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Lição 7

SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Clara, or, On nature’s connection to the spirit world. Albany, NY: State University of New York Press, 2002.

  • Crítica ao empirismo puro na investigação mitológica. Antes de avançar para uma verdadeira compreensão filosófica da mitologia, é necessário superar a abordagem meramente empírico-histórica que domina o campo. Tal postura, frequentemente cultivada como um apego exclusivo aos “fatos puros”, revela-se inconsistente até mesmo nas ciências naturais, as quais operam com pressupostos indemonstráveis empiricamente, como as moléculas na física. O sucesso dessas teorias reside precisamente em sua capacidade de explicar fenômenos sem apelar para faculdades intelectivas superiores, reduzindo tudo ao sensível. Na mitologia, contudo, essa atitude se manifesta no sério empenho com que estudiosos constroem narrativas históricas complexas e absolutamente indemonstráveis sobre sábios orientais e sua suposta transmissão poética de ideias ao povo, ao mesmo tempo em que taxam de fanatismo qualquer tentativa de abordar o fenômeno a partir de uma ideia espiritual. Isso configura um empirismo que, embora prosaico e desprovido de ideias, não deixa de ser uma teoria construída arbitrariamente.
  • Princípio metodológico fundamental: elevar o pensamento ao nível do objeto. A tarefa primordial de qualquer explicação é fazer justiça ao seu objeto, evitando reduzi-lo, truncá-lo ou simplificá-lo apenas para acomodá-lo a princípios filosóficos pré-concebidos. A questão correta, portanto, não é como torcer ou diminuir o fenômeno mitológico para explicá-lo com base em categorias já estabelecidas, mas sim até que ponto nossos pensamentos precisam ser ampliados para nos colocarmos em pé de igualdade com o fenômeno e compreendê-lo em sua plenitude. Quem teme tal ampliação intelectual deve, ao menos, ter a sinceridade de reconhecer que o fenômeno escapa a sua compreensão, abstendo-se de proclamar explicações inadequadas. As tentativas anteriores de explicar a mitologia são marcadas justamente por essa mistura impura de empirismo e pressupostos filosóficos a priori, onde filosofia e empirismo coexistem sem uma verdadeira interpenetração.
  • Necessidade de uma teoria simultaneamente científica, histórica, empírica e filosófica. Para ser adequada, uma teoria da mitologia não pode contentar-se em examinar representações mitológicas de modo isolado e aproximativo. Ela deve revelar sua conexão profunda e abrangente, restituindo-as com precisão em seu contexto genético. A verdadeira historicidade, que se confunde com a cientificidade, consiste precisamente em descobrir a causa genética inscrita no próprio objeto, um princípio de evolução interno e objetivo. Isso exige do investigador a renúncia a suas próprias ideias preconcebidas para seguir obedientemente o objeto em seu processo de gênese. Portanto, o objetivo deve ser estabelecer uma teoria que se desdobre sobre e com o objeto, sendo tão científica quanto histórica, tão empírica quanto filosófica, superando a falsa oposição entre escolas históricas e filosóficas.
  • Deslocamento do ponto de vista: da mitologia explicada para a mitologia que se autoexplica. A perspectiva almejada não é mais a de um sujeito externo que explica a mitologia, mas a de uma consciência instalada pela própria mitologia no interior de sua lógica. O conteúdo da investigação passa a ser a mitologia autoexplicando-se. Nesse processo, não se deve evitar as expressões próprias da mitologia, mas deixá-la falar em sua própria linguagem, uma vez que esta se torna compreensível a partir da perspectiva alcançada. Suas expressões, embora figuradas, não são mais impróprias para a consciência mitológica do que as expressões igualmente figuradas o são para a consciência científica. O objetivo não é buscar um sentido alegórico ou impróprio para as representações mitológicas, mas mantê-las em seu sentido próprio, compreendendo-as em sua autenticidade a partir da totalidade do processo. Se essa autoexplicação contradiz filosofias já prontas, o debate deve ser travado não com o intérprete, mas com a própria mitologia.
