User Tools

Site Tools


schelling:philosophie-de-la-mythologie-livre-ii:licao-9

Lição 9

SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Clara, or, On nature’s connection to the spirit world. Albany, NY: State University of New York Press, 2002.

  • Domínio na consciência do falso Um (n’av exclusivo e anti-divino) em lugar do verdadeiro Um que nada exclui, sendo que tal princípio (B) não pode retornar diretamente à sua condição de potência, mas apenas através de um processo mediado pela segunda potência superior. Para ser superado, B deve tornar-se acessível e superável, o que implica abdicar de sua posição central de arqui-estase (Urstand) e aceitar tornar-se objetivo, periférico e material perante a potência superior. Contudo, opõe-se a essa materialização, desejando permanecer como centro espiritual, gerando assim um momento de conflito entre sua tendência a afirmar-se como espírito e a necessidade divina que o impulsiona à condição de matéria.
  • Conflito entre o princípio que aspira à imaterialidade e a potência superior que o subjuga como matéria, produzindo um desmembramento no qual o Um exclusivo, que a consciência quer afirmar como centro absoluto, se difrata involuntariamente ante ela em uma multiplicidade. Desse combate entre centralidade forçada e expulsão periférica nasce uma primeira multiplicidade de deuses, um politeísmo simultâneo que é, em essência, ainda monoteísmo, pois a multiplicidade não é desejada, mas o Um extravertido e fragmentado, um unum versum no qual a unidade subsiste sob a aparência da pluralidade.
  • Caracterização dos elementos resultantes desse desmembramento como espaciais, em movimento perpétuo e circular, por refletirem o esforço constante de B para retornar ao centro, do qual é sempre repelido. Esse movimento, sendo incessante mas não progressivo, equivale a uma rotação, analogia que fundamenta a identificação dessas entidades com deuses estelares, pois apenas os astros corporificam naturalmente um movimento circular essencial e não acidental. Tal visão conduz à compreensão do primeiro politeísmo como religião astral, na qual os deuses são antes estrelas do que as estrelas são deuses.
  • Rejeição da explicação empírica habitual para o culto estelar, que o deriva da observação e subsequente divinização de corpos celestes materiais. Pelo contrário, a religião astral emana de uma necessidade interna da consciência, sendo o resultado do processo pelo qual o princípio exclusivo (B), ao ser forçado à materialização, se fragmenta em uma multiplicidade que se apresenta como astral. O objeto do culto primordial não é o corpo material, mas o princípio supra-corpóreo, o astral puro (o simples B), que é o arqui-ser (Ur-seyn) anterior a toda formação concreta.
  • Consciência originária, ao reexcitar em si o prius natural (B), exclui os momentos posteriores e torna-se ela mesma astral, vivendo em um plano superior à natureza, em estado de êxtase (ser-fora-de-si). Nessa condição, não há mundo exterior para a consciência; as estrelas pertencem ainda a um mundo interior, e o culto dirige-se ao princípio único subjacente, não às figuras estelares particulares. A proto-religião astral é, portanto, um processo interno, um sabismo (termo adotado para designá-la), que precede a adoração de deuses estelares propriamente materiais.
  • Comprovação do caráter real e não meramente subjetivo do sabismo pelo fato de que essa potência dominou não apenas a representação, mas também a vida concreta da humanidade arcaica, correspondendo a um estado de ser-fora-de-si da consciência que se manifestou na vida nômade, pré-histórica e pré-política. O sabismo é a religião da humanidade ainda não dividida em povos, mantida sob a lei dessa religião por uma potência superior, conforme a imagem bíblica de que o Senhor deu o exército do céu por herança a todos os povos.
  • Duração relativa da época sabista, que atua como um monoteísmo mudo e unitário, um céu de chumbo que mantém a humanidade em calma e expectativa, preparando o terreno para a futura diferenciação dos povos e para o processo teogônico subsequente. A superação desse estado não ocorre simultaneamente para todos os povos, mas de maneira sucessiva. As três potências divinas, postas como deuses sucessivos diante da consciência, atuam como deuses formais ou causativos, cuja operação gerará posteriormente as divindades materiais não causativas.
schelling/philosophie-de-la-mythologie-livre-ii/licao-9.txt · Last modified: by mccastro

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki