Wolff
Francis Wolff (1950)
WOLFF, Francis. Notre humanité: d’Aristote aux neurosciences. Paris: Fayard, 2010
A questão do homem ultrapassa o plano meramente especulativo, transbordando tanto para a esfera do saber quanto para a esfera social e normativa.
- O conceito de humanidade serve de fundamento ao conhecimento científico: “Já que o homem é isso, pode-se saber aquilo.”
- O conceito de humanidade serve também de justificativa a ideologias morais e políticas: “Já que o homem é isso, pode-se ou deve-se fazer aquilo.”
- As quatro figuras do homem analisadas entrecruzam verdades e normas, respondendo tanto a “O que se pode saber?” quanto a “O que se deve fazer?”
- Uma figura da humanidade é definida como uma concepção filosófica — explícita ou implícita — que se apoia em conhecimentos científicos e fundamenta normas, regras ou valores.
- O termo “saber” é reservado exclusivamente ao conhecimento científico, sem extensão a crenças socialmente compartilhadas.
As figuras do “homem estrutural” e do “homem neuronal” foram extraídas das próprias práticas científicas, sem que nenhuma disciplina as formulasse explicitamente.
- O “sujeito assujeitado” e o “animal como os outros” foram deduzidos do ponto de vista convergente de diferentes disciplinas reunidas num mesmo paradigma — estruturalista ou cognitivista.
- Nenhuma dessas disciplinas formula explicitamente tal concepção filosófica do homem, que é apenas o ponto de fuga de seu objetivo comum.
Partindo das definições filosóficas do homem — e não das teorias científicas —, destacam-se as mais comuns e influentes da história.
- Da Antiguidade provém a ideia de que o homem é um “animal racional”, ser vivo distinto dos demais por possuir o logos.
- Essa ideia tem sua origem na filosofia de Aristóteles e se desenvolveu no estoicismo.
- Em santo Agostinho, a fórmula assume caráter nitidamente dualista: a animalidade é o destino do homem após a queda, e a racionalidade é a marca do espírito.
- Na filosofia tomista, a fórmula recupera um sentido mais aristotélico: a racionalidade é concebida como a forma da animalidade.
- Descartes criticou essa definição e, da filosofia clássica, legou outra definição metafísica: o homem como “a estreita união de uma alma e de um corpo.”
- O principal problema dos cartesianos era compreender como o homem pode ser um todo sendo a união de duas substâncias heterogêneas — uma alma pensante e um corpo extenso.
Aristóteles e Descartes são não apenas metafísicos, mas também cientistas, cada um fundando uma ciência natural em sentido distinto.
- Aristóteles funda e pratica a ciência natural na Antiguidade — essencialmente o que hoje se chamaria de biologia, especialmente a zoologia.
- Descartes funda e pratica a física matemática na modernidade.
- Ambos se concebiam tanto como “físicos” quanto como filósofos ou metafísicos.
As célebres concepções do homem em Aristóteles e Descartes só se compreendem plenamente no quadro de seus respectivos projetos epistemológicos — as revoluções científicas que cada um pretendia fundar.
- A ciência antiga da natureza concebida por Aristóteles apoiou-se numa certa concepção do homem — o “animal racional” — que era para ele o objeto por excelência do conhecimento científico.
- A ciência moderna que Descartes se propunha a fundar encontrou sua garantia na ideia de que o homem era “a estreita união de uma alma e de um corpo”, representando os dois polos — subjetivo e objetivo — da nova física.
- Em ambos os casos, essas concepções do homem não eram sem consequências morais e políticas: Aristóteles e Descartes as encaravam em sua própria filosofia, e outros as desenvolveram posteriormente.
- O animal racional da Antiguidade e a união da alma e do corpo da era clássica constituem duas “figuras do homem” — entrelaçamento de exigências científicas e morais.
Existe uma estreita correlação entre as quatro definições filosóficas do homem e as quatro grandes mutações na ordem do saber.
- Animal racional — nascimento da ciência natural na Antiguidade.
- União de uma alma e de um corpo — nascimento da física moderna na era clássica.
- Sujeito assujeitado — unificação estruturalista das ciências humanas no século XX.
- Animal como os outros — naturalização dos métodos de conhecimento do homem no século XXI.
A correlação entre definição filosófica e projeto científico parece inversa nas duas primeiras figuras em relação às duas últimas.
- Em Aristóteles e Descartes, as definições são explícitas e aparecem num discurso filosófico aparentemente autônomo, determinado por razões essencialmente metafísicas — mas sua razão de ser implícita é um projeto científico de conhecimento da natureza.
- Nessas duas primeiras figuras, é porque o homem é X que tal ciência está assegurada: a definição filosófica funda ou garante o projeto científico.
- Nas figuras do homem estrutural e do homem neuronal, as definições são implícitas, pois as ciências humanas pretendem independência de toda concepção “metafísica” do homem.
- Nessas duas últimas figuras, é porque tal conjunto de ciências está assegurado que o homem é X: o projeto científico funda ou garante a definição filosófica.
A aparente inversão da correlação entre figura do homem e projeto científico é, porém, passível de questionamento.
- Nas duas primeiras figuras, as definições do homem — apesar de sua autonomia aparente — são, na realidade, dependentes de exigências epistemológicas; e, em contrapartida, essas figuras permitem aos filósofos fundar seu projeto científico.
- Nas duas últimas figuras, os discursos científicos que parecem determinar, com plena autonomia, os contornos de uma figura do homem podem não ser tão independentes quanto pretendem de uma figura do homem posta a priori.
- A sociologia não se limita a evidenciar os traços irredutivelmente sociais da humanidade — ela precisa também postular a priori o caráter social de certas ações ou instituições para legitimar seus próprios métodos de investigação.
- As ciências cognitivas não se limitam a mostrar que o pensamento humano pode ser descrito como uma sequência de operações lógicas sobre símbolos abstratos — é preciso conceber o pensamento humano como um cálculo para justificar o paradigma cognitivista.
- A questão que permanece em aberto é: o que é primeiro e funda o outro — a ideia que se faz do homem, ou a ideia do que deve ser o conhecimento?
