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starobinski:1982:1.5

1.5 Exceção

STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).

5. A exceção.

1. Não é impossível que Montaigne, no início da redação dos Ensaios, tenha partido em busca de paradigmas de toda ordem e tentado escrever um manual do perfeito gentil-homem, mas sua atenção se voltou logo, como notam Friedrich e Stierle, para a exceção que desmente o paradigma e para a discordância entre as lições implícitas dos grandes exemplos e o que dizem os memorialistas dos efeitos ora favoráveis, ora desastrosos de uma mesma conduta.

2. Considerando os exemplos uns após outros, Montaigne os vê, por sua justaposição mesma, se contradizer e se entre destruir, e nenhum ato humano pode pretender a dignidade de modelo fixo e regra universal, havendo ocorrências singulares, eventos notáveis e pessoas fora do comum dignas de reter nossa reflexão.

3. Tais exemplos não chamam a imitação e, querendo-se segui-los, revelam-se inimitáveis e inaptos a balizar nossa rota e a nos assegurar a segurança, havendo portanto no passado como no mundo contemporâneo uma multidão de fatos dignos de curiosidade, mas nenhum com título a exercer plena autoridade sobre nossa existência.

4. Certos que sejam de que esses fatos não se equivalem e portam o rosto do mal ou do bem, e de que o veredito da consciência moral em Montaigne não é em geral vacilante, outra coisa é avaliar um ato famoso segundo sua qualidade moral e outra ver nesse ato o valor que orienta nossa própria ação.

5. Em última análise, os exemplos, por mais nobres que sejam, são remetidos ao posto de anedota, ao sentido de singularidade curiosa ou história prodigiosa digna de não permanecer inédita, e não assinalam senão sua existência singular, sendo exemplares apenas de sua possibilidade realizada.

6. Eles não indicam nada mais que sua ocorrência, muitas vezes contra toda espera e fora do curso ordinário do mundo, merecendo por isso nossa admiração, mas de modo algum nossa imitação.

7. Manifestando sua própria particularidade, designam através dela um mundo feito de particularidades dissemelhantes, um mundo da diversidade em que os testemunhos fabulosos merecem nossa audiência, e cada novo evento tomado por testemunha confirma mais a figura variegada de um mundo entregue à heterogeneidade, à passagem e à contradição.

8. É um lote a mais num amontoado de lotes, um lance da humana capacidade contingente e desprovido de autoridade normativa.

9. Sem dúvida, por tê-los recortado e pré-levantado para introduzi-los em seu próprio discurso, Montaigne percebeu de modo mais agudo sua aptidão a se deixar mobilizar, alterar e permutar, ou seja, sua qualidade de passagens no sentido ambíguo do termo.

10. A leitura dos autores doxográficos como Estobeu encoraja isso, e o exemplo não é mais um termo fixo que se eleva e luz através das vicissitudes do mundo corruptível, mas elemento desse mundo desordenado, instante de seu balanço e figura do fluxo universal.

11. O curso do tempo e o malefício da multiplicidade arrastam e destituem o exemplo, despojando-o de toda preeminência e de todo privilégio de permanência, e a figura paradigmática perde a autoridade universal de que fora investida e retorna à existência acidental de que não é mais que uma das manifestações.

12. A regra presumida se dissolve e se reabsorve na irregularidade do universo fenomênico, e em revanche o espetáculo do mundo histórico e natural, enriquecido neste século por tantas maravilhas assinaladas em outros continentes, toma aspecto inesgotável e abundante.

13. Talvez seja a insegurança que prevalece ao termo do alargamento enciclopédico dos quadros e das histórias, que, apesar do esforço de nomenclatura e classificação, recusam deixar-se submeter a uma ordem irrefutável e fazem estourar os quadros do saber tradicional.

14. Os monstros e os jogos da natureza reivindicam o direito de figurar no mesmo posto que as formas regulares, pois a natureza, em toda parte igual a si mesma, não saberia distinguir entre seus filhos uma descendência legítima e uma progênie bastarda.

15. O desvio não é mais senão uma das vias possíveis, e o escândalo da divergência se abole quando desaparece o privilégio de um fim e de uma via exemplar indiscutíveis.

16. Todo exemplo claudica, dirá enfim Montaigne, depois de nos ter ordenado de não claudicar diante dos homens exemplares, e então o circuito fechado da exemplaridade externa e da constância interna se torna irrealizável.

17. O apoio exterior vem a faltar e é preciso arriscar-se a viver sem a proteção concedida pelo exemplo, chegando Montaigne a dizer de sua própria vida moral que é exemplar bastante para se tomar a instrução ao contrário.

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