1.6 Melancolia
STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).
6. O desdobramento, os monstros, a melancolia.
1. Fazer-se espectador do mundo e examinar-se a si mesmo tem por meta a unidade e a vida regrada, a reapropriação, mas paradoxalmente o contrário se produz, a unidade se esquiva e a cena interior se desregra.
2. Esse transtorno opera-se no pensamento e no discurso como consequência imprevista do desdobramento que separa o contemplador do objeto contemplado.
3. De início, a sabedoria da theoria aspira à posse de si, à autonomia, mas não basta observar o mundo como espetáculo, pois é ainda fazer demasiado caso da exterioridade, e é preciso tornar-se a si mesmo seu próprio teatro.
4. Segundo injunção formulada por Sêneca e acentuada por Montaigne, vós e um companheiro sois bastante teatro um para o outro, ou vós para vós mesmos.
5. A cisão necessária à observação faz necessariamente prevalecer a dualidade, dualidade a princípio aceita como estado provisório à espera da unidade consciente que sobrevirá quando o eu observado se tiver submetido aos mandamentos do eu observador.
6. Mas na experiência que Montaigne dela faz, a cisão autocontemplativa, longe de estabilizadora, torna-se princípio de uma pluralização rápida, e o desdobramento, em vez de assegurar a repetição do mesmo, abre a via à diferença e desencadeia toda a série dos plurais.
7. Pela brecha aberta, o múltiplo e as mudanças ilimitadas se engolfam e se apoderam do espaço oferecido, e o teatro que o eu é a si mesmo vê surgir uma multidão de figuras saídas de seu próprio fundo.
8. Admita-se que se trate de uma astúcia da linguagem, pois desde que o eu se torna gramaticalmente objeto nada impede que cada uma de suas paixões e ideias tenha por sua vez o mesmo estatuto de objeto quase autônomo.
9. A cena se povoa de intrusos e regê-la ou regulá-la se torna empresa desesperada, e o repouso, tão desejado, não se deixa alcançar.
10. Num passo importante que constitui o essencial do breve capítulo Do lazer, Montaigne reconhece que não obteve o benefício que primeiro esperara do retiro, pois ao retirar-se em sua casa deliberado a não se meter em outra coisa que passar em repouso o pouco que lhe resta de vida, parecia-lhe não poder fazer maior favor a seu espírito que deixá-lo em plena ociosidade a se entreter consigo mesmo.
11. Esperava que o espírito o pudesse fazer mais facilmente, tornado com o tempo mais pesado e mais maduro, mas encontra que, ao contrário, fazendo o cavalo escapado, ele se dá cem vezes mais trabalho a si mesmo do que tomava pelos outros.
12. O espírito lhe pare monstros e quimeras fantásticas uns sobre os outros, sem ordem e sem propósito, e para contemplar à vontade a ineptidão e a estranheza disso, Montaigne começou a pô-los em rol, esperando com o tempo fazer-lhe vergonha a ele mesmo.
13. É a primeira confidência que Montaigne faz sobre a origem mesma de seu livro, tendo-lhe sido preciso sofrer uma inversão do pró e do contra, um jogo malicioso dos contrários.
14. Desejava a calma e segura assença, a conversa silenciosa consigo só, mas em lugar disso conheceu o arrebatamento desordenado e a proliferação do cuidado, e em vez da vida regrada restituída a sua plena realidade viu nascer a horda abundante dos monstros e criaturas irreais.
15. Viu-se então constrangido a tomar ato deles, a registrá-los e a pô-los em rol, buscando socorro no ato de escrever e no livro a fazer, e como não renunciou à meta moral da edificação interior, teve de afetar de vergonha seu espírito.
16. Aquele que nesse texto diz eu e recorre à primeira pessoa do singular permanece em resta face ao afluxo das quimeras que descobre em si mesmo, e a unidade desejada é assim diferida e renviada para mais tarde.
17. É preciso primeiro domar o cavalo escapado e repreender o espírito faltoso como se admoesta uma criança, e a atitude contemplativa não é abolida por isso, mas em vez de instaurar de si a si uma simpatia aprobatória, constata a presença de uma alteridade que se recusa a toda identificação.
18. Nessa página, a pessoa se distribui por uma multiplicidade de instâncias: aquele que diz eu mantém com seu espírito, entidade distinta em posição gramatical de complemento indireto, uma relação de observação e ação.
19. O espírito por sua vez estabelece uma relação reflexa consigo mesmo, que se substitui à relação para com outrem, e além disso engendra a multidão desordenada dos monstros, e é em relação a essa emanação exterior, segunda progênie, que o sujeito primeiro retoma a atitude do contemplador.
20. A unidade pode encontrar refúgio, de um lado, na permanência do primeiro sujeito, testemunha perseverante da escapada de seu espírito e da sucessão dos engendramentos monstruosos, e de outro lado no rol final, registro que, na continuidade de seu espaço próprio, deve recolher a pluralidade irreal e descontínua das quimeras e monstros fantásticos.
