ADAEQUATIO
SCHUMACHER, E. F. A Guide for the Perplexed. New York: Perennial, 1977
O que capacita um homem a conhecer qualquer coisa que seja sobre o mundo ao seu redor? «Conhecer demanda o órgão ajustado ao objeto», disse Plotino (aC 270). Nada pode ser conhecido sem que haja um «instrumento» na conformação do conhecedor. Esta é a Grande Verdade da adaequatio (adequação), a qual define o conhecimento como adaequatio rei et intellectus: a compreensão do conhecedor deve ser adequada à coisa a ser conhecida.
De Plotino, de novo, vem o famoso dito: «Nunca o olho vê o sol a não ser que primeiro se torne como o sol, e nunca pode a alma ter a visão da Primeira Beleza a não ser que ela mesma seja bela». John Smith o Platonista (1618-1652) disse: «Aquilo que no capacita a conhecer e compreender corretamente nas coisas de Deus, deve ser um princípio vivo de santidade dentro de nós»; ao qual podemos adicionar a afirmação de Tomás de Aquino (125-1274) que «conhecimento vem na medida que o objeto conhecido está dentro do conhecedor».
Já vimos que o homem, em certo sentido, compreende os quatro grandes Níveis de Ser; há portanto algum grau de correspondência ou «conaturalidade» entre a estrutura do homem e a estrutura do mundo. Esta é uma ideia muito antiga e tem sido usualmente expressa por chamar o homem um «microcosmo» que de algum modo «corresponde» ao «macrocosmo» que é o mundo. Ele é um sistema físico-químico, como o resto do mundo e, também possui os invisíveis e misteriosos poderes de vida, consciência e auto-consciência, alguns dos quais também pode detectar em muitos seres ao seu redor.
Nossos cinco sentidos corporais nos fazem «adequados» ao mais baixo Nível de Ser — matéria inanimada. Mas podem suprir nada mais do que massas de dados sensoriais, para «fazer sentido» dos quais requeremos habilidades ou capacidade de uma ordem diferente. Podemos chamá-los «sentidos intelectuais». Sem eles, estaríamos incapazes de reconhecer forma, padrão, regularidade, harmonia, ritmo, e significado, sem mencionar vida, consciência e auto-consciência. Enquanto os sentidos do corpo podem ser descritos como relativamente passivos, meros recebedores do que acontece ao redor e até certo ponto controlados pela mente, os sentidos intelectuais são a mente-em-ação, e sua agudez e alcance são qualidade da mente ela mesma. Com relação aos sentidos corporais, todas as pessoas saudáveis possuem uma dotação similar; mas ninguém poderia possivelmente omitir o fato que há diferenças significantes no poder e alcance das mentes das pessoas. Com relação aos sentidos intelectuais, é portanto bastante irrealista tentar definir e delimitar as capacidade do «homem» como tal — como se todos os seres humanos fossem muito semelhantes, como animais da mesma espécie. As habilidades musicais de Beethoven, mesmo na surdez, eram incomparavelmente maiores que as minhas, e a diferença não estava no sentido da audição; estava na mente. Algumas pessoas são incapazes de apreender e apreciar uma dada peça de música, não porque são surdas, mas por causa de uma falta de adaequatio na mente. O sentido da audição recebe nada mais do que uma sucessão de notas; a música é apreendida pelos poderes intelectuais. Algumas pessoas possuem estes poderes a tal grau que podem apreender, e também reter em sua memória, um sinfonia inteira no esforço de uma audição ou de uma leitura da pauta; enquanto outras são tão fracamente dotadas que não podem absorvê-la de todo, não importa quão frequente e quão atentamente a escutem. Para os primeiros a sinfonia é tão real quanto era para o compositor; para os últimos, não há nenhuma sinfonia: nada há senão uma sucessão de mais ou menos agradáveis, mas ao mesmo tempo sem sentido, ruídos. A mente dos primeiros é adequada à sinfonia; a mente dos últimos é inadequada, e assim incapaz de reconhecer a existência da sinfonia. O mesmo se aplica através de todo um campo de experiência humanas possíveis e atuais. Para cada um de nós, só «existem» aqueles fatos e fenômenos para os quais possuímos adaequatio, e como não somos permitidos assumir que somos necessariamente adequados para tudo, todo tempo, e em qualquer condição que possamos nos encontrar, assim não somos permitidos insistir em que algo inacessível para nós não tenha existência em absoluto e que nada é senão um fantasma da imaginação de outras pessoas.