  • A incompreensão histórica da mitologia como indício de sua origem em uma consciência diferente. A teimosia com que a mitologia resistiu a todas as explicações anteriores demonstra que sua compreensão perfeita depende de uma evolução superior da consciência humana. Enquanto a filosofia tomar a condição atual da consciência como medida universal e eterna, nada poderá compreender daquilo que a transcende. Se a mitologia pudesse ser compreendida por meio de deduções psicológicas usuais ou de pressupostos históricos análogos aos do conhecimento presente, ela já o teria sido. Seu caráter de fenômeno incompreendido ao longo da história sugere que ela nasceu em circunstâncias radicalmente diversas das atuais, circunstâncias que só se tornam inteligíveis ao se aventurar para além dos limites da consciência presente. Inclusive os primeiros pensadores gregos, mais próximos temporalmente de seu nascimento, mostraram-se inadequados para captar sua profundidade, indicando que sua origem pertence a uma consciência totalmente diversa daquela da livre reflexão.
  • A lei suprema do mundo e sua personificação divina. Existe uma lei universal que exige que nada permaneça na indecisão, no oculto ou no contingente; tudo deve manifestar-se de forma clara, nítida e decidida. Esta lei, hostil ao equívoco, é personificada na figura de Nêmesis. Ela age sobre o poder-ser senhor de si mesmo (o princípio divino inicial), mostrando-lhe a possibilidade que nele repousa: a possibilidade de ser também o contrário de si. Essa revelação não visa à realização efetiva do contrário, mas a que o ser seja livremente o que é, precisamente através da recusa do oposto. Nêmesis é, portanto, a potência que põe tudo em movimento, que incita a vontade até então imóvel a querer ou a recusar, sendo a causa da transição para o processo mitológico. Sua identificação com Adrasteia reforça essa ideia, pois Adrasteia é a potência que faz advir o não-avenido, que impele ao movimento aquilo que resiste a mover-se.
  • Paralelo entre a concepção mitológica e a concepção bíblico-cristã. A ideia de que a Divindade intencionalmente coloca a criatura diante de uma alternativa para que sua felicidade seja uma aquisição própria, e não passiva, não é apenas pagã. No Antigo Testamento, Deus revela ao homem a possibilidade do contrário através da proibição de comer do fruto da Árvore do Conhecimento. A própria Lei, ao proibir, revela a possibilidade da transgressão, tornando-se ocasião para o pecado. Essa estrutura é idêntica, em sua ideia essencial, à representação mitológica que vê em Nêmesis a causa da transição funesta. As palavras gregas para lei (nomos) e Nêmesis são inclusive etimologicamente aparentadas, corroborando essa identidade conceitual profunda entre a lei que revela a possibilidade do mal e a potência divina que instiga o movimento.
  • A potência enganadora que se apresenta à vontade. O poder (Können) que se apresenta à consciência como incondicionado é, na verdade, apenas aparente e transitório. Enquanto permanece em si, imanente, é poder; ao se exteriorizar, deixa de sê-lo. Este poder que se mostra como potência para um outro ser é uma magia ilusória, uma 'Apátē' (Engano). Em Hesíodo, 'Apátē' não significa mentira comum, mas o Engano primordial (Ur-täuschung), origem de toda a vida ilusória do homem alienado de seu ser. Esse poder ilusório que se apresenta à vontade como incondicionado constitui a tentação. É necessária uma tentação para incitar a vontade a sair de si mesma. Na Antiguidade, esse tentador imediato é frequentemente representado pela figura da serpente, símbolo da ambiguidade maléfica que, enrolada sobre si, representa a imobilidade, mas que, ao desdobrar-se, revela sua mordida mortal. A serpente é a imagem da possibilidade equívoca que age sobre a vontade, precipitando-a no processo mitológico.
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