21. O rol e a voz que profere o primeiro eu tenderão sempre mais a se reforçar um pelo outro.
22. Um outro texto sobre a gênese dos Ensaios deve reter paralelamente nossa atenção, o aveu que Montaigne faz a Mme d'Estissac no início do capítulo Da afeição dos pais para com os filhos.
23. É um humor melancólico, e por conseguinte muito inimigo de sua compleição natural, produzido pelo desgosto da solidão em que alguns anos antes se tinha lançado, que primeiramente lhe pôs na cabeça essa reserva de se meter a escrever, e depois, achando-se inteiramente desprovido e vazio de qualquer outra matéria, apresentou-se a si mesmo como argumento e assunto.
24. A explicação proposta não é menos importante que a precedente, e as duas frases desdobram uma cadeia de razões que fazem intervir, na origem dos Ensaios, uma causalidade complexa que se inscreve ao fio da duração e num triplo espaço, incluindo o mundo, o corpo e o espírito.
25. Montaigne incrimina uma disposição física, uma desordem do temperamento, o humor melancólico, ele mesmo produzido por um estado afetivo, o desgosto resultante da escolha momentânea da vida solitária, e o humor melancólico determina por sua vez a reserva, termo que se deve entender no sentido forte de delírio, loucura, obsessão, equivalente assaz exato das quimeras e monstros fantásticos do texto precedente.
26. Uma série de causas e efeitos se apresenta em que as modificações do corpo e do espírito se entre determinam, e o que deve deter-nos não é a interpretação que Montaigne faz valer implicitamente das relações da alma e do corpo, pois nada há aí que não seja conforme à antropologia médica herdada de Galeno.
27. A doutrina galênica é uma psicossomática que Montaigne pode aprovar sem dificuldade, mesmo que não creia muito nas deduções inverificáveis que dela tiram os médicos, e ela lhe parece adequada tanto no plano descritivo quanto no da imputação causal.
28. Conforme a convicção usualmente partilhada em sua época, Montaigne estabelece uma relação estreita entre solidão e melancolia, pois busca-se a solidão porque se é melancólico e torna-se melancólico porque se leva existência solitária.
29. Conhece também o risco de melancolia que acompanha toda vida intelectual, pois os de compleição melancólica passarão a vida a ler ou a escrever livros e os que votam sua existência aos trabalhos literários se expõem a tornar-se melancólicos, e não ignora que a melancolia pode ter dois efeitos contrários, a inspiração genial e a morna estupefação.
30. Sabe também que o atrabiliário, segundo as ideias médicas mais difundidas, é o homem que se encerra e desconfia, aquele cujo olhar inquieto vê o mundo como uma comédia sinistra, o misantropo que se crê cercado de inimigos mascarados.
31. Para a fisiologia da Renascença, a melancolia é com o sangue, a bile e o fleuma um dos quatro humores fundamentais cujo mistura determina o temperamento do indivíduo, e a feliz proporção dos humores faz do corpo um instrumento que a alma governa sem grande pena.
32. Todo desequilíbrio, e sobretudo o excesso de bile ou de melancolia, permite à paixão corporal tomar a alta mão, e a atividade voluntária é então eclipsada, sendo o homem levado a seu insciente por uma fatalidade material da qual não é mais responsável.
33. Incriminar a melancolia, como faz Montaigne, é desculpar-se da falta de escrever e fazer saber que não se tornou escritor de pleno grado, pois a causa se encontra nas trevas do corpo, na mais sombria das substâncias que nos compõem.
34. Se se presta atenção ao passo citado, o único ato voluntário mencionado por Montaigne é a escolha da solidão, na qual se lançou deliberadamente.
35. Com que fim? Lembremo-nos do texto da inscrição que mandou pintar nas paredes de sua livraria: a escolha da solidão equivalia, na intenção de Montaigne, à escolha da liberdade.
36. Desgostado dos encargos públicos e cansado da servidão do Parlamento, ele creu que a vida solitária seria a vida livre, mas eis que se assiste a uma inversão da mesma ordem que substituía o plural monstruoso à unidade virtuosa.
37. A solidão provoca o desgosto e a melancolia, e a esperança de liberdade se esvai, sendo preciso sofrer a lei do humor sombrio e sentir-se invadido pela reserva, que é alienação no sentido patológico do termo, começando então uma outra servidão.
38. Esse aveu pode ser posto em conta da coqueteria e da pretensão nobiliária, pois é malsoante a um nobre exercer o ofício de escrever, e Montaigne dirá a uma outra grande dama que é menos fazedor de livros que de qualquer outra obra.
39. O humor melancólico e a constrangimento laborioso que ele impõe têm valor de álibi momentâneo para um gentil-homem que, tomando a pena, ainda que para zombar dos fazedores de livros, esqueceu o que se deve.
40. O cuidado de escrever é, pois, consequência de uma intrusão da estraneidade que fez violência ao livre querer da alma e lhe subtraiu o fruto de seu primeiro esforço, e, para dizer melhor, o cuidado de escrever visa a reconquistar um domínio interno que põem em perigo as escapadas de seu espírito ocioso ou a irresistível invasão do desgosto melancólico.
