3.3 Dialética
Addio alla verità. 2009
Dialética, diálogo e dominação
1. A filosofia está sempre adiante de seu tempo, como mostra o objetivo pós-estruturalista de inverter o platonismo, que há quarenta anos parecia exagero retórico e hoje se revela atual, porque a reação autoritária da metafísica em luta contra sua dissolução se tornou visível e intolerável, a ponto de noções como diálogo e democracia, respeitadas nos anos 1960 e 1970, serem hoje avatares ideológicos suspeitos à primeira vista, já que ninguém crê realmente que o diálogo resolva os problemas entre indivíduos, grupos e culturas, e quem ainda adota essa retórica é platônico tardio, metafísico que confia na objetividade de sua verdade e espera vê-la triunfar numa troca de opiniões livre de interesses, paixões e ignorância, pois o platonismo é dialógico porque a fé numa verdade que os bem-intencionados sob orientação competente sempre intuirão é a condição que torna o diálogo produtivo, sendo Sócrates o timoneiro de muitos diálogos, o filósofo que, segundo Nietzsche, matou a tragédia ao impor a convicção de que o mundo é ordem racional e de que os justos nada têm a temer, esquema que sustenta também a Poética aristotélica, criticada por Brecht como otimismo dos vencedores, em que os sofrimentos de Édipo se justificam e o espectador aprende pelo sofrimento, analogia que ilumina o espírito soberanista de ambos.
2. A questão já posta por Nietzsche em sua crítica ao socratismo é se a ordem do mundo que garante o desfecho correto do diálogo e justifica a tragédia é realmente justa, racional e universalmente válida, postulado que fundamenta o método platônico, sem que Nietzsche objete a falsidade teórica dessa visão, mas constatando que esse credo mata a tragédia por ter efeito prático quietivo, no sentido de Schopenhauer, criando uma consciência meio satisfeita e meio cansadamente resignada diante de um mundo que segue seu curso.
3. Sem exagerar as implicações práticas do diálogo platônico e da doutrina aristotélica da tragédia, pode-se observar nesta última um componente de aceitação resignada próximo da submissão, e perguntar se o eureca do escravo que descobre um teorema é realmente grito de alegria ou expressão mais ambivalente, sensibilidade nova aos elementos de dominação presentes na estrutura do diálogo, por séculos tomado como modelo da argumentação racional, que se explica porque o fim da metafísica, de que falam Deleuze e Lyotard na esteira de Heidegger e Nietzsche, chegou a uma fase aguda de posturas defensivas cada vez mais explícitas e violentas, devendo-se lembrar que metafísica designa não apenas uma disciplina, mas uma época da história do ser, a da identificação do ser com o ente, que em Parmênides e Platão era atributo das ideias eternas dadas ao intelecto como formas puras.
4. A filosofia e a cultura ocidentais, inclusive material, tornaram essa ordem cada vez mais real, instanciada na sociedade da organização total possibilitada pela ciência e pela técnica, de modo que a metafísica, ordem racional em que cada ente se encaixa na cadeia de causas e efeitos, chega ao fim ao revelar-se intolerável justamente por estar plenamente realizada, tendo o colonialismo e o imperialismo europeus sido seus modos de tornar-se ordem do mundo e a revolta dos povos colonizados um exemplo da recusa dessa ordem, enquanto os novos senhores, conglomerados de poder econômico global, recusam abandonar sua posição dominante e a tela ideológica já não oculta a luta, convertida a guerra fria em guerra quente por valores cada vez mais materiais, como os recursos energéticos, selvageria comparável à que Nietzsche via na concorrência capitalista de seu tempo, de modo que no mundo do fim da metafísica se torna impossível falar de verdade, sendo a máxima segundo a qual não há fatos, só interpretações, possível porque a unidade da verdade e da ordem do mundo se tornou impronunciável, sob pena de revolta vitoriosa dos excluídos, invertendo-se o platonismo no diálogo, que já não vale pela esperança de encontrar a verdade ao final, mas pelo próprio fato de ser possível e de continuar, como diz Rorty, como mostra o diálogo inter-religioso, cujas declarações finais se limitam a generalidades de senso comum e cujo objetivo é apenas o próprio diálogo, que não permite derivar valores de uma verdade consensual, mas realizar-se pela conversa excluindo a luta violenta.
5. Segundo Hölderlin, o homem nomeou muitos deuses desde que somos um diálogo, isto é, várias verdades e vários deuses, e não uma única verdade unificadora, de modo que inverter o platonismo significa atribuir ao diálogo uma função diferente, pois, quando ele é busca de uma verdade única, gera sempre o impulso conflitual e a luta pela dominação, embora também promova a evitação do conflito, já que buscar oportunidades de diálogo evoca a necessidade de acabar com a luta violenta, surgindo uma dialética complexa entre conflito e diálogo que explica por que a retórica atual do diálogo soa vazia e hipócrita, pois a fase de luta precede o início do diálogo, assim como não há referendo sem constituição prévia, e a questão sempre reconduz à violência e à luta entre senhor e escravo descrita por Hegel, sendo ilusão perigosa, voltada a preservar o equilíbrio de poder vigente, substituir o conflito pelo diálogo, quando o conflito é necessário para estabelecer as condições do diálogo, saber que protege contra as ilusões ideológicas do poder e constitui também o limite normativo de toda luta de libertação, cuja motivação essencial é dar voz a quem não a tinha, como escreveu Benjamin, para quem o sentido do diálogo é antes de tudo começá-lo, o que confere sentido irônico às teorias da comunicação não opaca como fundamento da sociedade e reencontra a objeção de Vico a Hobbes, segundo a qual o contrato social originário pressupõe uma linguagem e um código de comunicação que o tornam possível.
6. Essa observação não implica que a filosofia deva ceder diante da necessidade da violência, mas que nenhuma teoria deve ignorar a fase fundadora que implica uma iniciativa emancipadora só qualificável como revolucionária, pois, embora Hobbes alegue que o contrato concerne apenas às origens remotas, já que sempre se está em condições estabelecidas, a violência originária revive sempre que o diálogo se converte em mero expediente pedagógico de tipo platônico, e, como diz Heidegger, a luta contra a metafísica nunca é ganha definitivamente, devendo toda evocação do diálogo como solução humana dos conflitos sociais conter uma teoria explícita do conflito que acompanha a instauração ou restauração das condições dialógicas, já que nunca existe uma situação constitucional normal e quem convida a agir como se existisse exprime a ideologia dos grupos no poder, equívoco que a teoria pode ao menos recusar-se a sustentar e ajudar a tornar menos pesado.
