0 Introdução
CHAUVIRÉ, Christine. L'immanence de l'ego: De Kant à Wittgenstein. Paris: Presses Universitaires de France, 2009.
Introdução: O Predicamento Egocêntrico
1. A ideia do ego como habitante de um corpo deve ser abolida.
2. Assim como nenhum olho físico está implicado no ver, nenhum ego está implicado no pensar ou no ter dor de dente, razão pela qual, em vez de dizer “ele pensa”, seria preciso dizer, como propunha Lichtenberg, “isso pensa”, no sentido impessoal em que se diz que relampeja.
3. O que caracteriza a experiência primária é que nela o “eu” não designa um possuidor.
4. O solipsismo ensina uma lição ao estar a caminho de destruir esse erro, pois, se o mundo é uma ideia, não é a ideia de ninguém, conclusão diante da qual o solipsismo recua ao afirmar que o mundo é a minha ideia.
5. Se todos os corpos humanos fossem vistos num espelho e houvesse um alto-falante emitindo sons quando movessem a boca, a ideia de um ego que fala e vê mudaria consideravelmente.
6. Embora os primeiros trabalhos ingleses e franceses das décadas de 1950 a 1970 tenham apresentado Wittgenstein, com razão, como autor de uma crítica devastadora do sujeito, do Cogito e do mito da interioridade, em sintonia com a filosofia sem sujeito dos estruturalistas e em oposição à fenomenologia de Husserl e Sartre, o Tractatus, participando da crise do eu na Viena da virada do século, conserva também o resíduo de uma filosofia transcendental de tom kantiano, na qual o sujeito, esvaziado de toda substância e reduzido a um ponto inerte no limite do mundo, é mantido em oposição ao sujeito empírico entregue à psicologia, despsicologização que o segundo Wittgenstein prolongará ao deslocar a questão para a gramática do pronome “eu”, após uma fase intermediária eliminativista comparável à construção lógica do mundo de Carnap, sem que o sujeito, embora gramaticalizado, deixe de resistir ao sonho de uma linguagem perfeitamente objetiva.
7. Desde os Cadernos, o pensamento do sujeito inscreve-se no problema de que a linguagem não pode dizer tudo, pois há coisas inexprimíveis, como os valores éticos e estéticos, o lógico, o religioso, o místico e as propriedades formais da linguagem, que se mostram no discurso sem poderem ser ditas nele nem em outra linguagem, já que só existe a linguagem ordinária, perfeitamente em ordem, que se justifica internamente e cuja forma lógica lhe é imanente, e não objeto de intuição separada como em Russell, de modo que nem mesmo uma conceitografia aperfeiçoada poderia representar essas coisas, mas apenas deixá-las mostrar-se, como nas diferenças categoriais, sendo a essência da linguagem algo que só se manifesta imanentemente por sua capacidade de refletir o indizível.
8. Nos Cadernos, é um fato de linguagem, a existência dos possessivos “meu” e “meus”, que introduz o sujeito na filosofia, forçando a barreira do dizível sem ultrapassar seu limite, pois não se pode dizer que há um sujeito, mas isso se mostra no fato de os limites da minha linguagem serem os limites do meu mundo, primeiro passo rumo à imanência do ego à linguagem, na qual o sujeito não substancial situado no limite da linguagem, sem ter o mesmo estatuto das formas lógicas indizíveis, se assemelha a um traço formal do discurso, ao passo que, se fosse substancial, seria uma entidade paradoxal que só daria origem à experiência apagando-se, e as formas lógicas, refletidas no discurso, tampouco poderiam ser ditas em qualquer metalinguagem, já que a mostração reflexiva dispensa toda ascensão semântica e a linguagem lógica do Tractatus está no mesmo plano do discurso comum, cujas propriedades formais apenas exibe com mais nitidez, sentido essencial da distinção entre o que se diz e o que se mostra.
9. Se apenas os enunciados factuais têm sentido, os enunciados metafísicos que tentam capturar o sujeito e atribuir-lhe privilégios exclusivos, como em Descartes, são contrassensos, e do sujeito não se pode dizer nem mesmo que se mostra na linguagem, mas apenas que nela há marcas de subjetividade, sendo a própria linguagem, por meio dos possessivos das declarações solipsistas como “eu sou o meu mundo”, fascinantes mas literalmente sem sentido, que introduz o sujeito apenas apontando para ele, sem afirmá-lo nem tomá-lo como objeto, manifestando que em filosofia deve tratar-se de um sujeito do qual quase nada se pode dizer, despojado dos privilégios fundadores e da autoevidência que a tradição cartesiana lhe conferiu.
10. Expressões ordinárias como “minha linguagem” têm sentido, sendo enganoso apenas seu uso metafísico, o que torna problemático o estatuto das frases solipsistas do Tractatus, cujo sujeito reduzido a um ponto no limite do mundo só se deixa abordar pela metáfora do olho coordenado ao campo visual, e embora o Tractatus fale dele sobretudo para dizer o que ele não é e para fazê-lo portador da vontade ética capaz de mudar qualitativamente o mundo a partir de sua fronteira, reconhece implicitamente em “eu” e “meu” um papel formal de configuração do discurso, compatível com a posição do sujeito no limite da linguagem e do mundo.
