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Lição 11

SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Philosophie de la mythologie. Tradução: Alain Pernet. Grenoble: J. Millon, 1994.

A Religião Filosófica e seu Devir Histórico

  • Religião filosófica, inexistente enquanto realidade atual, constitui-se como termo final e sentido último do processo histórico-religioso, pois sua missão é tornar inteligíveis todas as religiões precedentes; sendo assim, sua realização não é imediata, mas objeto de um devir que exige paciência histórica e esforço contínuo, pois, tal como a filosofia, não pode ser alcançada diretamente, mas apenas mediante um desenvolvimento cuja duração é indeterminável. Este caráter teleológico não a torna uma quimera, mas uma exigência interna do espírito, um horizonte que orienta a compreensão do passado religioso e confere sentido à libertação progressiva da consciência, desde a necessidade mitológica até a liberdade espiritual, sendo, portanto, a religião revelada que, tendo atravessado a fase histórica, eleva-se à plena compreensão de si mesma.
  • Processo histórico das religiões obedece a uma dialética necessária, na qual a religião mitológica, cega e engendrada por processo necessário, precede cronologicamente as demais, por ser destituída de liberdade e espiritualidade consciente; a revelação, sobretudo aquela que penetra o próprio paganismo, como a revelação cristã, vence interiormente essa religião não-espiritual, liberta a consciência e abre o caminho para a religião livre, a religião do espírito, que, por sua natureza, só pode ser buscada e encontrada em plena liberdade, realizando-se completamente como religião filosófica. Assim, a religião filosófica é a religião revelada que, tendo passado pela história, torna-se consciente de si, superando tanto a necessidade mitológica quanto a autoridade exterior da revelação positiva.
  • Paganismo e sua crise na consciência grega representam o momento em que o processo mitológico atinge seu fim, surgindo os primeiros lampejos de uma filosofia que busca compreender a mitologia, sem, contudo, suprimir sua base real; o resultado do processo permanece na consciência como um resíduo, e a libertação completa é adiada para o futuro, inclusive pelos mistérios que, segundo Heródoto, foram elaborados pelos filósofos. Na religião mitológica, a relação primitiva entre consciência e Deus transforma-se em relação real e puramente natural, sentida como necessária, mas também como provisória, exigindo uma relação superior que a substitua e a torne inteligível para si mesma – eis o traço trágico que perpassa toda história do paganismo, antecipando, em expressões platônicas, algo que ainda está por vir, uma iminência ainda não reconhecível, que só se revelará plenamente no cristianismo.
  • Filosofia grega, de Platão a Aristóteles e às escolas posteriores, não logra compreender a mitologia como religião em sua singularidade, pois ora a vê como fonte de maravilhoso, ora como filosofia inconsciente e natural, ou a reduz a alegorias, sem captar seu caráter religioso específico; mesmo os neoplatônicos, embora busquem interpretá-la espiritualmente, obrigados que estão a combater o cristianismo, acabam por atribuir-lhe um conteúdo superior de modo extrínseco, associando à filosofia cerimônias teúrgicas, sem, no entanto, alcançar uma compreensão genuína, pois a mitologia deixa de ser religião para tornar-se uma espécie de filosofia extática, perdendo sua especificidade. Esta incapacidade indica que a verdadeira compreensão da religião mitológica só será possível a partir de um ponto de vista superior, alcançado após a revelação cristã.
  • Cristianismo, como negação do paganismo, age inicialmente como poder real incompreendido, obrigado, para enfrentar um inimigo externo poderoso, a comportar-se também como poder exterior e cego, concentrado na Igreja; este poder opressivo, porém, não é simples arbítrio humano, mas um poder que o cristianismo tomou emprestado do paganismo para combatê-lo. Após a vitória definitiva, o cristianismo relaxa sua tensão, deixando de ser princípio de conhecimento involuntário para tornar-se objeto de conhecimento voluntário, equiparando-se, nesse aspecto, ao paganismo. Sinais desse alinhamento são o entusiasmo renascentista pela antiguidade clássica, a representação de temas cristãos com formas aparentemente pagãs, e a atitude de escritores que se colocam acima de ambos, favorecendo, paradoxalmente, uma penetração profunda do paganismo no cristianismo, visível na formação de um clero privilegiado, sacrifícios, penitências e culto dos santos.