Há fatos físicos que os sentidos corporais captam; mas há também fatos não-físicos que permanecem não notados a não ser que o trabalho dos sentidos seja controlado e completado por certas faculdades «superiores» da mente. Alguns destes fatos não-físicos representam «graus de significância», para usar um termo cunhado por Mr. G.N.M. Tyrrel, que dá a seguinte ilustração:
Tomemos um livro, por exemplo. Para um animal um livro é meramente um forma colorida. Qualquer significância superior que um livro possa ter encontra-se acima de seu pensamento. E o livro é uma forma colorida; o animal não está errado. Indo um degrau acima, um selvagem iletrado pode olhar um livro como uma série de marcas em papel. Isto é o livro como visto em um mais alto nível de significância do que do animal, e algo que corresponde ao nível de pensamento do selvagem. De novo não está errado, só que o livro pode significar mais. Pode significar uma série de letras arranjadas de acordo com certas regras. Isto é o livro em um mais alto nível de significância do que o do selvagem… Ora finalmente, em uma nível mais alto, o livro pode ser uma expressão de sentido…
Em todos estes casos os «dados dos sentidos» são os mesmos; os fatos dados ao olho são idênticos. Não o olho, somente a mente, pode determinar o «grau de significância». As pessoas dizem: «Deixem os fatos falar por si mesmos»; esquecem que a fala dos fatos é real somente se é ouvida e compreendida. É pensado ser uma questão fácil distinguir entre fato e teoria, entre percepção e interpretação. Na verdade, é extremamente difícil.
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- A Grande Verdade da “adaequatio” e os Órgãos de Percepção e Compreensão
- Formulação do princípio da “adaequatio”: a impossibilidade de perceber ou compreender algo sem um órgão adequado.
- Limitação dos cinco sentidos e dos aparatos técnicos para registrar apenas o mundo visível, excluindo a interioridade e poderes invisíveis como a vida, a consciência e a autoconsciência.
- Identificação dos órgãos internos de percepção: a vida inconsciente no plexo solar para reconhecer a vida; a consciência centrada na cabeça para reconhecer a consciência; a autoconsciência na região do coração para reconhecer a autoconsciência.
- A Natureza Integral do Conhecer Humano
- Resposta à pergunta sobre os instrumentos do conhecimento: o homem conhece o mundo com tudo o que possui — corpo vivo, mente e espírito autoconsciente.
- Crítica à perspectiva cartesiana do “Cogito ergo sum” e valorização do conhecimento corporal, exemplificado pela inteligência das pontas dos dedos e pela citação de Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.
- Defesa da ideia de que o homem é um instrumento único de conhecimento e advertência sobre o empobrecimento da realidade ao restringir o conhecer aos dados sensoriais e ao processamento cerebral.
- A Restrição Cognitiva e sua Influência na Visão Científica do Mundo
- Citação de Sir Arthur Eddington sobre a possibilidade de todo o conhecimento científico derivar apenas da sensação visual simplificada.
- Consequência da restrição instrumental: a produção de uma imagem abstrata e mecanicista do universo, de acordo com o princípio da “adaequatio”.
- Questionamento sobre as razões que levaram a tal estreitamento na abordagem cognitiva.
- O Projeto Cartesiano e a Busca pela Certeza Quantificável
- Análise da autoconfiança de Descartes em estabelecer os princípios definitivos para a ciência admirável, baseada no que é mais fácil de representar.
- Identificação dos “pointer readings” (leituras de ponteiro) de Eddington como o correlato ideal da simplicidade e representabilidade direta almejada por Descartes.
- Caracterização do sentido da visão restrito como o instrumento cognitivo mais baixo, superficial e universalmente partilhável.
- A Objetividade Pública e a Perda do Significado
- Vantagem epistemológica do conhecimento baseado em leituras de ponteiro e contagem: a eliminação da subjetividade e a obtenção de um conhecimento público, preciso e verificável.
- Contrapartida negativa da restrição metodológica: a incapacidade de acessar os aspectos qualitativos, interessantes e significativos do objeto de estudo.
- Caracterização do quadro de mundo resultante como um “abominável da desolação”, um ermo sem significado para a existência humana.
- A Primazia do Modelo Matemático e a Perda do Fator Qualitativo
- Exposição do ideal cartesiano de uma cadeia de razões matemáticas para alcançar todo o conhecimento, tal como na geometria.
- Reconhecimento de que um modelo matemático do mundo só pode lidar com fatores quantificáveis, preponderantes nos níveis mais baixos do ser.
- Constatação de que, à medida que se sobe na cadeia do ser, a importância da qualidade aumenta e a do quantitativo diminui, tornando o preço do modelamento matemático a perda do que mais importa.
- A Mudança de Paradigma: De uma Ciência para a Compreensão a uma Ciência para a Manipulação
- Definição da mudança de interesse do conhecimento das coisas mais elevadas, em Tomás de Aquino, para o conhecimento matematicamente preciso de coisas menores, em Christian Huygens.
- Distinção entre “ciência para a compreensão” (ou sabedoria), com o propósito de iluminação e liberação, e “ciência para a manipulação”, com o propósito de poder, conforme Francis Bacon (“o conhecimento é poder”) e Descartes (“mestres e possuidores da natureza”).
- Advertência sobre a tendência da “ciência para a manipulação” de evoluir da manipulação da natureza para a manipulação das pessoas.