11. A egocentricidade da experiência, que a partir da década de 1930 se revelará um privilégio gramatical, não pode ser expressa com sentido, e o eu puntiforme do Tractatus, diferentemente da consciência sartriana arrancada de si em direção ao mundo, não é abertura nem flecha intencional, mas condição a priori de um mundo que, como o campo visual, é meu sem que eu seja seu proprietário ou possa entrar nele, mundo fechado e delimitado a partir de cujos limites apenas o sujeito ético se manifesta diante do mundo como totalidade.
12. No início da década de 1930, a retomada do sujeito como ponto de origem da experiência prolonga os Cadernos, pois a experiência é vivida a partir de um ponto de vista não representável no mesmo espaço lógico das coisas experimentadas, à maneira da origem de um sistema de coordenadas que permite localizar os pontos sem ser localizada por eles, da legenda de um mapa ou do olho que não pertence ao próprio campo visual, de modo que o privilégio da linguagem da qual sou o centro não pode ser expresso em palavras, e a única solução está na aplicação da linguagem, que, como os índices de Peirce, ancora a descrição no real, já que a posição privilegiada reside na aplicação e não em sua descrição, sob pena de regressão ao infinito.
13. Na época em que se interessa pelo solipsismo do instante, Wittgenstein desenvolve análises paralelas de “eu”, “aqui” e “agora”, nas quais “agora” tem a gramática de um sinal, como a campainha do teatro, mais do que de um indexical no sentido de Perry, pois dizê-lo é instituir a origem de um sistema de coordenadas temporais e configurar globalmente o discurso, um fazer que ultrapassa o simples dizer e permite jogar lances nos jogos de linguagem, características que valem também para “aqui” e “eu”, ao qual se reconhece menos uma função designativa do que a dupla função de instaurar um sistema de referência e de iniciar um discurso ulterior, sendo que, se “eu” indica algo, é derivadamente o ponto de referência de um sistema, e não a pessoa que fala, como a letra “O” das coordenadas, e não a posição de algo entre os objetos.
14. Dizer “eu” estabelece não só um ponto de origem, mas também o sistema correspondente, e a suposta sensibilidade ao contexto dos indexicais deve ser entendida não como complemento que confere referência ao signo, mas como valor de instituição da enunciação, que não determina aquilo a que a palavra se refere, mas estabelece por si mesma um ponto de origem e inicia um jogo de linguagem, à maneira de um toque de sino que desencadeia uma ação, de modo que “agora” é mais prescritivo que designativo e o “eu sei” do aluno que responde ao professor, equivalente a levantar o dedo, inaugura uma resposta, confirmando que “eu” configura o discurso de modo próprio, inexistente nos nomes, e que dizer “eu” é iniciar uma fala subjetiva, fato de gramática.
15. A metáfora do olho leva também a dissociar o sujeito de toda ideia de propriedade, prolongando um motivo do Tractatus, pois o sujeito não é proprietário do mundo assim como o olho não o é do campo visual, que por essência não tem possuidor, dono interno ou externo, vizinho nem exterior, e não pode ser possuído, dado ou partilhado, num poder que é gramatical, mas apenas suprimido ao fechar os olhos ou parcialmente ocultado, assim como no Tractatus o mundo cessa com a morte.
16. Tampouco se é possuidor da própria experiência ou da própria dor, já que “ter” não indica aqui relação de propriedade, pois “eu tenho dor de dente” e “ele tem dor de dente” não estão no mesmo nível gramatical nem são valores de uma mesma função proposicional, a dor não é transferível como uma bolsa e “eu” não denota nenhum possuidor nem pessoa, não sendo mais um enunciado sobre alguém do que um gemido, de modo que atribuir a mim a dor nada acrescenta e é impróprio falar de um ver ou de um ter, e portanto de um sujeito ou de um Eu, a propósito de uma representação.
17. Outra ideia diretriz, vinda de Hume por meio de Mach e Russell e presente desde os Cadernos, é que na experiência o sujeito nunca se encontra como os objetos do mundo, havendo uma assimetria pela qual ele é o que resiste à objetivação, e em certos usos, como no Cogito, “eu” não tem referente nem é um nome, pois “eu” e “Ludwig W.” são instrumentos de função gramatical diferente, que não dizem a mesma coisa nem coisas diferentes, mas não são substituíveis sem perda de significação, de modo que dizer “eu” não é falar de outra coisa que do próprio corpo ou pessoa, mas falar deles de outro modo, alterando as regras do jogo linguístico e introduzindo uma fala subjetiva, permanecendo em filigrana a tese de que a função de “eu” é configurar formalmente o que o cerca, já que, como dirá Benveniste, quem diz “eu” se torna centro do discurso.
18. Voltando ao Tractatus, o sujeito não é objetivável nem experimentável, pois só se experimenta o Eu empírico, que entra na experiência como objeto e até, em grande parte, no campo visual, como no célebre desenho de Mach, e que pode ser estudado pela psicologia e observar-se parcialmente, constituindo objeto de discurso factual e sensato sem ser o sujeito no sentido do Tractatus.