  • Reforma protestante reage a este cristianismo paganizado, opondo-lhe o cristianismo primitivo puro e as profecias apostólicas sobre um reino de liberdade; contudo, ao rejeitar a Igreja como revelação contínua, reduz a revelação a um fato passado, sujeito à crítica histórica, que progressivamente contesta sua verdade e possibilidade. A consciência, tornada independente da Igreja, busca então independência também em relação à revelação, orientando-se para um conhecimento livre e crítico, mas, inicialmente, cai sob o jugo de outra necessidade: a da razão natural, que mantém com o divino relações externas e formais, impondo suas próprias pressuposições não conscientizadas. Assim, a liberdade conquistada permanece abstrata e insuficiente.
  • Metafísica medieval, ou teologia natural, funda-se em três fontes de conhecimento natural independentes da revelação: a autoridade da experiência universal, a dos princípios considerados inatos (como a causalidade) e a da razão como poder de demonstração; seu objetivo principal é demonstrar a existência de Deus como causa primeira necessária do mundo contingente e finalizado, mas sua prova, partindo da experiência, não alcança certeza apodíctica, limitando-se a probabilidades. A razão, aqui, tem papel meramente formal e instrumental, subordinado à revelação, sendo ancilla fidei. Esta metafísica, produto da dianoia platônica, repousa sobre pressupostos obscuros e autoridades não questionadas, carecendo de um princípio único e de um método verdadeiramente científico.
  • Libertação da consciência das autoridades da metafísica medieval inicia-se com Bacon, que reduz as fontes do conhecimento à experiência sensível e à indução, e com Descartes, que, duvidando da realidade das representações sensíveis e da validade objetiva das verdades gerais, desfaz o tecido artificial da velha metafísica. Descartes, dando o primeiro impulso decisivo ao movimento de libertação total, busca um princípio absolutamente certo, independente de toda pressuposição, começando pela dúvida metódica e chegando ao cogito, mas seu método, ainda preso a conceitos intermediários e à crença na veracidade divina, não consegue fundar uma ciência verdadeiramente autônoma. Sua tentativa de provar a existência de Deus pelo argumento ontológico, considerando a existência uma perfeição, permanece insatisfatória, pois não demonstra como do ser perfeitíssimo emerge um mundo de limitações.
  • Malebranche avança ao afirmar que Deus é o Ser, o Existente universal, superando a concepção de Deus como ente particular; no entanto, sua distinção entre a substância divina absoluta e a relativa às criaturas permanece estéril para a compreensão do mundo, e ele recorre à incompreensibilidade para o espírito finito. Spinoza, por sua vez, radicaliza a definição: Deus é a substância única, infinita, onde essência e existência se identificam, sendo todas as coisas modos ou afecções desta substância. Para ele, tudo é eterno e decorre da natureza de Deus como a verdade geométrica decorre da essência do triângulo, negando qualquer distinção real entre Deus e o mundo, mas, ao introduzir atributos como pensamento e extensão conhecidos pela experiência, interrompe o desenvolvimento puramente racional, caindo numa metábasis eis állo génos. Apesar disso, sua formulação dogmática de que Deus é o Ser geral confere durabilidade à intuição cartesiana, ainda que à custa de devorar, em suas entranhas, tanto a ciência quanto a religião.
  • Tarefa futura da filosofia é buscar a ciência verdadeira, produto da razão pura, que supere tanto as pressuposições da metafísica tradicional quanto a abstração da liberdade meramente negativa; esta ciência, que Platão chamaria sophia, deve começar por um princípio certo em si mesmo, derivado da razão mesma, e progredir de modo sistemático, compreendendo não apenas a existência de Deus, mas a passagem do ser geral ao ser determinado, do Deus implícito ao Deus explícito. Só então será possível uma compreensão superior do cristianismo, que supere a razão natural sem abandonar a razão, preparando o caminho para a religião filosófica, onde o espírito, em plena liberdade, reconhece a verdade revelada como sua própria verdade. Este percurso é longo e exige coragem e perseverança, pois, como na vida, na ciência há decisões de preguiça e decisões de coragem, e muitos se detêm, exaustos, a meio caminho.
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