- A Distinção entre Sabedoria e Ciência segundo a Tradição
- Apresentação da distinção feita por Santo Agostinho, parafraseada por Etienne Gilson: a sabedoria tem por objeto o que é imune a usos maléficos, enquanto a ciência, pela sua materialidade, está constantemente em perigo de servir à cobiça.
- Ênfase na crucial importância de subordinar a “ciência para a manipulação” à sabedoria, para que seja uma ferramenta valiosa e inofensiva.
- Análise do desaparecimento do interesse pela sabedoria na história do pensamento ocidental pós-cartesiano, levando à primazia do poder material.
- As Consequências da Visão de Homem em Cada Tipo de Ciência
- Contrastação da visão do homem na “ciência para a compreensão” — feito à imagem de Deus, coroa da criação — com a visão na “ciência para a manipulação” — um acidente evolutivo, um objeto de estudo objetivo.
- Diferença nos requisitos cognitivos: a sabedoria exige as faculdades mais altas e nobres da mente; a ciência para a manipulação contenta-se com capacidades universais como leitura de ponteiro e contagem.
- Crítica à apropriação dos termos “científico”/“objetivo” e “não científico”/“subjetivo” para validar apenas o conhecimento publicamente verificável, negando a validade do conhecimento dos níveis superiores do ser.
- As Três Consequências Graves da Eliminação da Sabedoria
- Primeira consequência: o aprofundamento do desespero, angústia e perda de liberdade na civilização, devido à falta de estudo sobre o significado da existência, o bem, o mal e os deveres humanos, resumida na máxima “O homem não vive apenas de pão”.
- Segunda consequência: a visão de mundo vazia e mecanicista gerada pela ciência restritiva desencoraja o recurso à tradição da sabedoria, criando um ciclo de auto-reforço que barra os caminhos para a recuperação.
- Terceira consequência: a atrofia das faculdades superiores do homem, por falta de uso, leva ao declínio da qualidade humana e à acumulação de problemas insolúveis para indivíduos e sociedade.
- A Estrutura Ideal do Conhecimento e sua Relação com a Realidade
- Proposta de uma estrutura de conhecimento que espelhe a estrutura da realidade, com a “ciência para a compreensão” no topo e a “ciência para a manipulação” na base.
- Definição do papel de cada nível: a compreensão para decidir o que fazer; o conhecimento para a manipulação para agir eficazmente no mundo material.
- Características e Limitações da “Ciência para a Manipulação”
- Objetivo da ciência no nível da ação: a predição e o controle, formulados em receitas condicionais pragmáticas e objetivas.
- Aplicação do “navalha de Ockham” para concisão e a busca de instruções que minimizem o julgamento do operador.
- Natureza “pública” e amoral desse conhecimento, que pode ser usado para qualquer fim, gerando disputas por seu segredo.
- A Impossibilidade da Predição e do Controle nos Níveis Superiores do Ser
- Inadequação dos conceitos de predição e controle para o conhecimento dos níveis superiores, como na teologia, que busca apenas a compreensão.
- Relação inversa entre o nível de ser e a fixidez da natureza: maior plasticidade e liberdade nos níveis mais elevados, exemplificada pela máxima “Para Deus tudo é possível”.
- Graus decrescentes de previsibilidade do ser humano, desde o sistema físico-químico até a pessoa autoconsciente, devido à natureza da liberdade.
- A Paralisia da Vontade e a Proliferação de Falsos Absolutos na Sociedade Moderna
- Diagnóstico do homem ocidental como rico em meios e pobre em fins, com uma hierarquia de conhecimento decapitada.
- Crítica ao “pluralismo” moderno que trata múltiplos bens como fins em si mesmos, sem uma hierarquia de valores superior.
- Caracterização dessa condição como uma recaída na mitologia, conforme Etienne Gilson, com a proliferação de deuses em conflito, conduzindo ao caos social.
- O Obstáculo Representado pelo Pseudoceticismo e a Psicologia da Evitação
- Denúncia dos “pseudoagnósticos” que, dotados de conhecimento científico e generosidade social, mas sem cultura filosófica, usam o prestígio da ciência para impedir a restauração da sabedoria.
- Sugestão de Abraham Maslow de que a busca da ciência pode ser uma defesa, uma filosofia de segurança para evitar a ansiedade e os problemas perturbadores da vida.
- Identificação do desejo de escapar das noções tradicionais de dever, responsabilidade e pecado, este entendido como “errar o alvo” da vida humana.
- A Vontade como Fator Decisivo para a Crença na Realidade Moral
- Citação de William James sobre a vontade como fator decisivo para a adoção de crenças morais, já que o intelecto puro não pode decidir sozinho sobre a realidade moral.
- Afirmação de que o ceticismo mefistofélico, por fazer poucas exigências às faculdades superiores, satisfaz o instinto lúdico da mente melhor que o idealismo rigoroso.
- Constatação final de que o mundo moderno é cético em relação a tudo que exige esforço, mas não em relação ao próprio ceticismo.