19. O sujeito metafísico entra na filosofia como contrabando, pela porta estreita da gramática e não pela grande porta da intuição metafísica do “penso, logo existo”, graças ao uso solipsista dos possessivos que mostra que, num sentido profundo, o mundo é meu mundo, isto é, que toda linguagem deve ser compreendida a partir de um ponto de vista não identificável nela, centro autoapagado da compreensão, e desde então o sujeito faz ressurgir, como compensação por não admitir descrição sensata, um privilégio, uma assimetria e uma egocentricidade indicados pela gramática, cuja possível eliminação constitui a questão do início da década de 1930.
20. No Tractatus, o sujeito é mantido como filosoficamente indispensável e único ponto de vista irredutível, embora, ao contrário do sujeito clássico de Descartes, Kant e Husserl, seja incapaz de reflexividade, não seja intencionalmente dirigido a um objeto nem doador de sentido, salvo em ética, e, reduzido a um simples ponto de perspectiva numa redução kantiana levada ao extremo, receba o papel de portador da vontade ética, de modo que o que se retira do sujeito cognitivo se transfere ao sujeito ético, um único sujeito, rigorosamente impotente diante de um mundo onde tudo é acidente, porque o alvo do Tractatus é mais o solipsismo do que o sujeito, ao passo que o da segunda filosofia é a ilusão gramatical do Cogito, a má compreensão da experiência privada e até a distinção entre interior e exterior, tida por lógica ou gramatical.
21. Se para o primeiro Wittgenstein importa manter um sujeito no limite do mundo, para o segundo a metafísica do sujeito apenas traduz a ignorância da gramática da linguagem ordinária ou a falta de visão sinóptica, e a questão do sujeito é recolocada em relação à gramática, pois, após uma tentativa passageira e eliminativista de dispensar o “eu”, conclui-se que todas as linguagens se equivalem e que sua omissão não torna incompleto o que é dito, cabendo perguntar pelo sentido do “meu” solipsista e pela natureza gramatical da egocentricidade, questões respondíveis apenas por uma egologia gramatical que estude os usos normais e filosóficos de “eu”.
22. A partir do retorno à filosofia em fins de 1929, a investigação gramatical dos usos de “eu” na diversidade da linguagem produz uma desmistificação das filosofias do sujeito, cujos usos não referenciais arruínam, segundo Descombes, as filosofias do Cogito e da consciência em seu alcance fundador, e as análises corrosivas de 1929 a 1935, da linguagem sem “eu” à crítica do papel referencial do ego no Livro Azul, dão lugar, após as Investigações, ao estudo mais positivo dos marcadores de subjetividade e dos verbos psicológicos em primeira pessoa, revelando plenamente a imanência do sujeito à linguagem, cujo ser é puramente linguístico e cujo ego, como o substantivo “espírito”, não deve ser hipostasiado, sendo apenas um traço persistente da linguagem cujas propriedades gramaticais nada têm a ver com os privilégios cognitivos ou fundadores clássicos, bastando uma gota dessa gramática para dissipar a nuvem da metafísica do sujeito.
23. Após o Livro Azul e sobretudo na última filosofia da psicologia, destacam-se duas ideias-força, a do valor expressivo e da assimetria dos enunciados psicológicos em primeira pessoa, exteriorizações próximas das confissões de Ryle, que não descrevem, não são verdadeiros nem falsos nem se baseiam em observação ou verificação, ao contrário dos enunciados em terceira pessoa, e a da dimensão performante dos enunciados egológicos nos jogos de linguagem, já que a linguagem deixa de ser um conjunto de fatos para tornar-se um conjunto de jogos com atos, nos quais um enunciado vale pela função que o jogo lhe atribui, contendo em germe a teoria dos performativos e dos atos de fala.
24. Essas análises reposicionam construtivamente a subjetividade, concebendo um sujeito desmistificado e imanente ao discurso, com os enunciados em primeira pessoa como “estou com dor” situados no registro das expressões, opostas às descrições em terceira pessoa ou no passado, extensões aprendidas e articuladas das reações naturais de dor e alegria enraizadas no instinto e pertencentes aos comportamentos de dor, o que ancora a subjetividade na natureza e na linguagem e faz de seus dois polos a expressividade das frases egopsicológicas e o caráter performante da enunciação de “eu”, que instaura a origem de um sistema de referência e permite realizar atos, colocando o sujeito, antes de Austin, Searle e Benveniste, no centro da linguagem e da ação, em reserva de todo ser mas no centro de todo dizer, relativizando a função figurativa da linguagem do Tractatus, limitada ao discurso factual, e oferecendo, embora o ego seja, como em Nietzsche, uma superstição da gramática indo-europeia, uma gramática de “eu” com funções reais e centrais, até que, em Da Certeza, a subjetividade se torna a do sujeito da certeza ou da incerteza, enquanto o sujeito da vontade, longe de confirmado como portador da ética, é minado pela denúncia do mito das volições, já que querer querer conduziria a uma regressão ao infinito.
