Wittgenstein
Ludwig Wittgenstein (1889-1951)
FINCH, Henry L. Wittgenstein. Boston: Element Books, 1995.
Por que Wittgenstein não se fez entender mais facilmente? A própria pergunta revela um mal-entendido. É como perguntar por que uma época não consegue compreender outra, ou uma civilização, outra. Wittgenstein não escondeu o fato de que não se identificava com sua própria época e escrevia para alguns amigos espalhados aqui e ali, e para um tempo que ainda não havia chegado.
Ele se expressava com a maior clareza, como os estudantes logo descobrem. A obscuridade filosófica não era o problema. E, de fato, a clareza luminosa de sua escrita é um dos principais fatores que convence os estudantes de que estão lidando com um grande filósofo, mesmo que não compreendam o que ele está dizendo. (Aqui mesmo temos outro mito: que todos podem compreender a todos se se esforçarem o suficiente.)
Wittgenstein sabia que era inútil tentar fazer-se entender por aqueles que, por qualquer motivo, não conseguiam compreender. Não apenas inútil, mas às vezes até prejudicial, pois preconceitos iniciais poderiam até levar a graves deturpações. Ele havia sido vítima de mal-entendidos por parte de alguns dos mais inteligentes de seus contemporâneos — uma vez quando membros do Círculo de Viena dos positivistas lógicos, cuja posição era diametralmente oposta à de Wittgenstein (eles eram expoentes do cientificismo, ou seja, da metafísica científica substituindo a religião), reivindicaram Wittgenstein como um dos seus, dando origem a uma impressão sobre ele que não poderia estar mais distante da verdade. A segunda vez foi quando, já mais tarde na vida, um escritor da revista Mind declarou que a filosofia tardia de Wittgenstein era uma “terapia linguística”. Wittgenstein sabia que era um “terapeuta” apenas no sentido em que Sócrates o era quando falava da “doença” de seu tempo. E a doença da época à qual Wittgenstein se referia incluía uma fé excessiva na psicologia e em algumas de suas “pseudo-explicações”.
A principal razão pela qual Wittgenstein não conseguiu se explicar melhor foi que sua filosofia era inovadora demais para ser expressa nas categorias familiares nas quais seus contemporâneos insistiam. Nesse aspecto também ele se assemelhava a Sócrates, que foi condenado à morte como sofista, embora o sofismo fosse, no aspecto mais crítico, exatamente o oposto do que ele acreditava. Os poucos que conseguiam compreender Sócrates tiveram a experiência de ouvir os sinais de uma era totalmente nova, até mesmo a era vindoura da Europa cristã. Ele “falava da alma individual de uma nova maneira”.
