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Lição 10
SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Clara, or, On nature’s connection to the spirit world. Albany, NY: State University of New York Press, 2002.
- Insustentabilidade da tensão do estado sabista, que repousava sobre um combate entre o princípio exclusivo (B) que resistia à materialização e a potência superior que a impunha, levando necessariamente a um momento de transição no qual B, renunciando à sua exclusividade, aceita tornar-se matéria relativa (potencializado externamente) perante a potência superior. Essa passagem não é um retrocesso à potência interna, mas uma potencialização relativa, pela qual B permanece positivo em si, mas se torna matéria (reell) e superável para a potência superior, configurando um ser que é em si atual e, ao mesmo tempo, potencial em relação a outro, precisamente a noção de matéria ainda incorpórea.
- Solução da contradição pela via de um terceiro estado: B, incapaz de manter-se exclusivamente atual nem de retornar à pura potência, encontra uma saída (echappatoire) ao tornar-se, em si, sendo e não-sendo ao mesmo tempo perante a potência superior. Ao cessar de ser o ser exclusivo e ao potencializar-se externamente, abre-se para a potência superior e começa a reconhecê-la. Esta potência superior, agora central, é denominada potência relativamente espiritual (A²), enquanto B, ao materializar-se, torna-se periférico e objetivo.
- Materialização de B como ato de renúncia à subjetidade (Subjekt-Seyn) e decisão pela objetidade, cedendo o centro à potência anteriormente excluída. Ao tornar-se matéria, B converte-se no assente (Setzende) do Deus relativamente espiritual, porém não como princípio gerador, mas como aquele que o gera no sentido de mãe (mater), pois matéria (materia) e mãe são conceitos identificados. O princípio substantivo da consciência (B), que se havia erigido como Deus positivo, agora se materializa perante a consciência, transformando-se de divindade masculina em feminina.
- Transição natural e necessária da masculinidade à feminilidade na representação divina, expressa mitologicamente pela substituição do soberano celeste masculino por uma divindade feminina, a rainha do Céu (MELAE-KAETH HASCIIMAIM), conhecida entre diversos povos como Mylitta, Astarte ou Urania. Na mitologia grega, esse momento é representado pela emasculação de Urano por Cronos, donde surge Afrodite (também chamada Urania), confirmando a identidade essencial com as representações asiáticas. Tal transição é entendida como um afrouxamento súbito da tensão, um “tornar-se mulher” (θηλύνεσθαι) do divino.
- Posição histórica de Urania como primeira divindade que sucede diretamente ao sabismo, marcando a transição para a mitologia propriamente dita (politeísmo sucessivo). Heródoto atesta que os persas, após venerarem a revolução celeste (Zeus), o sol, a lua e os elementos, aprenderam com assírios e árabes a sacrificar a Urania (por eles chamada Mitra). Seu nome, Mitra, deriva claramente de “mãe” (MADER em persa), confirmando sua natureza de divindade materna primordial. O nome Mylitta, por sua vez, vem do verbo “escapar, salvar-se”, expressando a ideia de que a matéria é uma evasão (Entkommenes) do conflito anterior.
- Caráter ainda a-mitológico e anicônico do sabismo e do culto dos elementos que o acompanha, os quais eram venerados como entidades espirituais (análogos aos anjos) e não como deuses antropomórficos. A veneração dos elementos (fogo, água, ar, terra) associada ao culto estelar deve-se a sua natureza ainda supra-corpórea e cósmica, partilhando da espiritualidade do princípio exclusivo. Com a degeneração do sabismo em culto material das estrelas, também a veneração dos elementos perde seu sentido espiritual primordial.
- Urania como primeiro abaixamento (catale) do princípio outrora em ereção, fundando assim a base do mundo (Grund der Welt) a partir da qual a diversidade concreta poderá emergir. Ela representa na mitologia o mesmo momento que, na natureza, corresponde ao início verdadeiro da natureza, quando a espiritualidade originária começa a materializar-se para tornar-se acessível à potência superior demiúrgica. A presença de um santuário de Mitra (a Mãe) em Sardes, atestado por Plutarco, e a associação dessa divindade feminina com o elemento aquático (como Derketó síria ou Afrodite nascida do mar), reforçam sua interpretação como princípio materno passivo, base do desenvolvimento mitológico posterior, que em algumas tradições como o zoroastrismo seria reprimido em favor de um dualismo que interrompe o processo mitológico pleno.
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