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Yates

Frances Yates (1899-1981)

O nome de Frances Amelia Yates é inseparável da história do Instituto Warburg. Quando em 1936 conheceu Edgar Wind, quem a introduziu ao grupo de intelectuais que em 1933 havia trasladado a Biblioteca de Aby Warburg a Londres, selou para sempre seu compromisso pessoal e profissional com essa instituição consagrada ao estudo da persistência da tradição clássica na cultura ocidental. Mesmo após seu retiro em 1967, seguiu desenvolvendo suas investigações nesse marco, e foi seu desejo que estas fossem continuadas logo após sua morte mediante um legado destinado a oferecer bolsas a investigadores jovens. Já em suas primeiras buscas encontra-se com o personagem que iria marcar grande parte de sua produção: Giordano Bruno. Tenta reconstruir seus sonhos, seu anseio de sanar as divisões religiosas que ensanguentavam a Europa do século XVI mediante uma renovação espiritual, sua fé no próximo amanhecer de uma nova era. Frances Yates realiza uma contribuição original e fundante ao desvelar o peso que haviam tido nas ideias de Bruno a Cabala judaica e os escritos esotéricos de Hermes Trismegisto - figura lendária que se acreditava anterior a Platão e contemporânea de Moisés, cujo Corpus Hermeticum havia sido traduzido pelos neoplatônicos florentinos do século XV -, como também ao estabelecer os nexos entre a arte da memória do nolano e o Ars Magna do filósofo catalão do século XIII Ramón Lull. Esta investigadora inglesa recusa em suas obras os tópicos comuns de uma historiografia baseada nos fatos escassos para abrir caminhos a uma nova história mais atenta ao frágil e ao inapreensível, às esperanças e aos sonhos. Traz à luz personagens obscuros e misteriosos que, como Lull, Bruno, Robert Fludd ou John Dee, imprimiram para sempre a marca d'água de suas ideias em nossa cultura. Para alcançar seus objetivos necessitou recorrer a fontes muito variadas, e é aqui onde se torna fundamental sua proximidade com o círculo warburguiano, já que incorpora o trabalho com as imagens - gravuras, emblemas, construções efêmeras, mapas, teatros da memória, livros ilustrados e tapeçarias - como evidência visual que permite referendar - ou não - a informação obtida por meio de outro tipo de documentos. Assim, em cada um de seus escritos assistimos a um contraponto entre o real e o imaginário, a um jogo de espelhos no qual as imagens, a poesia, as festas, os discursos retóricos e as representações dramáticas têm a mesma entidade histórica que os acontecimentos. A interpretação deste enorme corpus documental exige não só uma vastíssima erudição - e ela demonstrou que podia tornar-se especialista em diversas disciplinas - mas também o dom da intuição histórica para poder recriar essa complexa rede de relações que forma o tecido vivo da cultura. Como resultado deste manejo de fontes diretas, Frances Yates alcança um grau de intimidade com o passado poucas vezes atingido por outros historiadores, aproximando-se desta maneira de uma verdadeira compreensão da atmosfera espiritual de uma época. Em Theatre of the World (1969), o volume ao qual pertencem os fragmentos aqui publicados, propõe-se demonstrar que o teatro inglês do período elisabetano foi uma adaptação original do teatro antigo inspirada no ressurgimento de Vitrúvio propagado por John Dee, e as formas em que o teatro do Globo, do qual Shakespeare era acionista, pôde ter estado conectado com o teatro da memória de Robert Fludd.

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