41. Escrever constitui o último recurso para se retomar à passividade multiforme que suplanta a posse ativa que esperara, e a passividade reveste com efeito aspectos variáveis.
42. No texto precedentemente lido, não só o espírito de Montaigne fazia o cavalo escapado, mas se tornava produtor de monstros pela virtude de uma fecundidade espontânea, achando-se o sujeito primeiro na situação passiva de testemunha que assiste ao turbulento espetáculo surgido nele.
43. Entre os dois passos que explicam o início da empresa de escrever, a diferença principal reside no contraste entre a abundância evocada pelo primeiro e a vacuidade alegada pelo segundo, mas o transbordamento de imagens e o vazio relevam um e outro do excesso de humor melancólico, que se porta naturalmente aos extremos, fazendo-os alternar ou mesmo coexistir de modo surpreendente.
44. Filósofos e médicos desde a Antiguidade o repetiram, e Montaigne, falando da loucura do Tasso, disso se lembrou: Platão diz os melancólicos mais disciplináveis e excelentes, mas também não há nenhum que tenha tanta propensão à loucura.
45. Infinitos espíritos se arruínam por sua própria força e flexibilidade, e um dos mais judiciosos, engenhosos e mais formados ao ar dessa antiga e pura poesia saltou por sua própria agitação e alegria, não tendo de que agradecer a essa sua vivacidade homicida, a essa claridade que o cegou, a essa exata e tensa apreensão da razão que o pôs sem razão, à curiosa e laboriosa busca das ciências que o conduziu à bestice, a essa rara aptidão aos exercícios da alma que o tornou sem exercício e sem alma.
46. Nada de parecido há em Montaigne, mas somente a consciência de um perigo e o sentimento de uma inversão sempre possível.
47. Além disso, ao atribuir à melancolia uma parte decisiva na origem de seu livro, Montaigne fala dela como de uma causa inabitual, excepcional e contrária à sua verdadeira natureza, assegurando que é um humor muito inimigo de sua compleição natural.
48. Tornou-se, pois, escritor por ocasião de uma variação de humor que o tornou momentaneamente dissemelhante de si mesmo, novo aspecto da alteridade, pois um livro que será declarado consubstancial a seu autor nasce por ocasião de um desvio e de uma derivação passageira do curso acostumado da existência.
49. O começo da escrita é apresentado como uma aberração doravante irrevogável que um retorno a disposições menos sombrias não anulará, e fora das circunstâncias insólitas que primeiro o impeliram a ditar ou a tomar a pena, Montaigne continuará a escrever e não renegará a reserva que o fez autor, ainda que destituindo de toda autoridade esse livro cuja origem lhe parece tão fútil.
50. Se a melancolia foi para Montaigne um estado excepcional, é preciso medir a amplitude do desvio reportando-o ao que considera sua compleição natural, e os aveux não faltam, como o breve autorretrato físico em que diz ter a talha forte e arrematada, o rosto não gordo mas cheio, a compleição entre o jovial e o melancólico, medianamente sanguínea e quente.
51. A descrição não pode deter-se num tipo inteiro e puro, pois prevalecem o misto e o intermediário segundo o conceito de idiossincrasia, pelo qual a doutrina galênica faz caso da particularidade individual num sentido que pode acordar com as preferências nominalistas de Montaigne.
52. Essa compleição situada entre o jovial e o melancólico não se estabiliza num equilíbrio fixo e se exprime por uma sucessão de estados opostos, e a mutação, que Montaigne fará lei do mundo, governa ordinariamente seu próprio corpo e seu espírito.
53. Ora se está em tudo fazer, ora em nada fazer, e o que é prazer a certa hora será às vezes pena, fazendo-se mil agitações indiscretas e casuais em Montaigne, pois ou o humor melancólico o detém ou o colérico, e por autoridade privada ora o desgosto predomina nele, ora a alegria.
54. Demasiado móvel para pertencer a um só humor, inconstante por uma espécie de fatalidade fisiológica, Montaigne costeia a melancolia ou a ela se entrega brevemente para passar logo à sujeição igualmente transitória de outra potência interior.
55. No conhecimento que tem de sua compleição natural, Montaigne não vê prevalecer nenhum temperamento puro, mas a compleição estabelece um equilíbrio estritamente individual e um misto singular que a sabedoria médica e as regras da prudência recomendam respeitar.
56. O que Montaigne deixa entender é que empreendeu a busca melancólica da constância a partir de um momento de infidelidade à sua própria norma fisiológica, e a busca da identidade partia mal, destinada a ser subvertida pela inelutável variabilidade do temperamento.
57. Não é, pois, apenas na ordem do espírito que o desejo de se deter e assentar em si engendrava paradoxalmente a agitação, pois contrariava igualmente a lei do corpo que votava Montaigne às alternâncias de humor.
58. A empresa de escrever reconhece em seu princípio uma esperança de estabilidade inimiga do dado natural e destinada a conhecer tanto melhor a força da corrente quanto primeiro se dirigiu contra a corrente.
59. A contradição insolúvel resolve-se pela aceitação do paradoxo, pela coexistência dos contrários e pela reconciliação da identidade e da alteridade.
