que o obstáculo não apenas impeça tornar-se mundo, mas impeça tornar-se si mesmo.
    • Objetos e obstáculos frustrantes descritos como forças que não apenas detêm um movimento externo do Eu, mas corroem a consistência interna de sua autoidentidade.
    • Consequência traumática segundo a qual o obstáculo faz do sujeito um ser finito não só por restrição externa, mas por truncamento interno.
  • Dupla implicação do fato de o limite entre Eu e obstáculo situar-se no Eu: unidade englobante e, simultaneamente, conclusão desagradável de que o obstáculo invade a identidade e a torna frustrada.
    • Leitura triunfante segundo a qual o Eu é unidade que abarca a si e seu outro objetivo, já que a delimitação acontece no interior do Eu absoluto.
    • Leitura traumática segundo a qual o obstáculo recorta a identidade do sujeito desde dentro, e a unidade englobante não elimina a experiência de ferida interna.
  • Problema interpretativo relativo à passagem do Eu ao não-Eu como em-si consistente fora do movimento reflexivo do Eu, formulado como suspeita de circularidade que não se funda.
    • Interrogação sobre se o movimento circular de autoposição permanece suspenso no vazio, incapaz de fornecer seu próprio fundamento.
    • Ironia condensada pela imagem de Münchhausen salvando-se do pântano puxando a si mesmo pelos cabelos, como figura de uma fundação impossível.
    • Necessidade de um ponto de referência externo que impeça o colapso do Eu em si mesmo, sem que esse ponto seja exterioridade direta que reintroduza a Coisa-em-si.
  • Solução proposta por Pierre Livet pela referência a outro Eu como ponto externo relativo a um Eu singular, preservando, porém, a pertença ao mesmo tipo de círculo reflexivo de autoposição.
    • Outro Eu como referência externa para um Eu singular, experimentada como núcleo opaco e impenetrável.
    • Não exterioridade absoluta, pois o outro Eu não é estranho ao movimento de autoposição, sendo apenas outro círculo do mesmo tipo.
    • Fundação da necessidade a priori da intersubjetividade por meio dessa exterioridade relativa, em que o externo não é coisa, mas outra subjetividade.
  • Reconhecimento da elegância da solução e da afinidade com a noção lacaniano-freudiana do próximo como Coisa traumática, acompanhado da recusa de sua suficiência.
    • Proximidade conceitual com a figura do vizinho como núcleo impenetrável, onde a alteridade aparece como traumatizante e opaca.
    • Falha da solução por desconsiderar que a relação do Eu com o objeto precede, no sentido formal estrito da gênese transcendental, a relação do Eu com outro Eu.
    • Primordialidade do Outro como Coisa não redutível a outro sujeito, de modo que o primeiro Outro não é o Outro da reciprocidade intersubjetiva.
    • Anstoß como Outro que desperta o que terá sido o sujeito de seu estatuto pré-subjetivo, mas não como Outro da intersubjetividade recíproca.
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